O diretor Felipe Sholl tem o mérito de não ter maiores acanhamentos na exposição do sexo, fazendo o espectador mergulhar não só na intimidade de seu protagonista e na descoberta de sua própria sexualidade, mas também em um contexto que ora se revela sedutor, ora destrutivo por afetos mal geridos. Longe de representar pejorativamente a sexualidade livre como um perigo ou descaminho, Sholl faz um estudo meticuloso da psique de seu jovem protagonista: sua falta de preparo para a vida, aquilo que o fascina, o que ele esconde, o que ele descobre, quem ele é, o que quer ser e a identidade que irá assumir a partir dali. Nada representa o todo; fica claro desde o início que tudo aquilo é uma ótica muito particular.
Sholl pode contar com uma performance marcante de Caio Macedo, que vive o protagonista Gabriel com muita intensidade, expondo sua ingenuidade e fragilidade em carne viva para, próximo ao desfecho da história, se reconstruir, concretizando o rito de passagem vivenciado pelo personagem a partir de um primeiro amor muito marcante. Alejandro Claveaux também está muito bem como Adriano, o destrutivo namorado de Gabriel, e ainda há ótimas presenças no elenco coadjuvante, como Diva Menner, “rainha” das noites LGBT na Glória.
O longa também tem uma sensibilidade imagética bastante apurada, principalmente quando coloca na tela registros em primeira pessoa do celular dos personagens, expondo poeticamente o pensamento íntimo de Gabriel e também de Adriano. A montagem do longa também é muito perspicaz ao contrapor essa memória registrável dos personagens com a realidade captada pela câmera.
Ruas da Glória é bastante completo como experiência. Mergulha o protagonista Gabriel e seu espectador em uma verdadeira jornada psicológica atravessada pela sexualidade. É cru e sensual, mas também sensível e psicologicamente complexo. Nesse sentido, Felipe Sholl constrói um drama psicossexual como rito de passagem para um jovem homem gay de forma muito bem-sucedida, sem muitos floreios e pudores — intenso.








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