Crítica: Ninguém sai vivo daqui


Na década de 1980, o Hospital Psiquiátrico Colônia em Barbacena, interior de Minas Gerais, ficou conhecido por ambientar para alguns dos maiores atos de desumanidade da história do nosso país. Desde a década de 1970, o hospital recebia internos das mais diferentes localidades do Brasil. Pessoas tidas por seus familiares ou pelo Estado como "não agradáveis" eram levadas em trens para a instituição sem diagnóstico algum de doença mental: jovens grávidas, mendigos, homossexuais etc. Pelas condições com que os internos eram tratados, mais de 60 mil pessoas morreram no local naquilo que ficou conhecido como o "holocausto brasileiro" (há até um ótimo documentário sobre o assunto, Holocausto Brasileiro de 2016 dirigido por Daniela Arbex, que, por sinal, co-assina o roteiro desse longa). 


O diretor André Ristum (de Meu País) tenta dramatizar eventos ocorridos no Hospital Colônia a partir de personagens fictícios em Ninguém sai vivo daqui. O ponto de partida e de chegada do filme é a história da jovem Elisa, personagem de Fernanda Marques. Em 1971, Elisa chega à instituição grávida e com um diagnóstico de esquizofrenia, um pretexto criado pelo pai conservador da garota para "tirá-la de circulação". No hospital psiquiátrico, Elisa conhece outros internos com histórias semelhantes às suas e tenta a todo custo fugir dos diretores e enfermeiros do local sem muito sucesso. 

O grande problema de Ninguém sai vivo daqui é que o filme não consegue construir uma linha narrativa consistente com modulações que permitam uma imersão do espectador na vivência de horror que o filme deseja dimensionar. Ao invés de se dedicar à construção de um arco dramático que explore e faça evoluir a psicologia daquela que parece ser a sua protagonista, o filme opta por mudanças abruptas na personalidade de Elisa. Além de não fazer muito por sua protagonista, o filme não sabe muito bem o que fazer com as personagens que estão no seu entorno. 

A enfermeira interpretada por Naruna Costa deixa de ser linha dura quando assume um cargo de maior responsabilidade e passa a ser subitamente compreensiva com os internos. Outra resolução incômoda do roteiro é a maneira como ele utiliza e descarta a personagem de Rejane Faria (de Marte Um). Assim que a personagem de Faria reencontra o filho, ela sai de cena de forma precoce e sem dar muita vazão a esse clímax, frustrando o espectador dado o potencial da atriz e da sua personagem. Outra figura completamente anulada pelo longa é a atriz Andrea Horta, que surge em cena sempre como um presságio para Elisa. Enfim, nenhuma dessas atrizes merece o destino que o filme reserva a suas personagens.  



Ninguém sai vivo daqui também entra na armadilha de não "abraçar" o gênero horror. Em vários momentos, o filme de André Ristum dá pistas de querer transformar a história dos internos do Hospital Psiquiátrico Colônia em um longa de terror por algumas decisões criativas da obra, a exploração de recursos como jump scares, sua trilha sonora com acordes soturnos e a fotografia em preto e branco, o que seria um grande acerto do projeto já que o tema "loucura" rende bastante no gênero. No entanto, o horror parece uma aposta tímida nas mãos de um realizador que volta e meia recua na história e apela para o drama fácil não conseguindo com essa indecisão expressar em toda a sua potencialidade a violenta  experiência do "holocausto brasileiro" pelo ponto de vista das suas vítimas. 


Avaliação




Título original: Ninguém sai vivo daqui
Ano: 2023
Duração: 90 minutos
Nos cinemas 
Direção: André Ristum
Roteiro: André Ristum, Marco Dutra, Daniela Arbex e Rita Gloria Curvo
Elenco: Fernanda Marques, Rejane Faria, Andreia Horta, Naruna Costa, Samuel de Assis, Rafaela Mandelli, Nicola Siri, Marco Bravo, Paulo Américo, Márcio Américo. 

Assista a uma cena do filme:




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Chovendo Sapos: Crítica: Ninguém sai vivo daqui
Crítica: Ninguém sai vivo daqui
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