Cher e a superação do estigma da "cantora aspirante a atriz"


Depois de 8 anos da sua última aparição nos cinemas com o musical Burlesque, Cher retorna às telas com outro musical Mamma Mia!: Lá Vamos Nós de Novo, continuação do sucesso comercial de 2008 protagonizado por Meryl Streep. Contudo, Mamma Mia! 2 é só uma pontinha no iceberg da carreira notável de Cher nas telas. Cher conseguiu algo que colegas como Madonna tentaram e não obtiveram êxito, a cantora é uma das raras figuras da indústria a ter saído da música e construído uma carreira como atriz, acumulando  o reconhecimento dos críticos por seus desempenhos e obras, sendo requisitada por grandes diretores e acumulando prêmios notórios no segmento como um Oscar, três Globos de Ouro, um Emmy e uma vitória como melhor atriz no prestigiado Festival de Cannes.  

Mais curioso ainda é notar que a passagem de Cher pelo cinema e pela televisão é formada por pouquíssimos trabalhos, a maioria localizados na década de 1980 e início dos anos 1990. Ícone para a comunidade gay, atualmente Cher se dedica mais a suas esporádicas turnês pelo mundo com a apresentação de seu conhecido repertório musical e aproveita o lançamento de Mamma Mia! 2 para divulgar sua turnê com canções do Abba. No entanto, a trajetória de Cher como atriz segue uma referência mirada por jovens como Lady Gaga, que tanto deseja uma indicação ao Oscar por seu musical Nasce uma Estrela depois de vencer um Globo de Ouro de melhor atriz por American Horror Story: Hotel em 2016. 

Cher começou a ambicionar algo além da sua carreira musical em suas apresentações no programa The Sonny & Cher (imagem abaixo), show que apresentava ao lado do seu ex-esposo Sonny Bono e que era formado por uma série de esquetes intercaladas com números musicais protagonizados pelos dois. Durante o tempo em que esteve no ar na década de 1970, The Sonny & Cher recebeu 15 indicações ao Emmy e foi um renascimento para a cantora e seu parceiro que tiveram uma carreira meteórica na música durante a década de 1960, mas passaram por maus bocados com direito a divergências criativas do casal que acabaram se tornando públicas. The Sonny & Cher representou a reconciliação de Cher com o público. 


Apesar de já ter atuado nos filmes Good Time, ao lado do próprio Sonny, Chastity e de ter participado de episódios de séries como O Agente da U.N.C.L.E., a carreira de Cher só veio a decolar como atriz na década de 1980, quando esteve em James Dean, o mito sobrevive de Robert Altman, mas sobretudo quando topou participar do drama Silkwood: O Retrato de uma Coragem (imagem abaixo) do diretor Mike Nichols (A Primeira Noite de um Homem) ao lado de Meryl Streep e Kurt Russell. Recentemente, em entrevista ao programa britânico The Graham Norton Show, a artista recordou a recepção que a imprensa teve durante o anúncio do elenco da produção dias antes do início das filmagens. Cher relatou que todos reagiram com entusiasmo quando os nomes de Streep e Russell foram anunciados, mas que ouviu um constrangedor silêncio e algumas risadas quando Nichols e os produtores de Silkwood revelaram que ela viveria a operária Dolly Pelliker. 

Mesmo marcado pelo estigma da "cantora que quer virar atriz", o desempenho de Cher em Silkwood foi bem recebido quando o longa começou a ser exibido nos EUA. Na história, Cher interpretava a amiga e colega de trabalho da personagem de Streep, uma operária e ativista sindical contaminada por plutônio. Em 1984, o filme recebeu cinco indicações ao Oscar, melhor direção, melhor edição, melhor roteiro original, melhor atriz para Streep e melhor atriz coadjuvante para Cher, que ganhou o prêmio Globo de Ouro na mesma categoria. Antes de Silkwood, Cher havia sido indicada ao Globo de Ouro um ano antes como melhor atriz coadjuvante pelo filme James Dean, o mito sobrevive e venceu um prêmio como melhor atriz de TV em comédia ou musical por The Sonny & CherMamma Mia!: Lá Vamos Nós de Novo marca o retorno da parceria entre Meryl e Cher trinta e cinco anos depois de Silkwood.


