Crítica: X - A Marca da Morte

 

Horror e sexo

Em X: A Marca da Morte, uma equipe de filme pornô se torna vítima de serial killers em um rancho no Texas. 

O slasher tem mais um exemplar em X: A Marca da Morte, de Ti West, o mais recente queridinho da A24. O filme acena para uma cartela de velhos temas que rondam o subgênero do horror centrado em tramas nas quais serial killers perseguem um grupo de jovens. O primeiro desses temas é a sexualidade das suas personagens e como elas eventualmente são punidas por manifestá-las sem pudores. Ao mesmo tempo, a religião é algo que perambula a história de uma dessas personagens como sugere a transmissão de um culto que irrompe a narrativa em momentos específicos da obra. Sexo e religiosidade então, dois dos pilares do gênero, surgem como forças motrizes da obra.  

Particularmente, não sinto um esforço muito enérgico de revisão desses elementos do gênero em X: A Marca da Morte. Os vilões da obra perseguem suas vítimas com propósitos castradores de interromper a expressão sexual dos demais personagens como ocorre na tradição do slasher (a grande regra de Pânico sobre o descarte sexista implacável de personagens femininas com sexualidade mais aflorada). A morte pelo sexo é punição em X: A Marca da Morte, mas também, vale sublinhar, uma forma de libertação sexual dos assassinos, que enfim se realizam eroticamente após uma matança por puro recalque. Mesmo assim, me parece um longa que não se empenha arduamente na revisão de algumas questões do gênero. 

Seria injusto não reconhecer os méritos de um filme que é muito honesto com o espectador. Ele não oferece de cara subversões de rotas na construção da sua história, qualquer frustração nesse sentido fica por conta de expectativas do público.  O objetivo central de X: A Marca da Morte parece ser simplesmente abraçar a reverência ao clássico. Nesse sentido, Ti West faz um ótimo slasher, entretenimento garantido que não nega a vocação underground de excessiva violência do subgênero. 

A história de X: A Marca da Morte traz uma equipe de filmagem que chega a um casebre na propriedade de um casal de idosos. Howard e Pearl alugam parte de sua propriedade rural para o grupo que a utiliza para rodar um filme pornô. Conforme as filmagens vão avançando, os jovens locatários começam a ficar temerosos com sua estadia pois uma parte do casal, Pearl, passa a apresentar um comportamento estranho e perigoso. 

A lembrança de O Massacre da Serra Elétrica em X: A Marca da Morte é latente. O longa de West procura incorporar aquela atmosfera decadente, de filme B, suja e "proibida", que garantiu o destaque ao longa de Tobe Hooper na década de 1970. Sobretudo, aquela sensação que o filme causava de violência febril, escalando níveis insuportáveis e doentios, encurralando suas personagens no perigo praticamente incontornável que era ser perseguido pelo Leatherface, o assassino da motosserra que parecia indestrutível. A ambiência em um rancho, a sexualidade latente das suas personagens, o estado psicologicamente doentio de assassinos, representantes de figuras à parte da sociedade... Tudo está lá. West dialoga ainda mais com O Massacre da Serra Elétrica se pensarmos que parte dos protagonistas pertence a uma equipe de filmagem de um filme de baixíssimo orçamento, trazendo para o longa uma estética "vulgar" e que nunca procura qualquer tipo de glamourização. 

West consegue construir muito bem sua escalada de tensão até chegarmos no verdadeiro "festival de sangue" que a obra se transforma conforme os jovens protagonistas passam a ser assassinados. Para além de executar muito bem o que se espera de um slasher, o diretor apresenta algumas dinâmicas pontualmente curiosas com seu grupo de personagens. É interessante, por exemplo, notarmos as tensões, ora veladas, ora expostas, entre os integrantes da equipe do filme pornô, cada um com uma intenção e um olhar diferente na realização daquela obra e para a presença do sexo nela: produtor, diretor e atores. Ao mesmo tempo, os idosos também surgem como personagens instigantes para o espectador, sobretudo pelas pontas soltas em seu passado. Será curioso acompanhar o background desses dois psicopatas em Pearl, spin-off de X: A Marca da Morte que será lançado ainda em 2022 nos EUA.   

Não podemos encerrar nossas considerações sobre X: A Marca da Morte sem tecer alguns elogios a integrantes do seu elenco. Mia Goth tem o maior destaque sobretudo por se dividir entre duas personagens. Goth interpreta a jovem atriz Maxine, que vê no protagonismo do pornô produzido pelo namorado uma forma de se aproximar de Hollywood. Ao mesmo tempo, sob quilos de maquiagem, a atriz interpreta Pearl, a senhora consumida por uma forçada repressão sexual e que começa a apresentar comportamentos estranhos contra o grupo de jovens "libertinos". Mia Goth está excelente nos dois papéis. Cabe ainda elogios a uma das suas parceiras de cena, a atriz Brittany Snow, vive Bobby-Lyne, uma jovem completamente à vontade com a pornografia. Snow tem um ótimo momento quando simula variações de orgasmo em uma cena que sua personagem tem que rodar com o seu namorado. 

É sensível como Ti West faz um filme correto em X: A Marca da Morte. Um longa que se presta muito bem aos efeitos que esse tipo de história proporciona no espectador. Portanto, para quem ama slashers, é um "prato cheio" e muito bem servido.


Avaliação



Título original: X
Ano: 2022
Duração: 105 minutos
Nos cinemas
Direção: Ti West
Roteiro: Ti West
Elenco: Mia Goth, Brittany Snow, Scott Mescudi, Jenna Ortega, Martin Henderson, Owen Campbell, Stephen Ure, James Gaylyn, Simon Prast

Assista ao trailer:





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Chovendo Sapos: Crítica: X - A Marca da Morte
Crítica: X - A Marca da Morte
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