Crítica: Casa de Antiguidades


Chamado revolucionário

Filme de João Paulo Miranda Maria traz Antônio Pitanga como um homem em busca de referências para um levante contra a opressão. 



Dados seus últimos passos, o Brasil é um país que, infelizmente, inspira seus cineastas a colocarem nas telas uma sociedade em estado de putrefação. Não é à toa que, nos últimos anos, tivemos obras tão corrosivas quanto aos problemas nevrálgicos da sociedade brasileira, como Bacurau, Carro Rei etc. Casa de Antiguidades de João Paulo Miranda Maria segue a leva da nossa atual filmografia ao fazer um inventário das sequelas do racismo estrutural brasileiro. 

O longa selecionado para o Festival de Cannes de 2020 e que só estreia agora em circuito comercial conta a história de Cristóvão, papel de Antônio Pitanga, um homem mais velho que trabalha em uma fábrica de laticínios no Sul do Brasil separatista. Cristovão vive apartado da sociedade em sua casa repleta de objetos e depredada pelos vizinhos racistas (dizeres inscritos em sua parede como "Deus 'assima' de todos" não são por acaso). Conforme tem contato com sua ancestralidade naquele local, Cristóvão desperta e inicia um movimento a fim de se rebelar daquelas condições. 


É interessante como, apesar de aderir às "tendências" temáticas da filmografia do seu tempo, Casa de Antiguidades consegue se apartar daquele que se transformou no totem dessa geração, Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dorneles. Ambos denunciam um modelo de sociedade brasileira em estado de putrefação, facista, consumido por ideias de segregação, retrocessos e submissão aos colonizadores do passado. No entanto, enquanto Bacurau tem como resposta a resistência e leva para as telas personagens oprimidos que se empoderam e vão à forra, Casa de Antiguidades faz seu protagonista se insurgir, mas finca seus pés no pessimismo. No longa, a estrutura social do país está cimentada por tantos anos e qualquer ato revolucionário não consegue ter tanta força diante do avanço das ideias extremistas que o corroem. 

A despeito de toda a inspirada simbologia empregada, Casa de Antiguidades sofre o mal de produzir tensão atrás de tensão, gerando muitas expectativas no espectador, mas oferecendo muito pouco como resposta. O protagonista surge sempre como uma figura que parece hipnotizada pelas aparições e convocações sobrenaturais para esquecê-las no momento seguinte.  É interessante como próximo do seu final, o personagem de Antônio Pitanga busca inspirações em um cowboy a la Clint Eastwood, uma clássica representação de masculinidade que se mostrou falida (o próprio diretor estadunidense a tem revisitado de forma bem interessante em filmes como Gran Torino, A Mula e Cry Macho), para em seguida perceber que as referências apropriadas são outras, a fantasia festiva de um touro preto que logo se transforma em uma espécie de justiceiro. Contudo, isso é oferecido ao público somente no fim de Casa de Antiguidades e até lá o espectador é "cozido" por uma séries de eventos macabros marcados  não fazem o filme avançar do ponto de vista narrativo. 



Um ponto alto do longa de João Paulo Miranda Maria é seu elenco. À frente da história, temos um Antônio Pitanga no protagonismo que lhe é merecido, trazendo para seu Cristóvão um semblante de cansaço, anestesiado pela realidade macabra que se esconde por trás do verniz de naturalidade conferido por seus cínicos e violentos patrões e vizinhos brancos. Ao mesmo tempo, o veterano conta com um elenco de coadjuvantes muito bom cujo destaque é Aline Marta Maia, intérprete da  independente e segura colega de trabalho de Cristóvão que logo vira sua namorada por breves momentos do filme. 

Há ideias muito boas e execuções isoladamente inspiradas em Casa de Antiguidades. Infelizmente, é um longa que emperra exageradamente sua comunicação com o público pelo seu excesso de esmero na construção de uma atmosfera soturna que convoca seu protagonista à ação. Ao longo do filme, falta uma atenção na resposta desse protagonista às manifestações que tomam conta do seu cotidiano como um chamado. Assim, Casa de Antiguidades demora para oferecer algum tipo de recompensa à curiosidade que fomenta no seu espectador.


Avaliação


Título original: Casa de Antiguidades
Ano: 2020
Duração: 87 minutos
Nos cinemas
Direção: João Paulo Miranda Maria
Roteiro: João Paulo Miranda Maria
Elenco: Antonio Pitanga, Ana Flavia Cavalcanti, Aline Marta Maia, Sam Louwyck, Soren Hellerup. 

Assista ao trailer:


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Chovendo Sapos: Crítica: Casa de Antiguidades
Crítica: Casa de Antiguidades
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