Crítica: Retratos Fantasmas

 


Retratos Fantasmas soa como uma síntese da identidade cinematográfica do cineasta Kleber Mendonça Filho. O filme classificado comercialmente como um documentário, pode ser entendido também como um filme-ensaio do diretor. Um dos principais traços deste formato é a subjetividade implicada na obra que utiliza, em parte, imagens já realizadas para refletir sobre um determinado estado do audiovisual, muitos cineastas já o realizaram para elaborar pensamentos sobre sua própria filmografia, mas também esse tipo de obra pode servir para o realizador divagar sobre questões quaisquer. 

Em Retratos Fantasmas, Kleber narra em primeira pessoa eventos que tangenciam sua memória e que deixaram suas marcas em filmes importantes da sua carreira, de curtas como Recife Frio e Eletrodoméstica aos longas O Som ao Redor e Aquarius, cujas cenas intercalam o percurso da pesquisa empreendida pelo diretor para esse relato. Retratos Fantasmas é, nesse sentido, ensimesmado nos próprios pensamentos e sentimentos de Kleber sobre as imagens, sua pesquisa e sobre lugares e pessoas do passado. Ao mesmo tempo, como já antecipamos, também é um longa fortemente calcado na sua metodologia de realização, evidenciando o passo a passo de uma pesquisa histórica empreendida por Kleber, um fazer que ao mesmo tempo que exibe os frutos desse processo de tecitura do passado revela ao espectador o labor do cineasta para consegui-lo. Pelas duas vias, Mendonça Filho realiza um trabalho fascinante. 


Tendo dedicado parte da minha trajetória acadêmica ao trabalho de Kleber Mendonça Filho (no mestrado, especificamente), em especial à recepção de seu primeiro longa de ficção, O Som ao Redor, e a percepção do diretor sobre sua identidade como cineasta e os temas que tangenciavam sua obra, Retratos Fantasmas reitera percepções que já tinha naquela época sobre a filmografia do pernambucano: a rara capacidade que Mendonça Filho tem de compreender o seu cinema e de se trabalhar publicamente como autor cinematográfico em seus discursos sobre si, traçando com propriedade os temas que lhe preocupam e suas posições a respeito deles, mas também da sociedade brasileira. 

Kleber nunca fala apenas sobre cinema, apesar de ser o mais cinéfilo dos cineastas do seu tempo, e sempre demarca sua posição no mundo com temas e ideias que são recorrentes em seus trabalhos. Retratos Fantasmas segue esta coerência e mesmo que em dado momento centralize sua fala sobre uma cinefilia, nunca é apenas sobre cinema, ou melhor, quando o diretor aqui fala sobre os filmes evidencia a importância social dessa manifestação cultural.  


Tópicos como a influência da mãe de Mendonça Filho na sua formação pessoal e profissional (a historiadora Joselice Jucá) e sua preocupação com a verticalização das grandes cidades, nas quais grandes condomínios de luxo legam ao esquecimento a história dos espaços urbanos sempre esteve presente na carreira do diretor e parece encontrar o seu clímax em Retratos Fantasmas, estando mais do que nunca fortemente atrelado a subjetividade do cineasta. O documentário parte de um retorno do diretor ao seu passado, sua infância em um apartamento do Recife com sua mãe que acabara de se divorciar na década de 1970 para passear pelo centro esquecido da capital de Pernambuco, cujo passado pulsa a presença do cinema de rua, e que hoje, como a maioria desses espaços nos grandes centros, apresenta construções ociosas. 


Mendonça Filho assumidamente adota a metodologia de pesquisa defendida por sua mãe, partindo de uma memória íntima para investigar questões macro e resgatar parte da memória de sua cidade. O resultado disso em Retratos Fantasmas é sim um filme que trata bastante de uma cinefilia, ao tematizar os cinemas de rua do Recife no segundo ato, mas é sobretudo uma reflexão do cineasta sobre como o capitalismo predatório destrói nosso passado, fazendo com que lugares que nos lembram pessoas e momentos importantes das nossas vidas existam fisicamente (em ruínas) ou, como explicita o título do filme, como fantasmas de uma história. 

Retratos Fantasmas escancara de maneira melancólica e doce como é importante preservar o passado. No âmbito pessoal, Kleber Mendonça Filho sempre fez isso com a casa de sua infância, fazendo dela cenário de um dos seus filmes mais emblemáticos, O Som ao Redor.  É por isso que conseguimos entender a tristeza com a qual Kleber percebe o completo apagamento da história dos cinemas de rua no centro de Recife ou a transformação de sua vizinhança em agrupamentos da casas protegidas por cercas cujas visões para o mundo externo são obstruídas por prédios. 

Em Retratos Fantasmas, Kleber também nos fala sobre esta função do audiovisual de preservar o passado, registrar nossa memória, já que materialmente sempre é tão difícil conservá-la, seja por desinteresse público seja pela deterioração natural do tempo, e, consequentemente do porquê filmes são tão importantes para ele. Ao final, Kleber deixa essa mistura de impressões a respeito de Retratos Fantasmas que o engrandece ainda mais com o tempo, coerente com a carreira do diretor é um filme incisivo em sua crítica social, mas também sabe trazer afago e uma carga de sentimento e familiaridade intensa para o espectador. Uma experiência marcante, sem dúvida.


Avaliação


Título original: Retratos Fantasmas
Ano: 2023
Duração: 93 minutos
Nos cinemas
Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho 


Assista ao trailer:



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Chovendo Sapos: Crítica: Retratos Fantasmas
Crítica: Retratos Fantasmas
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