Crítica: Men - Faces do Medo

 


O horror depois do... amor?

Em seu mais recente filme, Alex Garland mergulha na mente da vítima de um relacionamento tóxico. 



Alex Garland não é um cineasta de tímidas ambições. Depois de Ex Machina e Aniquilação, o diretor apresenta aquele que talvez seja o seu trabalho mais arrojado. Men: Faces do Mal é um longa que tenta traduzir em imagens as sequelas psicológicas de uma mulher que acaba de sair de um relacionamento marcado por abusos físicos e psicológicos. 

A ida de Harper (Jessie Buckley de A Filha Perdida) para um chalé em uma propriedade inglesa após romper com seu esposo e vê-lo cometer suicídio é o pretexto para Garland mergulhar na mente dessa protagonista e apresentar para o espectador uma trama que segue a falta de lógica febril de um pesadelo, com representações visuais que se impõem na experiência espectatorial e que muitas vezes não tem propósito narrativo (no sentido da concatenação lógica de eventos) algum. Quando Harper passa a ser assombrada por figuras masculinas grotescas e ameaçadoras, não adianta buscar lógica narrativa, Garland quer impactar o espectador pelo visual, flertando com um body horror "cronenberguiano", e dimensionar as emoções do estado psicológico de sua protagonista - e o faz muito bem. A sequência final dos partos é algo marcante no longa, será difícil esquecer por um bom tempo.  



Men tem início com duas sequências fundamentais para a sua apreensão. Na primeira, Harper presencia o ex James cair da janela do seu edifício. Na segunda, a protagonista come uma maçã disponível no jardim do chalé onde irá se hospedar, uma alusão ao episódio bíblico com Eva. Na conexão entre ambas, Garland sinaliza para o espectador aquele que será o tema central da sua obra, os caminhos pelos quais algumas relações amorosas podem ser destrutivas construindo medos que são ainda mais ameaçadores pois se manifestam no âmbito mental como traumas quando esses amores são dissolvidos. 

O marido que atribui seu suicídio ao "abandono" de Harper, o padre que a condena por não tentar salvar uma relação fracassada, o menino com o rosto de um homem mais velho que se esconde por trás da máscara de uma mulher loura, ofendendo aleatoriamente a protagonista, o stalker que persegue a personagem no seu chalé, o policial que irresponsavelmente o libera da cadeia, o locador de comportamento esquisito. Harper é assombrada de todas as formas, por todos essas figuras, representações masculinas opressoras do passado da personagem, algumas delas possivelmente combinando traços de várias como convém às construções dos sonhos (o menino com a cara de um homem mais velho é uma desses casos). 

Por se tratar de um mergulho literal de Alex Garland na psiquê da sua personagem principal, todas essas figuras na tela surgem com aspectos físicos que contrariam a biologia humana e flertam com o fantástico. De repente, por exemplo, o stalker ganha aparência híbrida com o nascimento de galhos em seu rosto. Em outro momento, ao ser esfaqueado na mão, o membro do perseguidor de Harper se divide e a figura assume uma forma mutante grotesca. Assim como acontece em muitos sonhos ou pesadelos, é interessante como esse jogo sensorial proposto pelas sequências de Men fazem o poder das imagens se sobreporem a lógicas de storytelling. Garland convoca os sentidos, as sensações, isso está acima de qualquer esfera intelectiva na espectatorialidade de Men


O diretor empreende toda essa jornada com os melhores recursos humanos possíveis. Pelo desejo de impactar plasticamente, Men é um trabalho marcado pelo esmero em departamentos como direção de arte, maquiagem e efeitos visuais, que contribuem com a atmosfera de pesadelo na história, mas também com a vocação simbólica do trabalho do realizador. Ele ainda conta com o ótimo desempenho de Jessie Buckley incorporando uma scream queen bem original dada a proposta do realizador, uma espécie de Alice de Lewis Caroll que se perde no caráter sombrio dos seus pensamentos, dos monstros que sua mente cria a partir das suas próprias experiências traumáticas na vida. 

Men: Faces do Mal é um longa que "nasceu" para dividir o público. Certamente, o fato de falarmos de um homem cis concebendo esse delírio imagético trará questionamentos acerca da "autenticidade" do discurso do filme, tendo em vista que, obviamente, ele finca suas bases em preocupações evidentes com questões de gênero. É uma discussão válida e o longa pode ser questionado por esse viés. No entanto, acredito que as qualidades da construção ficcional do diretor mereçam consideração. 

Desde a sua estreia no início do primeiro semestre nos EUA, Men tem colhido impressões mistas dos críticos e da audiência. É natural por falarmos de um trabalho tão radical em tantas vias (quase um mãe! de Darren Aronofsky). Não é uma obra para respostas imediatas no âmbito intelectivo, seus eventos não são merecem ser encarados em uma literalidade, restando ao espectador de uma primeira sessão se deixar levar pelo impacto das imagens que ele traz e é justamente isso que Garland deseja a princípio. É natural e legítimo que muitos não se contentem com isso e procurem mais no filme. Quem se deixa levar pelo resultado sensorial dessas sequências que mesclam asco e beleza, no entanto, terá um saldo bem positivo com a obra. 


Avaliação


Título original: Men
Ano: 2022
Duração: 100 minutos
Nos cinemas
Direção: Alex Garland
Roteiro: Alex Garland
Elenco: Jessie Buckley, Rory Kinnear, Paapa Essiedu, Gayle Rankin, Sarah Twomey, Zak-Rothera-Oxley, Sonoya Mizuno

Assista ao trailer:


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Chovendo Sapos: Crítica: Men - Faces do Medo
Crítica: Men - Faces do Medo
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