Crítica: A Odisseia

 


Uma das produções mais ambiciosas de 2026, A Odisseia representa alguns desafios para seu diretor, Christopher Nolan, conhecido por um cinema mais "pragmático", avesso ao fantástico mesmo quando teve que lidar com o universo das HQs (trilogia Batman). O texto de A Odisseia traz consigo todas as referências mitológicas do clássico grego de Homero, com suas feiticeiras, criaturas fantásticas e deuses. Além disso, é um texto que traz no centro da sua narrativa uma tragédia familiar: um pai que retorna da guerra para os braços da sua esposa e filho que não viu crescer. Nolan sempre foi um diretor mais "duro", pouco afeito a emoções mais intensas, e quando teve que lidar com isso a percepção sobre seus esforços nesse sentido foi divisiva (Interestelar). Em A Odisseia ele parece lidar de forma mais fluida com essas duas demandas, ainda que exiba uma certa resistência em abraçá-las, confirmando ainda um trabalho primoroso naquilo que sempre faz muito bem, a direção de sequências de ação em escala épica.  

A Odisseia narra eventos que sucedem a guerra de Troia, quando um dos importantes soldados do lado vencedor, Ulisses (aqui chamado de Odisseu), empreende esforços para retornar a Ítaca. Lá, sua esposa Penélope o espera enquanto é cobiçada por vários pretendentes, todos interessados no trono de Odisseu. À espera de Odisseu também está Telêmaco, o único filho dele com Penélope. 

A versão do texto de Homero dramatizada por Christopher Nolan tem o mérito de conseguir reproduzir a dimensão grandiosa dessa história. Avesso ao CGI, infelizmente uma "muleta" para a maioria dos blockbusters contemporâneos na produção de cenários, Christopher Nolan vai a locações, conferindo uma atmosfera muito mais crível e visualmente impactante para a história. Além disso, Nolan conduz como ninguém cenas de ação. O início de A Odisseia é marcado por um tom mais episódico, contando alguns dos percalços da jornada de Odisseu. O que torna algo aparentemente disperso mais fluido é a habilidade do diretor em prender a atenção do espectador a todo momento, seja na sequência do Ciclope ou naquela que o exército do protagonista encontra uma feiticeira. Nolan prende o espectador, deixa a gente apreensivo, vidrado na tela acompanhando cada movimento dos seus personagens em suas batalhas e estratégias de guerra milimetricamente pensadas pelo seu diretor. 



A julgar por este filme, hoje, Nolan parece mais confortável para lidar com a ludicidade que um material como A Odisseia impõe. Diferente de Troia (2004) de Wolfgang Petersen, a presença de deuses, magias e criaturas mitológicas é garantida em A Odisseia, mesmo que o diretor insista em ter seus pés firmes no realismo ao inserir esses elementos. Não chega a ser a forma tímida como Nolan lidou com os elementos fantásticos das HQs na trilogia Batman, todos esses recursos da mitologia grega estão muito presentes aqui, mas tudo é caracterizado com referências estéticas do mundo como conhecemos (a aparência humana dos deuses e dos gigantes, por exemplo). 

No terceiro ato da história, A Odisseia passa a ser centrado no regresso de Odisseu, destacando as performances de Matt Damon (Odisseu) e Anne Hathaway (Penélope), os dois pilares dramáticos da história junto com Tom Holland (Telêmaco) em meio a um elenco volumoso formado ainda por Robert Pattinson, Charlize Theron, Zendaya, Lupita Nyong'o, Mia Goth, John Leguizamo e Samantha Morton. 

A Odisseia confirma qualidades já reconhecidas do cinema de Christopher Nolan, seu preciosismo na condução de sequências complicadas de ação. No entanto, exibe outras boas facetas do diretor exploradas com uma certa falta de traquejo anteriormente. Além disso, é uma interpretação do clássico grego que de forma muito sensível consegue acessar temas da história que a transformam em algo além do épico de ação, construindo uma narrativa declaradamente antiguerra quando os EUA e o mundo vivem um momento tão belicista. 


Avaliação




Título original: The Odissey
Ano: 2026
Duração: 172 minutos
Nos cinemas
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan
Elenco: Matt Damon, Anne Hathaway, Tom Holland, Robert Pattinson, Charlize Theron, Lupita Nyong'o, Samantha Morton, Elliot Page, John Leguizamo, Jon Bernthal, Mia Goth. 


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Chovendo Sapos: Crítica: A Odisseia
Crítica: A Odisseia
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