O cinema e Philip Roth, uma relação em constante adaptação


Falecido na última terça-feira (22), aos 85 anos de idade, vítima de uma insuficiência cardíaca, o escritor Philip Roth era um dos nomes mais proeminentes no campo das expressões artísticas dos Estados Unidos. Vencedor do Pulitzer pelo romance Pastoral Americana de 1997 e favorito por diversas vezes ao Prêmio Nobel, Roth tinha uma escrita particular e preocupações temáticas corriqueiras em suas obras. 

O escritor tinha 60 anos de carreira e mais de 30 livros publicados, com obras que contemplavam romances, ensaios e contos. Integrante de uma comunidade judaica, Roth volta e meia trazia histórias protagonizadas por personagens que viviam às voltas com as tradições dos seus vínculos religiosos, entendendo suas identidades na sociedade americana, ainda que o próprio escritor se declarasse ateu. 

Nos seus textos, Roth era um provocador. Ironizava a moral da burguesia judaica americana, criticava o cenário político, refletia acidamente sobre o avançar da idade etc. Interessado em explorar temas como o desejo sexual e em utilizar artifícios como o monólogo interno, o autor ganhou fama mundial com O Complexo de Portnoy, obra que lhe rendeu acusações de antissemitismo, gerou muita polêmica mundo afora e da qual ele, durante muitos anos, evitou comentar a recepção. 

Como muitos escritores consagrados e lucrativos no mercado editorial de todo o mundo, os romances e contos de Roth ganharam adaptações para o cinema, uma tarefa ingrata para roteiristas e diretores que se aventuraram na transposição para o audiovisual das palavras de um autor cuja obra era cheia de autorreflexão. 


Battle of Blood Island (1960)
Dir.: Joel Rapp

O primeiro texto de Roth a ganhar vida como adaptação cinematográfica foi o conto Expect the Vandals, que saiu na revista americana Esquire em dezembro de 1958 e ganhou uma versão como filme em 1960 pelas mãos do diretor e roteirista Joel Rapp chamada Battle of Blood Island (a revista disponibiliza uma versão do texto original no seu arquivo aqui). O filme nunca ganhou um título em português e foi o segundo e último trabalho de Rapp como diretor. Depois disso, ele seguiu com sua carreira como roteirista de séries de TV, entre elas A Feiticeira e The Lucy Show

 Battle of Blood Island tinha cerca de uma hora e quatro minutos de duração e foi lançado como dupla sessão juntamente com Ski Troop Attack de Roger Corman, outro filme de guerra. O filme contava a história de dois soldados americanos sobreviventes de um confronto com tropas japonesas presos numa ilha. O principal conflito da história girava em torno da rivalidade dos dois protagonistas, que não se gostavam e passavam o filme inteiro tentando encontrar uma maneira de resolver suas diferenças a fim de escapar do local cercado por japoneses.


Paixão de Primavera (1969)
Dir.: Larry Peerce

Levou cerca de oito anos para que um outro texto de Roth ganhasse vida nas telonas, o eleito foi Adeus, Columbus, traduzido para o cinema como Paixão de Primavera. Antes dele, o trabalho de Roth tinha aparecido na televisão através das adaptações de seus contos para programas como Alfred Hitchcock Presents (o episódio The Contest for Aaron Gold de 1960) e Quest ( através dos episódios Eli, the Fanatic e Paul Loves Libby). 

Paixão de Primavera era dirigido por Larry Peerce (de O Incidente) e era uma comédia sobre um rapaz de poucos recursos que se apaixonava por uma rica garota de família judaíca. O casal resolve se encontrar às escondidas no quarto de um hotel e a relação é descoberta pela família da moça. O longa era protagonizado pelo ator Richard Benjamin (Westworld e O Fim de Sheila) e por Ali MacGraw, que um ano depois estrelaria Love Story: Uma História de Amor. O roteiro de Arnold Schulman (O Preço de um Prazer) recebeu uma indicação ao Oscar de melhor roteiro adaptado na edição da premiação de 1970, a única adaptação de um texto de Roth a conseguir tal feito com a Academia.


