Crítica: Rotting in the Sun

 


Rotting in the Sun é dirigido e roteirizado pelo multifacetado diretor chileno Sebastián Silva e, sem dúvida, um dos filmes mais inusitados de 2023. O título é uma mistura de gêneros, enfatizando a comédia e a trama criminal para narrar uma história protagonizada pelo próprio Sebastián, interpretando a si próprio no longa. Em meio a uma crise profissional e existencial, o diretor Sebastián Silva acaba sendo o foco de uma trama bizarra de mistério envolvendo uma morte acidental (tento evitar ao máximo os detalhes para não estragar a experiência do leitor com um filme no qual quanto menos soubermos da trama, melhor será a nossa experiência com ele). 


Silva e o influenciador Jordan Firstman interpretam versões adaptadas de si mesmos nesse filme, que tem início com uma lisérgica viagem a uma praia de nudismo gay onde Silva conhece Firstman e a partir desse encontro surge a ideia de um projeto audiovisual juntos. A abordagem de Silva para os personagens, sobretudo ele e Firstman, flerta com a auto-depreciação, a ironia e o sarcasmo, pautando a partir de ambos comentários irônicos a respeito da existência atual. 

O olhar de Rotting in the Sun é singular e cheio de personalidade, escapando por completo de qualquer pasteurização imposta por um cinema industrializado, mas o filme flerta de maneira irreverente com cânones de um cinema clássico. Há também cenas de nudez e relações sexuais entre os personagens, fazendo da hipersexualidade um outro comentário bem-humorado do realizador à comunidade LGBTQIA+. 

Nada é muito sisudo nessa história. Apesar do comprometimento com a crítica, Rotting in the Sun é marcado pela irreverência. Esse tom é sentido a partir do enfrentamento da crise existencial do gênio criativo protagonizada por Sebastián Silva absorto na mediocridade das demandas atuais da sua profissão na era da plataformização, um olhar para si que o diretor jamais leva a sério, flertando constantemente com o ridículo ao se identificar como um sujeito neurótico e absorto em sua própria existência.  A abordagem cômica segue quando a história cai no ridículo da involuntária e estúpida trama à la Agatha Christie que toma conta de parte do filme quando a atmosfera de investigação criminal absorve o universo daqueles personagens e alguns deles têm que dar conta de esconder um corpo enquanto outros buscam respostas para o desaparecimento de um personagem. Nesse momento, uma personagem que até então ficava à espreita na história ganha um protagonismo: Vero, a empregada de Silva interpretada de maneira muito interessante por Catalina Saavedra. 



Poucas obras conseguem surpreender o espectador atualmente com tamanho frescor na utilização de gêneros tão conhecidos do espectador e combiná-los em uma roupagem absolutamente original. Rotting in the Sun é um desses filmes, escapando da obviedade e das nossas expectativas a respeito da sua história, sempre surpreendendo o público com seu olhar, seus personagens e a interação que estabelecem ao longo da narrativa. É um filme que condensa uma série de temas borbulhantes nos nossos tempos já explorados à exaustão em outros projetos (a crise criativa do artista na contemporaneidade, sociabilidade digital, a fugacidade de relacionamentos na comunidade LGBTQIAP+), mas que aqui surgem com um frescor que entusiasma. 


Avaliação


Título original: Rotting in the Sun
Ano: 2023
Duração: 109 minutos
Disponível no Mubi
Direção: Sebastián Silva
Roteiro: Sebastián Silva e Pedro Peirano
Elenco: Jordan Firstman, Sebastián Silva, Catalina Saavedra, Martine Gutierrez, Alberto Rafael Cortes, Fernando Rafael Cortes, Anajo Aldrete, Gustavo Melgarejo


Assista ao trailer:





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Chovendo Sapos: Crítica: Rotting in the Sun
Crítica: Rotting in the Sun
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