Se a indicação ao Oscar pareceu uma boa resposta a quem duvidava da capacidade do trabalho de Cher como atriz, o prêmio de melhor atriz em Cannes pelo drama Marcas do Destino (imagem abaixo) de Peter Bogdanovich definiu de vez que a artista não estava para brincadeira sobre sua carreira no cinema. O filme contava a história de um adolescente cuja deformidade facial era confundida por todos com uma máscara. Cher interpretava a mãe do garoto que lutava contra toda uma sociedade para fazer com que o filho fosse aceito pela comunidade numa escola pública. 

Além de Cher, Marcas do Destino tem Sam Elliott e a jovem Laura Dern no seu elenco. O longa é representante de uma fase não muito bem quista da carreira de Bogdanovich, que marcou a geração de 1970 com filmes como Lua de Papel A Última Sessão de Cinema, mas ainda assim é um exemplar que demonstra como profissionais graúdos da indústria estavam interessados em ter a atriz Cher no elenco dos seus filmes e como suas interpretações passaram a ser chamariz para as principais premiações do seu tempo. Além do prêmio em Cannes, Cher foi indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz na categoria drama. 


1987 foi um ano definitivo para a carreira de Cher nos cinemas. Ela estrelou o drama criminal Sob Suspeita ao lado de Dennis Quaid e Liam Neeson e co-estrelou As Bruxas de Eastwick (imagem abaixo), uma deliciosa comédia com tons fantásticos que tinha no elenco nomes como Jack Nicholson, Susan Sarandon e Michelle Pfeiffer e que era comandada por George Miller, no auge com os filmes da franquia Mad Max encabeçados por Mel Gibson. Em As Bruxas de Eastwick, Cher dava vida a uma das três mulheres que se envolvia com o personagem de Nicholson, um ricaço responsável por fazer da vida delas um pandemônio. 


No entanto, 1987 representou um grande momento para a carreira de Cher como atriz porque foi nesse ano que veio o desempenho que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz. No romântico O Feitiço da Lua (imagem abaixo), Cher interpretava uma jovem viúva prestes a se casar com um homem mais velho, mas que acabava se apaixonando pelo cunhado, um padeiro interpretado por Nicolas Cage. A direção do filme era de Norman Jewison, de Um Violinista no Telhado e No Calor da Noite, e o roteiro tinha a assinatura de John Patrick Shanley, o mesmo dramaturgo que levou Dúvida para o teatro e posteriormente para o cinema com Meryl Streep encabeçando o elenco. 

Feitiço da Lua venceu três estatuetas do Oscar das seis que disputava: melhor atriz, melhor atriz coadjuvante para Olympia Dukakis e melhor roteiro original para John Patrick Shanley. No Oscar, Cher venceu uma categoria que tinha como concorrentes Glenn Close por Atração Fatal, Meryl Streep por Ironweed, Holly Hunter por Nos Bastidores da Notícia e Sally Kirkland por Anna


Depois de O Feitiço da Lua, a carreira de Cher nos cinemas teve uma pausa para que ela pudesse se dedicar a seus projetos na música. Somente em 1990, a artista chegaria com um novo filme para o público, a comédia Minha Mãe é uma Sereia (imagem abaixo), trazendo no seu elenco as jovens Christina Ricci e Winona Ryder como filhas da personagem de Cher. No longa, Cher interpretava uma mãe solteira que se mudava constantemente de cidade com as filhas, tendo conflitos sobretudo com a mais velha, interpretada por Ryder. O filme teve uma resposta simpática dos críticos e chegou a concorrer em uma categoria do Globo de Ouro, melhor atriz coadjuvante para Winona Ryder, que não venceu na ocasião. 


