Crítica: Passagens

 
Em Passagens, Ira Sachs desenvolve um interessante panorama sobre os termos em curso nos relacionamentos contemporâneos a partir de três personagens que se encontram e se desencontram ao longo das econômicas, mas eficientes, uma hora e meia de narrativa. No longa, Franz Rugowski (Em Trânsito e Great Freedom) interpreta Tomas, um diretor de cinema que vive há alguns anos um relacionamento aberto com o namorado Martin, Ben Whishaw em momento inspiradíssimo depois de entregar uma bela atuação no oscarizado Entre Mulheres. O personagem de Rugowski conhece Agathe, uma professora de educação infantil vivida por Adèle Exarchorpoulos (Azul é a Cor mais Quente) e imediatamente se sente atraído por ela, algo que desestabiliza sua antiga relação com Martin. 

O trio vive entre idas e vindas. Tomas separa-se de Martin para viver com Agathe. Logo depois o personagem se arrepende e volta a namorar Martin. Em um terceiro momento, uma vida a três chega a ser proposta, sem sucesso, pelo personagem de Rugowski. Em todos esses movimentos do trio de protagonistas, Ira Sachs, também responsável pelo roteiro do filme, desenvolve com profundidade os desejos e as personalidades dos seus personagens alicerçado pelo ótimo desempenho dos seus três atores.


Como Tomas, Franz Rugowski traz para a tela um sujeito envolvente, mas completamente instável, propulsor de relacionamentos abusivos com seus dois parceiros. Tomas gosta de ser o centro das atenções da vida de Martin e Agathe. O diretor se irrita quando um ou outro se afasta do seu convívio, ou seja, todos têm que estar na sua órbita e à disposição do temperamento de Tomas. Qualquer elemento estrangeiro que adentre em suas relações e que de alguma forma rivalize um protagonismo com Tomas é diminuído com desdém infantil por ele. Rugowski conduz de maneira fascinante essa dualidade de Tomas. Inicialmente, o diretor revela-se uma figura fascinante, capaz de seduzir e despertar a curiosidade dos seus parceiros - e consequentemente do público -, para, logo em seguida, revelar-se a pior experiência amorosa possível para qualquer pessoa. 

Ben Whishaw tem um desempenho silencioso e comovente ao longo do filme como Martin, pincelando sutilmente os sentimentos que permeiam a trajetória do seu personagem ao longo da história. Martin é um homem gay que não consegue desvencilhar-se das manipulações de Tomas, tendo dificuldade para dizer "não" e sempre cedendo aos caprichos do namorado, ainda que, curiosamente, seja o elo da relação que "segura as pontas", quem toma coragem para verbalizar as decisões mais difíceis a serem tomadas na condução do relacionamento. Em uma cena de sexo entre Tomas e Martin, Sachs "brinca" com essa pretensa passividade do personagem quando ele é quem toma uma posição ativa na cama com o namorado, desconstruindo qualquer tipo de estereótipo que o espectador possa vir a ter a respeito de dinâmicas em relacionamentos gays, algo que a sociedade costuma assumir ao adotar uma perspectiva binária nessas relações. 

O terceiro elemento desse triângulo não é menos interessante. Adèle Exarchopoulos tem grandes momentos em Passagens sobretudo quando sua personagem passa a questionar o seu lugar na relação entre Tomas e Martin, passando a se sentir só e descartada pelo antigo parceiro quando este retorna para o ex-namorado e propõe uma vida a três. Se no desenvolvimento de Martin Ira Sachs desconstrói alguns estigmas associados a homens gays, no que diz respeito a Agathe de Adèle Exarchopoulos o diretor também subverte algumas ideias a partir da firmeza com a qual sua personagem estebelece limites às investidas de Tomas, contrapondo-se imediatamente à submissão de Martin e sendo a grande responsável pelo despertar deste personagem para sua condição de vítima dos caprichos do namorado.  A oposição entre os personagens quebra as expectativas porque na sociedade em que vivemos espera-se sempre que dinâmicas abusivas envolvam casais heterossexuais com vítimas mulheres, por exemplo. A maneira como Passagens complexifica essas discussões é o que garante a originalidade da obra. 



Com esse mosaico riquíssimo de personagens, Ira Sachs faz uma síntese interessante sobre relacionamentos em nossos tempos e a subversão de expectativas a respeito das reações dos seus personagens às dinâmicas propostas pelos seus parceiros. Nesse sentido, Passagens é um filme maduro que trata essas relações com a complexidade que elas exigem, mas também com ausência de preconceitos. Quem gosta de dramas calcados em dilemas sobre relacionamentos amorosos, tem aqui um "prato cheio". O filme entrega personagens de psicologia complexa, é econômico em sua duração, mas não faz com que seus noventas minutos de projeção sejam sinônimos de superficialidade, pelo contrário, tem uma direção sensível e elegante de Ira Sachs e é protagonizado por três atores que entregam interpretações afiadas e cheias de sincronicidade e química. 


Avaliação


Título original: Passages
Ano: 2023
Duração: 91 minutos
Nos cinemas e disponível no Mubi
Direção: Ira Sachs
Roteiro: Ira Sachs, Mauricio Zacharias e Arlette Langmann
Elenco: Franz Rugowski, Ben Whishaw, Adèle Exarchopoulos, Erwan Kepoa Falé, Arcadi Radeff, Léa Boublil, Théo Cholbi, William Nadylam. 


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Chovendo Sapos: Crítica: Passagens
Crítica: Passagens
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