Crítica: Carro Rei


Engrenagem do ódio

Com ficção-científica, Renata Pinheiro aborda o uso de tecnologias para promover o fanatismo e a manipulação ideológica das massas. 



Destaque em festivais de cinema como Gramado, de onde saiu com quatro prêmios (filme, trilha sonora, direção de arte e som), além de um troféu especial do júri para a atuação de Matheus Nachtergaele, sem dúvida um dos grandes destaques da produção, Carro Rei é um daqueles filmes que promete cindir a opinião dos espectadores. Isso será resultado não só da óbvia alegoria que faz sobre a atual situação do Brasil, mas por toda a maneira como a cineasta Renata Pinheiro (conhecida por longas como Amor, Plástico e Barulho e Açúcar) articula e apresenta sua história e suas personagens, totalmente avessa a gramáticas estandardizadas na linguagem cinematográfica. Carro Rei é daquelas experiências extremas (curiosamente, acabamos de abordar uma delas aqui no site com o filme Tudo em todo lugar ao mesmo tempo, clique aqui)

O longa narra a história de Ninho (Luciano Pedro Jr.), rapaz que também é chamado de Uno por ter nascido dentro de um carro. Ninho cresce em uma família cujo pai é dono de uma frota de taxi e a mãe herda com o tio um ferro velho. Por toda esta vinculação com automóveis, o rapaz desenvolve a habilidade de se comunicar com essas máquinas. É quando o seu tio Zé Macaco (Matheus Nachtergaele) restaura um carro velho que essa relação fica ainda mais intensa. Nesse momento, o rapaz tem que decidir de que lado estará em uma iminente revolução das máquinas liderada pelo veículo criado revivido por Zé Macaco. 

Não faz muito tempo que vimos uma obra cinematográfica traçar comentários interessantes sobre a relação do homem com máquinas. Titane de Julia Ducornau, vencedor da edição de 2021 de Cannes recém-lançado no Mubi, apresenta um body horror curioso a partir da jornada de uma jovem que sofre um acidente de carro quando criança e se transforma em uma espécie de ciborgue após um procedimento cirúrgico. Carro Rei possui paralelos com este longa francês, apresentando até algumas cenas de sexo entre humanos e automóveis, mas fica evidente pelo seu contexto de realização e pelo local onde se passa sua história que a realizadora quer estabelecer uma crítica cirúrgica sobre os caminhos que a sociedade brasileira tem traçado nos últimos anos com o governo de Jair Bolsonaro. 

Aquilo que inicialmente é chamado de resistência, logo ganha ares de culto liderado pelo Carro Rei, tendo o mecânico Zé Macaco como ponte para a execução de um plano de manipulação. Aqui, há evidentes paralelos com a relação estabelecida entre bolsonaristas e o atual presidente brasileiro, com direito até ao personagem de Matheus Nachtergaele bradando em dado momento do filme: "Caruaru acima de todos!". Além disso, está presente no filme uma esquisita relação que se cria entre o homem e a tecnologia, oscilando entre a situação de humanos que são governados por essa macroestrutura predatória e imperialista da tecnologia e os momentos em que essas ferramentas são usadas para a manipulação das massas por meio de deturpações da realidade. Tudo isso não é muito diferente do uso que grupos políticos têm feito do Twitter e do Whatsapp para disseminar fake news, parte fundamental da estratégia de ascensão da extrema direito em muitos países, inclusive o Brasil, mas também da estranha relação que muitos deles possuem com essas empresas e os CEOs por trás de suas políticas. 

Todos esses paralelos entre ficção e realidade são construídos de forma instigante e envolvente por Renata Pinheiro na tela. A diretora imprime um visual interessante para a obra tornando Carro Rei uma espécie de representante de um sertão-futurismo, toda uma tecnologia possível à realidade de Caruaru. Automóveis retro-futuristas que circulam pelas vielas simples do interior de Pernambuco com seus seguidores humanos convertidos em primatas trajados por roupões azul e amarelo. Há escolhas estéticas fascinantes ao longo da narrativa. 




Parte do bom resultado visto na tela em Carro Rei se dá também pela performance enérgica e comprometida (como de costume) de Matheus Nachtergaele. O ator transforma o seu Zé Macaco em um símio, empenhando-se em trazer para a expressão corporal do personagem o andar de um primata além de emitir, sempre que possível, sons que nos remetem ao animal. A atuação de Nachtergaele assume contornos ainda mais intensos quando seu personagem entra em uma espiral de megalomania, fazendo o ator exibir tudo isso não só com uma postura corporal que passa a ser ameaçadora, mas por um olhar que exprime puro fanatismo. Matheus faz o equivalente que Andy Serkis fez na trilogia Planeta dos Macacos, mas ainda melhor, sem CGI. Aliás, o próprio longa tem um paralelo inegável com os filmes da série e até com O Exterminador do Futuro no cunho filosófico e pessimista das suas reflexões sobre as relações do homem com o nosso planeta e para onde a humanidade está caminhando da forma como tem se comportado. 

Carro Rei é movido por esse comentário social apresentado com criatividade pela sua realizadora, que tem insights muito bons sobre nossa história atual. É verdade que o longa peca na sua execução com uma narrativa que por vezes emperra e não consegue acompanhar suas ideias e que, a exceção do Zé Macaco de Matheus Nachtergaele, é repleta de personagens que não mobilizam tanto o interesse do espectador, mas não há como negar que Renata Pinheiro realizou uma obra das mais importantes ao falar como poucas de maneira tão precisa e completa sobre nossa realidade. 

 

Avaliação


Título original: Carro Rei 
Ano: 2021
Duração: 109 minutos
Nos cinemas
Direção: Renata Pinheiro
Roteiro: Renata Pinheiro, Sergio Oliveira e Leo Pyrata
Elenco: Matheus Nachtergaele, Luciano Pedro Jr., Clara Pinheiro, Tavinho Teixeira, Jules Elting, Adélio Lima, Ane Oliva, Alexandre Lima, Joelma Martins. 

Assista ao trailer:



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Chovendo Sapos: Crítica: Carro Rei
Crítica: Carro Rei
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