Crítica: Pedágio


Entre os realizadores do cinema brasileiro atual, Carolina Markowicz tem se destacado, sobretudo no circuito de festivais internacionais. Tanto seu filme anterior Carvão, lançado no ano passado, quanto Pedágio, seu mais recente título, foram recebidos com entusiasmo pela crítica internacional por contar de maneira crua, crível e humana a realidade do país com dramas centrados em problemas humanos e sociais. No centro de suas histórias estão famílias disfuncionais em meio às mazelas do contexto social brasileiro. 

Pedágio traz a história de uma mulher que trabalha em um pedágio em São Paulo. Ela vive só com o filho Tiquinho e tem se relacionado com um rapaz que tem dormido com uma certa frequência em sua casa. A protagonista de Pedágio tem um profundo incomodo com a homossexualidade do filho, sobretudo porque ele se expõe nas redes sociais fazendo dublagens de famosas divas americanas. Quando essa personagem toma ciência por uma colega de trabalho de um programa de conversão da sexualidade promovido por um pastor de uma igreja evangélica, ela começa a juntar dinheiro para pagar com a "terapia" do filho. Como a quantia é muito grande, ela passa a flertar com as atividades criminosas do namorado, usando o seu trabalho no pedágio para cometer alguns furtos. 


Em Pedágio, Markowicz segue com o seu propósito de construir histórias sensíveis, centradas em conflitos familiares mas contextualizada na realidade de classes menos favorecidas, centrando suas discussões na maneira como seus personagens se posicionam em searas como ética e afeto em meio a um panorama sócio-econômico que tanto testa seus valores. A questão central do novo filme da cineasta é a homofobia de Suellen, personagem defendida brilhantemente pela excepcional Maeve Jinkings, que já havia trabalhado com a diretora em Carvão. 

A dinâmica entre Suellen e o filho Tiquinho é marcada por tensões, questões nada bem resolvidas. Há afeto entre eles, mas o preconceito da mãe é um obstáculo. Tiquinho é um garoto inteligente, criativo, corajoso, trabalhador e carinhoso, mas todas as qualidades do filho são irrelevantes para a mãe que só consegue enxergá-lo através dos rótulos sociais associados a sua sexualidade. O rapaz busca de todas as formas possíveis a aprovação da mãe, algo muito importante para ele, muitas vezes se violentando, como quando se submete a tal terapia de conversão, mas tudo é em vão até o último segundo de Pedágio

Markowicz  não floreia ao tematizar a homofobia presente em muitas famílias brasileiras. A diretora não soluciona sua história com um happy ending mascarando a realidade, ainda que também não deixe de oferecer algum alento para suas personagens. Mesmo depois de tantas decisões que se revelam equivocadas e Suellen perceba que no fim das contas Tiquinho é seu único suporte e que ela deve dar uma trégua na forma como lida com a sexualidade do filho, o preconceito não desaparece "da noite para o dia" e os entraves na comunicação entre mãe e filho persistem até o fim. O recado da cineasta é bem claro, a  homofobia e não a homossexualidade macula relações afetivas, gerando distanciamentos, mágoas e traumas. 

Além do tratamento delicado com temas tão urgentes no contexto social do Brasil atual, ainda muito homofóbico, Markowicz conta com ótimos atores no seu elenco, um grupo de artistas que conduz com muita sensibilidade as personagens dessa história. Maeve Jinkings, como já antecipamos, está excepcional como Suellen, uma mulher sofrida e repleta de falhas. Além dela, Kauan Alvarenga é o grande destaque do filme do começo ao fim como Tiquinho. Cabe destacar também a participação de Aline Marta Maia como a colega de trabalho de Suellen, Telma, uma evangélica hipócrita que trai o marido com diversos motoristas que passam pelo pedágio.



Pedágio não é o primeiro filme a abordar essas terapias de conversão da sexualidade. Antes dele, no cinema de língua inglesa, por exemplo, tivemos os dramas Boy Erased: Uma Verdade Anulada e O Mau Exemplo de Cameron Post. O acerto de Markowicz é compreender tão bem os problemas que levam muitas famílias a conduzirem seus filhos a esses engodos terapêuticos, violentando-os psicologicamente. Assim, o filme discute a homofobia como um problema estrutural que desintegra relações familiares. Por ter um olhar tão sensível e problematizador para o âmago das questões que permeiam as suas temáticas e por expô-las de forma tão direta e terna, evitando os clichês do melodrama, que faria a história cair em um artificialismo, Pedágio é um filme que só acerta com o espectador, firmando Markowicz como um grande nome do nosso cinema atualmente.



Avaliação

Título original: Pedágio
Ano: 2023
Duração: 102 minutos
Nos cinemas
Direção: Carolina Markowicz
Roteiro: Carolina Markowicz
Elenco: Maeve Jinkings, Kauan Alvarenga, Aline Marta Maia, Thomas Aquino, Isac Graça, Caio Macedo. 


Assista ao trailer:


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Chovendo Sapos: Crítica: Pedágio
Crítica: Pedágio
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