Crítica: O Exorcista - O Devoto

 


Mais cedo ou mais tarde, tamanha a crise de criatividade em Hollywood, seria inevitável: o cinema americano retomaria O Exorcista, um dos filmes de horror mais importantes da história do cinema, responsável por uma mudança de vetor no entendimento do próprio gênero na década de 1970. Produzido pela Blumhouse, produtora especializada em filmes de terror, O Exorcista: O Devoto retoma o clássico de William Friedkin sob a direção de David Gordon Green, recém-saído do questionável revival de Halloween. A ideia do diretor e dos produtores é de criar a partir de O Exorcista: O Devoto uma série de novos filmes que tenham o clássico dos anos 1970 como farol. Sendo bem direto e honesto com o leitor: o resultado de O Exorcista: O Devoto beira o ofensivo. 

O Exorcista: O Devoto conta a história de um viúvo que cria sozinho a sua filha e de repente se vê surpreendido pelo comportamento estranho da garota quando ela e uma amiga de colégio, que também exibe um comportamento esquisito, desaparecem por três dias e retornam para casa sem maiores explicações. Quando a suspeita de que as meninas estão possuídas por um demônio ganha evidências mais sólidas, a ex-atriz Chris MacNeil (Ellen Burstyn) é chamada para dar uma ajuda no caso em virtude da sua experiência pessoal com a possessão demoníaca de sua única filha Reagan na década de 1970, relatada por ela em um livro que virou best-seller anos depois. 


Por ser uma continuação de O Exorcista - mais uma entre tantas péssimas tentativas - e pelos realizadores inserirem no longa elementos que imediatamente convocam o clássico - do tema musical de Krzysztof Penderecki à própria presença de Ellen Burstyn, indicada ao Oscar pelo seu desempenho em 1973 - a comparação entre as obras na avaliação deste O Exorcista: O Devoto é legítima. E, por esse prisma, O Devoto falha com o público de forma constrangedora. 

Também creditado como um dos autores do roteiro, o diretor David Gordon Green parece não compreender muito bem o que permeia o clássico. O Exorcista funcionou com as plateias na década de 1970 e sobreviveu à passagem do tempo porque é um longa de terror que extrapola a mera produção de efeitos, propondo discussões filosóficas sobre temas como fé quando muitos (de maneira preconceituosa) pensavam que essa abordagem poderia não estar no radar de um filme do gênero. Além disso, o longa de 1973 tinha uma direção exemplar de William Friedkin, um realizador que conseguiu construir gradualmente uma atmosfera apavorante para a sua história, dando uma verdadeira aula de cinema. 


O Exorcista: O Devoto banaliza o material base, reduzindo-o a um horror genérico com discussões rasas e reiterativas sobre a natureza da crença. Como se não bastasse, o filme de 2023 ainda constrange por ensaiar um revisionismo que jamais se sustenta, como a ausência de protagonismo feminino na história do exorcismo (Gordon Green soa como o protótipo do diretor "feministo"). Em dado momento, o longa chega a diminuir o protagonismo da Igreja Católica na história substituindo o lugar de destaque da instituição e dos seus religiosos por uma proposta de exorcismo ecumênico ou por um exorcismo praticado por cidadãos comuns, como os pais das meninas possuídas e uma enfermeira que desistiu de ser freira interpretada por Ann Dowd. A extensa cena de exorcismo civil coletivo das garotas é constrangedora, beirando o humor involuntário tamanha solenidade com que a obra trata aquele momento construído de forma risível pelo seu roteiro e pela direção de Green. 

A presença do catolicismo como uma instituição ativa no exorcismo em O Exorcista potencializava as discussões do filme de 1973 sobre a fé e sobre dogmas do catolicismo. David Gordon Green suprime um elemento que poderia ter rendido momentos interessantes com a dualidade de crenças dos pais das garotas (o viúvo é um cético e se contrapõe ao casal católico fervoroso). No lugar disso, Gordon Green traz uma espécie de exorcismo freestyle que coloca a veterana Ellen Burstyn na saia-justa de fazer a sua Chris MacNeil tomar a iniciativa de um exorcismo em dado momento da história. 

Outra questão que merece ser levantada a respeito do tratamento da personagem de Burstyn é que O Devoto sequer parece compreender a psicologia estabelecida para a personagem no filme de 1973. É bem questionável, por exemplo, a iniciativa de Chris de transformar em livro o episódio da possessão de sua filha Reagan. Conhecendo a personagem e o lugar onde a deixamos no filme de 1973, podemos duvidar se seria do feitio de MacNeil trazer tanto holofote para aquele episódio tão traumático na vida dela e de sua filha. 

Com uma direção protocolar que sequer tem esmero em fazer justiça ao legado da obra original, apesar de sempre convocá-la, O Exorcista: O Devoto é mais um capítulo constrangedor na história de um cinema atual que se apropria do passado e o banaliza em prol da bilheteria. O filme não entende muito bem aquilo que garantiu o sucesso do seu material original, fazendo desse título um terror barato sem a menor energia e espírito inventivo. É espantoso como em quase duas horas de projeção Gordon Green tenha exibido tanta falta de traquejo com um clássico amplamente discutido na história do cinema e não consiga externalizar a mínima empolgação por mexer em um legado tão importante.  



Avaliação


Título original: The Exorcist: Believer
Ano: 2023
Duração: 111 minutos
Nos cinemas
Direção: David Gordon Green
Roteiro: David Gordon Green, Peter Sattler e Scott Teems
Elenco: Leslie Odom Jr., Ellen Burstyn, Ann Dowd, Lidya Jewett, Olivia O'Neill,  Jennifer Nettles, Raphael Sbarge, Norbert Leo Butz, Ben Bladon, Chloe Traicos. 


Assista ao trailer:




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Chovendo Sapos: Crítica: O Exorcista - O Devoto
Crítica: O Exorcista - O Devoto
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