Crítica: Os Primeiros Soldados


História de luta

De maneira terna, Rodrigo de Oliveira aborda o impacto da AIDS na comunidade LGBTQIA+ durante a década de 1980. 



A história de Os Primeiros Soldados já foi contada algumas vezes no cinema, mas o longa de Rodrigo de Oliveira (As Horas Vulgares) consegue suprir algumas faltas desses relatos com muita sensibilidade. O longa narra a jornada de um trio de personagens LGBTQIA+ enfrentando a escalada dos casos de AIDS na comunidade durante a década de 1980. 

Temos em Os Primeiros Soldados, a representação das primeiras vítimas do vírus no Brasil: Suzano (Johnny Massaro), um jovem de classe média estudante de Biologia em férias no país depois de se mudar para a França; Rose (Renata Carvalho), uma travesti que canta na noite em uma boate LGBTQIA+, mas aspira a carreira de atriz, vivendo nos palcos personagens como a Blanche de Uma Rua chamada Pecado; e Humberto (Victor Camilo), um rapaz do interior expulso de casa depois de "sair do armário". Os Primeiros Soldados é ambientado na passagem de 1982 para 1983, quando Suzano, Rose e Humberto descobriram que portavam HIV e se afastaram da sociedade para viver uma espécie de isolamento. 

 

É claro que o longa de Rodrigo de Oliveira não afasta o drama da história desses três personagens. Suzano, Rose e Humberto apresentam dores e cicatrizes por serem portadores do HIV, mas também por toda a rejeição social à comunidade LGBTQIA+. Nesse sentido, o filme conta uma história que emociona, mas que procura, acima de tudo, diluir o peso desse drama, substituindo o protagonismo do sofrimento pelo tom quase que inspiracional da sua narrativa. Acima das dores, o que se vê na tela são histórias de luta que representam a trajetória da própria comunidade LGBTQIA+. A construção do orgulho é traçada na tela pelo filme e um dos momentos de maior força do longa sintetiza isso, quando Rose interpreta "Guerreiro Menino" de Gonzaguinha em sua última apresentação na boate. 

Precisamos considerar que o brilho do longa de Oliveira demora a dar as caras. A apresentação de Suzano, Rose e Humberto para o espectador se estende mais que o necessário porque o viço do trabalho do diretor com seus atores está mesmo no isolamento dos personagens. O trio passa a registrar seus sintomas e buscar alternativas para sobreviverem nas atuais condições com vídeos caseiros. A jornada inclui, por exemplo, a experimentação de medicamentos que, na época, ninguém sabia bem a eficácia. Aqui, Oliveira traz sequências de improviso, humor e emoção orgânica na interação de Johnny Massaro, Renata Carvalho e Victor Camilo, destacando a ótima sintonia do grupo, um ambiente de cooperativismo e descontração. Esses momentos também evidenciam cenas de muita força como o monólogo emocionante e cheio de verdades interpretado por Renata Carvalho, um desempenho sublime no longa. 



Os Primeiros Soldados encontra um importante equilíbrio entre dimensionar para o espectador a realidade de um momento histórico, mas também procura preencher esse relato com força e reverência a um orgulho LGBTQIA+ construído com muita luta. É um filme que deixa para trás os registros frios historicistas ou o pessimismo lacrimejante, sem falar na equivocada abordagem sensacionalista e preconceituosa, todos costumeiramente usados para reconstituir o disparo dos primeiros casos de AIDS entre LGBTQIA+ no Brasil. Os Primeiros Soldados humaniza, emociona e inspira como poucas obras que abordaram um momento tão delicado na história da comunidade. 


Avaliação


Título original: Os Primeiros Soldados
Ano: 2021
Duração: 107 minutos
Nos cinemas
Direção: Rodrigo de Oliveira
Roteiro: Rodrigo de Oliveira
Elenco: Johnny Massaro, Renata Carvalho, Victor Camilo, Alex Bonin, Clara Choveaux, Higor Campagnaro. 

Assista ao trailer:

COMENTÁRIOS

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Chovendo Sapos: Crítica: Os Primeiros Soldados
Crítica: Os Primeiros Soldados
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