Crítica: Back to Black



Se você não testemunhou o fenômeno Amy Winehouse surgir na cena musical nos anos 2000 ou sequer ouviu falar da cantora, certamente, Back to Black não é a melhor fonte de informações sobre a mesma. Dirigido por Sam Taylor-Johnson (Cinquenta Tons de Cinza), a cinebiografia de Amy Winehouse que chega aos cinemas em 2024 reforça tudo aquilo que foi em parte responsável pela derrocada da artista, culminando com sua morte precoce aos 27 anos em julho de 2011. 

Claro que, os problemas emocionais, o vício pelas drogas e a relação tóxica com o ex-marido Blake Fielder foram combustíveis para a Amy Winehouse falecer de forma tão trágica ainda muito jovem, mas o sensacionalismo com que a mídia especializada abordou a vida privada da artista foi um grande gatilho para suas maiores crises, ofuscando o seu grande talento e sua contribuição artística para a música. Back to Black parece endossar a todo momento a perspectiva de grandes tablóides sensacionalistas sobre Amy Winehouse.

Abordando parte da vida e da carreira de Amy Winehouse, do seu surgimento com o álbum Frank em 2003 a sua meteórica ascensão com Back to Black, obra que lhe rendeu cinco Grammys, Back to Black passa a impressão de não ter o menor apreço ou cuidado pela sua biografada. O filme de Sam Taylor-Johnson resume a história da artista a inúmeros episódios de recaídas e "loucuras" com o ex Blake Fielder. 

Sam Taylor-Johnson parece hipnotizada pelos momentos mais tristes da trajetória de Winehouse, sequer contextualizando sua contribuição artística, algo completamente dissolvido e explicado de forma breve no primeiro ato do longa. No momento em que Amy conhece Blake, a narrativa de Back to Black parece obcecada em capturar os pontos mais baixos da vida da artista, resumindo a trajetória de Winehouse a um relacionamento fadado à tragédia por ser marcado pela toxicidade. É certo que este é um episódio da vida da artista, mas Winehouse não é apenas isso e como pretensa cinebiografia da vida da cantora Back to Black falha nesse intento.


Para piorar o cenário, o olhar de Taylor-Johnson para a condição de um dependente químico é o mais estereotipado possível, fazendo o longa soar como uma obra concebida por um grupo conservador obstinado em retratar a vida de Amy Winehouse como um alerta para os jovens não caírem no mesmo erro daquela celebridade sabotada pelo "descaminho" das drogas. No final das contas, não há muita diferença entre Back to Black e um especial do Fala que eu te escuto que abordaria a fama como um componente maléfico que leva jovens para o caminho sem volta das drogas. É difícil encarar em 2024 uma visão tão quadrada e insensível sobre a dependência química, a depressão e relacionamentos amorosos tóxicos como a que vemos Taylor-Johnson empregar em Back to Black.

O elenco faz o que pode com uma obra com tantos deslizes. Marisa Abela incorpora com dedicação Amy Winehouse, dentro e fora dos palcos. A veterana indicada ao Oscar Lesley Manville (Trama Fantasma) tem bons momentos ao lado da jovem atriz como a tia que foi fonte de inspiração para Winehouse. Jack O'Connell também está bem como Blake Fielder, trabalhando com sintonia ao lado de Abela. Contudo, nenhum deles é capaz tornar Back to Black um filme leve ou denso em seu olhar para a trajetória da cinebiografada. 

A tese de Taylor-Johnson ("as drogas são um caminho sem volta") e sua perspectiva condenatória para Amy Winehouse parece consumir qualquer lampejo de positividade na obra. Mesmo nos momentos em que Taylor-Johnson valoriza o desempenho de Abela como Amy Winehouse nos palcos, ensaiando momentos positivos sobre a vida da artista, algo que parece rememorar ao público a potência musical que foi a cantora, a montagem do filme imediatamente interrompe esses esforços para privilegiar algum instante mais down da sua protagonista. Enfim, difícil defender.


Se longas como Bob Marley: One Love e I wanna dance with somebody falharam por abafar polêmicas dos seus protagonistas, preferindo adotar uma narrativa de "colcha de retalhos" que parecia mais um clipe cheio de reconstituições de momentos das vidas dos seus cinebiografados, Back to Black vai em um caminho oposto, mas igualmente ruim. O longa de Sam Taylor-Johnson sobre Amy Winehouse é escandaloso e tem um olhar impiedoso para uma artista cujos escândalos injustamente sufocaram sua contribuição na música. 

Se a intenção do projeto era prestar uma homenagem, o resultado visto na tela não é este. Back to Black até disfarça com um momento ou outro de respiro na vida de Amy Winehouse, mas no fundo, quer mesmo explorar sua derrocada e observa isso com um olhar conservador impiedoso que potencializa um juízo condenatório sobre sua protagonista. 

O filme é um grande desserviço ao legado artístico de uma cantora cujo talento era tão fora da curva que a tornou insubstituível. Quer conhecer mais Amy Winehouse, sua vida e obra, sua contribuição artística para o mundo da música, mas também seus percalços pessoais? O documentário Amy de Asif Kapadia lançado em 2015 segue definitivo nesse intuito. 


Avaliação


Título original: Back to Black
Ano: 2024
Duração: 122 minutos
Nos cinemas
Direção: Sam Taylor-Johnson
Roteiro: Matt Greenhalgh
Elenco: Marisa Abela, Jack O'Connell, Lesley Manville, Eddie Marsan, Juliet Cowan, Sam Buchanan, Pete Lee-Wilson, Michael S. Siegel. 

Assista ao trailer:





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Chovendo Sapos: Crítica: Back to Black
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