Com os anos 1990, a quantidade de projetos de Cher nos cinemas diminuiram. Depois de Minha Mãe é uma Sereia, tivemos uma participação dela em O Jogador de Robert Altman em 1992, além dela ter estrelado Fiel, mas nem tanto. 

No mesmo ano de lançamento de Fiel, mas nem tanto, Cher estrelou e co-dirigiu O Preço de uma Escolha (imagem abaixo) ao lado de Nancy Savoca. O filme era uma produção original da HBO cujo elenco principal era formado pelas atrizes Demi Moore, Sissy Spacek e Anne Heche. No longa, Heche, Moore e Spacek interpretam três mulheres que em diferentes épocas e dentro de uma mesma casa em Chicago devem decidir se interrompem ou não suas respectivas gestações. Cher vivia a médica do terceiro segmento do filme, ambientado em 1996 e protagonizado por Heche. 

O Preço de uma Escolha registrou a maior audiência até hoje da HBO para um telefilme, fazendo com que em algumas partes do mundo algumas distribuidoras adquirissem a obra e a exibissem em salas de cinema. O projeto recebeu três indicações ao Globo de Ouro e ao Emmy e ganhou uma continuação em 2000 com as atrizes Sharon Stone, Michelle Williams, Vanessa Redgrave entre outras. 


Muita gente diz que Cher é diva e que é difícil lidar com seu temperamento e exigências de estrela nos sets, mas a verdade é que a artista nunca se intimidou na hora de dividir a cena com grandes nomes. Pelo contrário, ela sempre procura projetos que facilitaram seu encontro com gente de peso, sobretudo grandes atrizes. Basta ver o cast dos projetos que já citamos aqui e de Chá com Mussolini (imagem abaixo), drama de 1999 do diretor italiano Franco Zeffirelli. Cher estampava um pôster que vinha com os nomes de Maggie Smith, Judi Dench, Lily Tomlin e Joan Plowright num filme que trazia a história de um rapaz criado por um grupo de mulheres na Itália da Segunda Guerra Mundial, um país comandado por Mussolini. O filme não teve a repercussão de outros projetos de Cher, sobretudo em premiações, mas marcou o encontro dela com esses nomes consagrados.


Depois de participações na série Will & Grace e no filme Ligado em Você, Cher retornaria aos cinemas no infame musical Burlesque (imagem abaixo) de 2010. O filme teve a missão de lançar a carreira de Christina Aguilera nos cinemas. Curiosamente, Cher faria uma personagem que seria uma espécie de mentora da jovem interpretada por Aguilera, uma moça que chega do interior e entra para o mundo dos números neo-burlesque numa casa de shows de Los Angeles. 

Burlesque era dirigido e roteirizado por Steve Astin, que até aqui só tinha sido conhecido por seu trabalho como ator em filmes como Os Goonies e Acusados, além de ter dirigido alguns filmes que saíram diretamente em vídeo. O musical foi indicado a três Globos de Ouro, vencendo na categoria melhor canção para "You haven't seen the last of me", cantado pela própria Cher. Fracassado nas bilheterias e com uma péssima reputação entre os críticos, Burlesque recebeu essa glória no Globo de Ouro numa leva de alguns dos piores títulos já indicados na categoria comédia ou musical (entenda o caso aqui).


Difícil saber se Mamma Mia!: Lá Vamos Nós de Novo representa o último trabalho de Cher como atriz. O filme soa mais como uma participação e, apesar de simpático, não representa nem 1/3 daquilo que a artista já nos entregou na ficção. No entanto, é sempre uma celebração ver Cher nas telonas e aproveitar cada momento desse reencontro dela com o público, sobretudo quando a vemos cantando Abba ao lado de Andy Garcia. 

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Chovendo Sapos: Cher e a superação do estigma da "cantora aspirante a atriz"
Cher e a superação do estigma da "cantora aspirante a atriz"
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