Crítica: Belfast

No centro do drama de Belfast está uma história de muita familiaridade para seu diretor Kenneth Branagh. Nascido no mesmo local e época de ambientação do longa, a Belfast dos anos de 1960, Branagh conta uma história de cunho pessoal sobre uma família que tenta sobreviver à guerra civil enfrentada na Irlanda cujo catalizador foi o conflito entre católicos e protestantes. 

Com uma história cheia de memórias pessoais, Branagh tem como protagonista do seu filme o garoto Buddy, interpretado por Jude Hill. Ao longo da obra, o diretor acompanha como seus pais e avós tentaram construir uma infância minimamente sadia para o menino em um contexto sócio-político tão tumultuado. 


Belfast é uma das obras mais maduras artisticamente da carreira de Branagh, mas, também pudera, até o momento o diretor tinha como grande feito Hamlet de 1996 e alguns êxitos comerciais como Thor na Marvel e Assassinato no Expresso Oriente. Assim, não foi preciso grande esforço. No entanto, o filme tem alguns cadafalsos. 

Ao longo da história, Branagh constrói um panorama de personagens que representam tipos comuns, beirando uma estereotipia até. As protagonistas desse drama são figuras reduzidas às suas funções familiares, como tradicionalmente fomos acostumados a pensar nas mesmas. Caitriona Balfe faz a mãe que é o ponto de equilíbrio e suporte de uma família composta por homens. Jamie Dornan é o pai que sacrifica a convivência com os filhos para ganhar o sustento da casa fora de Belfast. O garoto vivido por Jude Hill, por sua vez, é aquele menino que vai tendo seu primeiro contato com algumas questões da vida adulta. Judi Dench e Ciarán Hinds são os simpáticos avós. Enfim, tudo bem demarcado e seguindo uma cartilha do que já conhecemos em outros contextos, sem que esses personagens ultrapassem tais expectativas e revelem características insuspeitas. 


Além desse lugar comum dos personagens, a história de Belfast também não surpreende o público. Fica claro desde o início que o longa tem uma preocupação com a interferência de questões políticas no âmbito privado, sendo uma história sobre separações familiares em um contexto que praticamente impõe o exodo a suas protagonistas, algo com que podemos facilmente nos identificar. Isso pode ser encarado como um mérito, afinal, Branagh é coerente do início ao fim com o seu projeto cinematográfico nessa obra particular. No entanto, traz como ponto negativo para Belfast a ausência do calor humano que tanto parece anunciar na sua relação com o público. A relação do filme com o espectador é conduzida de maneira morna pelo realizador porque assim são as dinâmicas estabelecidas entre as figuras humanas que habitam a história de Branagh. Belfast não provoca, não surpreende, não causa emoções arrebatadoras... Não chega a ser um filme que marque sobressaltos, que leve o espectador para emoções e leituras inesperadas sobre a sua realidade. 

Há ainda a incomoda sensação que o filme apresenta de maneira desconjuntada as conexões entre os eventos que narra. O que vale recohecer é que Belfast os registra de maneira belíssima com um preto e branco que nos transporta para a história de forma muito eficiente. No mais, é aquele candidato da temporada que representa a zona de conforto: um filme que não marca e passa na média. Não é o tipo de experiência que o público "leva para casa" e assimila por dias. Derivativo, é possível esquecê-lo em um ano tão interessante como 2022. 


Avaliação:


Título original: Belfast
Ano: 2021
Duração: 98 minutos
Nos cinemas
Direção: Kenneth Branagh
Roteiro: Kenneth Branagh
Elenco: Jude Hill, Caitriona Balfe, Jamie Dornan, Judi Dench, Ciarán Hinds, Lewis McAskie, Mairead Tyers, Nessa Eriksson, Josie Walker. 

Assista ao trailer:


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Chovendo Sapos: Crítica: Belfast
Crítica: Belfast
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