O Complexo de Portnoy (1972)
Dir.: Ernest Lehman

Em 1972, o polêmico O Complexo de Portnoy chega às telas com um longa de mesmo título. A história girava em torno de um escritor milionário que tinha dificuldade para lidar com sua obsessão por sexo. Quanto mais ele reprimia seus impulsos, mais estranhos seus desejos se tornavam. A obra literária é verborrágica e tem um conteúdo sexual aguçado. O protagonista constantemente relata suas fantasias para um psicanalista e o filme foi bem fiel a esse aspecto do texto. 

O roteiro e a direção de O Complexo de Portnoy ficou a cargo do renomado Ernest Lehman, responsável pelos textos de Intriga Internacional de Alfred Hitchcock e Quem Matou Virginia Woolf? de Mike Nichols. Para interpretar o protagonista, Lehman escalou Richard Benjamin, que já havia encarnado um personagem de Roth antes em Paixão de Primavera. Diferente do longa de 1969, esta adaptação de Philip Roth para os cinemas não foi bem aceita, seguindo um reiterado descompasso do texto do escritor com a linguagem cinematográfica.


Revelações (2003)
Dir.: Robert Benton

O receio de adaptar o ácido e autorreflexivo texto de Roth era tão grande que uma outra adaptação do autor só viria nos anos 2000, mais especificamente no ano de 2003. A Marca Humana era um texto publicado em 2000 como romance e fora tão controverso quanto O Complexo de Portnoy. O livro trazia a história de um professor universitário que tem sua vida virada de cabeça para baixo quando revelações sobre a sua origem familiar vêm à tona fazendo com que o próprio personagem reflita sobre erros cometidos no passado ao manter tais informações sob sigilo. 

No Brasil, A Marca Humana foi traduzido como Revelações quando chegou aos cinemas. O protagonista do livro fora interpretado por Anthony Hopkins e o filme ainda trazia Nicole Kidman dando vida a Faunia, uma faxineira com quem ele mantinha uma relação amorosa ao longo da história. O roteiro era de Nicholas Meyer, conhecido por seu trabalho em alguns filmes da série Jornada nas Estrelas e pelo romance Sommersby: O Retorno de um Estranho. A direção era de Robert Benton, vencedor do Oscar por Kramer vs. Kramer

Diversos aspectos da obra foram mal vistos pela crítica na ocasião, da escalação dos atores, sobretudo Anthony Hopkins, às soluções que o roteiro de Meyer encontrou para traduzir a maneira como o próprio Roth entendia seu protagonista Coleman Silk. 


Fatal (2008)
Dir.: Isabel Coixet

Cinco anos depois de Revelações, o roteirista Nicholas Meyer se arrisca novamente com Philip Roth. O eleito da vez foi O Animal Agonizante, chamado no cinema de Fatal. Nas mãos da diretora Isabel Coixet (de A Vida Secreta das Palavras), o longa teve uma recepção mais favorável que o trabalho anterior do roteirista. Em agregadores de crítica como o Rotten Tomatoes o filme tem uma avaliação positiva de 75% dos críticos que escreveram algo sobre a obra. 

Fatal trazia a história de um crítico cultural e professor universitário interpretado por Ben Kingsley que afirma passar por um período de "emancipação da sua masculinidade". O passado mulherengo do protagonista, inclusive, lhe causou problemas familiares com cicatrizes na sua relação com seu único filho, que nunca o perdoou pelas traições cometidas no casamento com sua mãe. 

Além de Kingsley, Fatal traz no seu elenco Penélope Cruz interpretando uma estudante cubana por quem o protagonista se apaixona. Vale destacar ainda que Coixet foi a única mulher a encabeçar o departamento criativo de alguma adaptação cinematográfica dos textos de Roth, além da roteirista Michal Zabede como verão no título a seguir. Até aqui, todas as adaptações das obras do autor estiveram a cargo de cineastas do sexo masculino.


O Último Ato (2014)
Dir.: Barry Levinson

Baseado no romance A Humilhação, O Último Ato talvez seja um das adaptações mais obscuras da passagem do universo de Philip Roth nos cinemas. Como Revelações e Fatal, temos como centro dramático de O Último Ato o relacionamento amoroso entre um homem mais velho e uma mulher mais jovem. Aqui, os intérpretes dos personagens são Al Pacino e Greta Gerwig. 

