Crítica: Concorrência Oficial

É cada um por si

Concorrência Oficial desconstrói qualquer romantismo sobre o processo de realização no cinema com sua sátira sobre a criação no set.


Concorrência Oficial coloca em rota de colisão três personagens que estão imersos no processo da realização de um filme: a diretora Lola Cuevas, papel de Penélope Cruz, e os atores Félix Rivero e Iván Torres, vividos por Antonio Banderas e Oscar Martínez, respectivamente. Com sua sátira sobre o processo de realização de uma obra cinematográfica, os cineastas argentinos Mariano Cohn e Gastón Duprat querem desmistificar qualquer pré-concepção romântica sobre a criação nas artes, especificamente, no cinema, abordando sobretudo a disputa de egos nos bastidores que conduzem a realização de um filme. 

No longa, Cuevas é uma cineasta renomada cujo próximo projeto é financiado por um empresário que em dado momento da vida decide que seu legado não pode ficar restrito aos lucros da sua empresa. Ele decide investir no cinema e o start do mecenas é a adaptação de um romance cujos direitos acaba de adquirir. Lola Cuevas quer, no entanto, fazer uma obra arrojada e chama dois atores de linhas de trabalho completamente opostas para interpretar os personagens principais desta obra. O que se vê em Concorrência Oficial é todo o processo de ensaio e pré-produção da diretora e das suas duas estrelas. 


Disposto a ultrapassar os limites no tom ácido do seu olhar para o próprio ofício, Concorrência Oficial é centrado na disputa de forças entre os três artistas, a cineasta e seus atores. Lola Cuevas é uma diretora arrojada, a típica enfant terrible que no set propõe uma série de joguinhos com seus atores, demonstrando até um ar de deboche e de superioridade na sua relação com Félix e Iván. Iván é um ator compenetrado, apegado a métodos que se levam a sério demais, entendendo o star system como distrativo para a sua profissão, aparentemente um profissional completamente low profile. Já Félix é a estrela de cinema internacional apegada à própria imagem, optando por preguiça ou decisão artística por uma abordagem mais intuitiva na composição das suas personagens e ocupando-se nos bastidores da sua imagem pública em sua conta no Instagram. É uma mistura altamente inflamável, como podem perceber, e inspiradora para Cohn e Duprat.  

A comédia choca o interesse dos seus distintos personagens. Em dado momento, Lola, Félix e Iván transformam o set em uma verdadeira arena de gladiadores. No empenho pela excelência artística e pelo controle criativo da obra, os três passam a medir forças em uma competição interna sobre quem é o mais talentoso, quem tem o melhor método... No final das contas, disputa-se quem tem o controle sobre os caminhos criativos daquela obra e, consequentemente, quem colherá os louros daquele trabalho. 

A personagem de Penélope Cruz tem as ideias mais absurdas para tirar os protagonistas do seu filme dos eixos, o que proporciona a atriz momentos de descontração únicos em sua carreira. Raras vezes vemos Penélope se divertir tanto em uma produção como em Concorrência Oficial. A título de exemplo, em dado momento, a diretora interpretada por Cruz coloca seus atores debaixo de uma rocha presa por um guindaste de segurança nada confiável a fim de que eles extraiam o melhor de um diálogo dramático. Em outra circunstância, Lola tritura todos os prêmios dos atores enquanto eles assistem ao ato imobilizados por fitas adesivas na plateia. Segundo a cineasta, trata-se de um exercício sobre o ego. 

É interessante perceber como Concorrência Oficial desenha a trajetória de suas personagens ao longo do filme. Nesse momento inicial, enquanto Cuevas demonstra excitação com a obra que está nascendo, Félix e Iván são tomados pela insegurança na procura pelo tom adequado para seus personagens. Em um segundo momento, quando o processo de realização da obra chega ao fim e ela é lançada em um festival de cinema, percebemos Lola Cuevas emocionalmente consumida pela disputa entre Félix e Iván, chegando à exaustão psicológica ao final do processo. O mesmo não pode ser dito sobre seus atores. No meio da disputa, um deles acaba se sobressaindo e demonstra estar intacto e extremamente dispostos a apresentar a "cria" (o filme) para o mundo. Esta construção de Concorrência Oficial, figurativamente ou não, diz muito sobre a jornada da realização cinematográfica e o processo de consagração altamente personalizado em circuitos de festivais e temporadas de premiações, nos quais a percepção do trabalho coletivo, própria do audiovisual, se dilui diante da distinção individual. 


Na maior parte das vezes, Concorrência Oficial sustenta muito bem a sua sátira - Adam McKay de Vice e Não olhe para cima teria muito o que aprender com Mariano Cohn e Gaston Duprat. É um filme autoconsciente, metalinguístico e ácido, mas consegue uma organicidade como narrativa, é desprendida do próprio ego dos seus cineastas e os seus personagens assumem personalidade própria, não parecem reféns do desejo dos seus diretores e roteiristas de quebrarem tabus. O longa ainda ganha bastante pela performance de Penélope Cruz, Antonio Banderas e Oscar Martínez.
 

Avaliação


Título original: Competencia Oficial
Ano: 2021
Duração: 115 minutos
Disponível no Star+
Direção: Mariano Cohn e Gastón Duprat
Roteiro: Mariano Cohn, Gastón Duprat e André Duprat
Elenco: Penélope Cruz, Antonio Banderas, Oscar Martínez, José Luiz Gomez, Irene Escolar, Manolo Solo, Pilar Castro, Koldo Olabarri. 

Assista ao trailer:



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Chovendo Sapos: Crítica: Concorrência Oficial
Crítica: Concorrência Oficial
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