Crítica: Crescendo Juntas


Narrativas sobre ritos de passagem existem aos montes na história recente do cinema, mas ainda são poucas aquelas que dedicam esse tipo de conto a protagonistas femininas e abordagens mais leves, conseguindo conciliar uma ótica humana para o assunto, mas divertida. Crescendo Juntas preenche esses requisitos e revela-se uma história que pode ser apreciada por pais e filhas, contemplando todos os dilemas possíveis que surgem na pré-adolescência de uma garota. 

O longa dirigido e roteirizado por Kelly Fremon Craig a partir do livro de Judy Blume conta a história de uma menina de 11 anos que se muda com os pais de Nova York passando a morar no subúrbio de Nova Jersey, bem longe da avó judia. É nesse momento que Margaret passa por um processo de adaptação, mas adequar-se à nova escola e aos novos colegas passa a ser o menor dos seus problemas diante das diversas questões que lhe surgem como desafios. 


Crescendo Juntas aborda temas como o primeiro sutiã, o primeiro amor, a menstruação e a intolerância na escola e no ambiente familiar através da trajetória da sua jovem protagonista construída com sensibilidade e doçura pela diretora Kelly Fremon Craig. O mérito do trabalho da cineasta é jamais subestimar os dilemas da sua personagem principal, ainda que trate todas essas questões com aquela ótica ingênua da infância. 

A menina Margaret está sempre se dirigindo a um Deus que nunca fez parte da sua vida, já que seus pais (um judeu e uma católica) decidiram que a filha só optaria por uma religião quando fosse adulta em virtude dos conflitos severos que o assunto legou ao núcleo familiar. A cineasta utiliza esse recurso não como uma muleta para construir uma narrativa repleta de edificação religiosa, mas como um mecanismo bem humorado que reforça a inocência da protagonista, ampliando ainda mais nossa compreensão sobre o estado de ebulição de emoções de Margaret. A garota vive um momento tão limítrofe que recorre a uma intervenção divina nunca antes aventada e daquela forma completamente desprovida de malícia típica de uma menina da sua idade.  

Além do ciclo de transformação enfrentado pela personagem principal, o longa aborda as mudanças vivenciadas pela mãe da protagonista na medida em que esta toma contato com o crescimento da própria filha. A personagem em questão é interpretada com sensibilidade por Rachel McAdams personificando muito bem os dilemas de uma mulher da sua época, mas que encontra eco em questões contemporâneas vivenciadas por muitas pessoas que abdicam das suas próprias realizações para se dedicar exclusivamente ao projeto da maternidade - e aqui me refiro não àquelas que fazem isso com convicção, mas às que seguem esse destino para se encaixar em algum molde social. 

A mãe interpretada por McAdams encontra um ponto de independência e se desvencilha de ideias socialmente impostas sobre "mães de família" na década de 1970 e nesse sentido é interessante também perceber como a própria Margaret se deixa levar por padrões comportamentais da sociedade ainda jovem. Em diversos momentos, Margaret emula comportamentos preconceituosos do seu novo grupo de amigas, como aquele que direciona a uma colega de classe mais velha ou quando abdica da sua opinião a respeito dos garotos mais bonitos da escola para não parecer esquisita ao expressar uma escolha completamente divergente da maioria. Assim como a mãe, Margaret também se desvincula dessa pressão e expectativa social sobre a sua ao longo da história, tornando Crescendo Juntas uma bela narrativa sobre a emancipação feminina.  


Outros atores têm momentos muito bons na história como Kathy Bates, cuja avó judia cheia de vida (e roupas e joias exuberantes) enche o filme de alegria e ironia quando surge na tela, ou Benny Safdie, intérprete do pai carinhoso de Margaret, mas o elenco infantil do longa é quem tem grande destaque. O filme é encabeçado por Abby Ryder Fortson, uma jovem atriz que dá cadência e personalidade a todos os dilemas de Margaret, passando ainda pelo grupo de amigas da protagonista liderado Nancy Wheeler, interpretada de maneira extremamente inteligente por Elle Graham. Graham dá vida a uma garota insegura, mas com espírito de liderança e lealdade, dominando boa parte das cenas em que o longa dá destaque para a sua protagonista, como no momento em que se apresenta para Margaret ou na sua primeira menstruação. 

Kelly Fremon Craig fez de Crescendo Juntas um filme leve e sensível sobre uma fase complicada da vida de qualquer pessoa, procurando universalidade e empatia no tratamento dessa história, mas evitando qualquer tipo de estereotipia na construção das suas personagens. A diretora consegue realizar um filme com crianças, eventualmente direcionado para elas, que não soa infantil ou bobo, ao mesmo tempo que não abre mão da leveza, da doçura e da beleza que pode estar escondida nesse processo cheio de conflitos  e expectativas que é gradualmente tornar-se adulto É um longa perfeitamente recomendável para adultos e pré-adolescentes que certamente encontrarão pontos de entendimento para dilemas tãoo recorrentes nessa fase de transição para a a vida adulta que todos já viveram, estão vivendo ou um dia viverão. 



Avaliação


Título original: IAre you there god? It's me, Margaret
Ano: 2023
Duração: 106 minutos
Disponível no HBO Max
Direção: Kelly Fremon Craig
Roteiro: Kelly Fremon Craig e Judy Blume
Elenco: Abby Ryder Fortson, Rachel McAdams, Kathy Bates, Benny Safdie, Elle Graham, Isol Young, Aidan Wojtak-Hissong, Echo Kellum, Kate MacCluggage, Katherine Mallen Kupferer


Assista ao trailer:



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Chovendo Sapos: Crítica: Crescendo Juntas
Crítica: Crescendo Juntas
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