No filme, Pacino interpreta um ator de 65 anos em crise que, durante a reclusão, acaba se apaixonando pela filha de um amigo que havia conhecido quando ainda era criança. Ela abandona um relacionamento estável que tinha e passa a viver com o ator sessentão. Com o passar do tempo, no entanto, as diferenças entre as gerações do casal passam a ser um problema. 

O longa é dirigido por Barry Levinson, de filmes como Rain Man e Mera Coincidência, e o roteiro, por sua vez, é da dupla Bucky Henry (A Primeira Noite de um Homem) e Michal Zabede (da série Castle). A iniciativa da adaptação de A Humilhação partiu de Pacino, que enxergou no livro de Roth material para uma comédia irônica sobre a crise da maturidade, sugerindo posteriormente Levinson como o diretor ideal para comandar o longa. O filme passou por festivais importantes como Veneza e Toronto, mas com repercussão mediana. 


Pastoral Americana (2016)
Dir.: Ewan McGregor

A próxima adaptação foi uma das mais aguardadas pelos fãs do autor. Livro de 1997, Pastoral Americana rendeu a Roth os principais prêmios da sua carreira, incluindo o Pulitzer. A história da obra gira em torno de um casal modelo dos Estados Unidos da década de 1960, um ex-atleta colegial e uma ex-miss, que enfrentam turbulências no lar quando a única filha sai de casa e é "tragada" por movimentos e ideias sobre a sociedade da época. 

A gestão de Pastoral Americana nos estúdios de cinema americanos começou em 2003 quando o diretor Philip Noyce (Terror a Bordo e Jogos Patrióticos) foi escalado para a direção, compondo seu elenco com a recém vencedora do Oscar Jennifer Connelly (Uma Mente Brilhante), Paul Bettany e Evan Rachel Wood. Desde então, o longa sofreu constantes adiamentos até que em 2014 as coisas começaram a sair do papel, porém somente Noyce e Connelly permaneciam atrelados ao longa. Bettany foi substituído por Ewan McGregor e Dakota Fanniong interpretaria o papel que seria de Wood. Em 2015, Noyce saiu da direção e, desejando levar a produção adiante, McGregor assume a responsabilidade de conduzir a história roteirizada por John Romano (O Poder e a Lei). 

Pastoral Americana foi a estreia de McGregor como diretor de um longa. O longa não foi bem recebido pelos críticos quando estreou na edição de 2016 do Festival de Toronto. Como resultado, o lançamento comercial do filme pela Lionsgate foi modesto e no Brasil o filme só chegou pela Netflix em 2017 (analisamos brevemente o longa aqui no site). 


Indignação (2016)
Dir.: James Schamus

A última obra de Roth a ganhar as telonas foi Indignação, baseado no romance homônimo do escritor publicado em 2008. Lançado no mesmo ano de Pastoral Americana, o filme é a segunda direção de longas da carreira de James Schamus, roteirista de Ang Lee em diversos filmes (O Tigre e o Dragão e Tempestade de Gelo entre eles). Schamus também roteirizou a história que abordava os conflitos de um universitário judeu lidando com a repressão sexual da comunidade de Ohio quando se apaixona por uma colega de classe mal vista pelo reitor da instituição. 

Diferente de Pastoral Americana, Indignação recebeu ótimas críticas quando fez parte da seleção de festivais como Sundance. No entanto, quando chegou ao circuito comercial o "boca a boca" não foi suficiente para garantir a popularidade da obra.

O jovem Logan Lerman (de As Vantagens de ser Invisível) produz e interpreta o protagonista e Sarah Gadon, atriz preferida de David Cronenberg na atualidade, interpreta a personagem feminina central da história. Em 2016 chegamos a inclui-lo na lista dos 10 melhores filmes lançados no Brasil naquele ano (veja aqui). Também escrevemos uma crítica na ocasião (leia aqui). 

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Chovendo Sapos: O cinema e Philip Roth, uma relação em constante adaptação
O cinema e Philip Roth, uma relação em constante adaptação
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