Crítica: Identidade

 


Como atriz, apesar de nunca ter sido "abraçada" por completo pelas premiações ou mesmo pelos críticos, Rebecca Hall foi capaz de construir um currículo interessante com desempenhos complexos em longas como Christine, Vicky Cristina Barcelona, Professor Marston e as Mulheres Maravilhas e O Grande Truque. Eis que em sua estreia como diretora, Hall consegue expressar de maneira mais intensa ainda a sua sensibilidade artística com um drama tocante sobre uma mulher interpretada por Tessa Thompson que reencontra uma amiga de infância vivida por Ruth Negga. A protagonista do longa de Identidade fica instigada pela nova vida da amiga que se passa por branca na sociedade. 

Identidade é um drama de habilidade fascinante por desenvolver o protagonismo de duas personagens femininas extremamente complexas e por fazê-lo através de um uso sofisticadíssimo da linguagem audiovisual. Com sua fotografia em preto e branco, Hall costura de maneira elegante e repleta de nuances a jornada dessas mulheres, marcada majoritariamente por decisões nada óbvias a partir de uma situações que instauram conflitos aparentemente duais. 



Ao passo que, assim como Irene (Thompson), julgamos a atitude e o comportamento de Clare (Negga) por esconder a cor da própria pele e assumir a identidade de uma mulher branca, a cineasta de maneira sensível e inteligente nos apresenta gradualmente as contradições da sua protagonista. Apesar de não se passar por branca, Irene (Thompson) não vive a vida da maioria das mulheres negras do seu tempo. Ela tem uma rotina confortável como esposa de um médico, um casal negro que "furou a bolha" e teve uma aparente ascensão social.No entanto, as mudanças para Irene são superficiais, aos poucos nos damos conta de que existe uma falsa impressão de transformação social quando a personagem de Thompson se depara com as falas e gestos hostis do marido racista de Clare ou quando fica sabendo pelo esposo que um homem negro foi linchado a poucos metros da sua casa. É nesse instante que a redoma da protagonista é quebrada e ela entra em crise e passa a questionar uma série de comportamentos de auto-negação da sua própria identidade, como quando esconde dos seus filhos a segregação racial no país ou a relação dúbia que estabelece com suas empregadas, também mulheres negras. 

No lado mais evidente da análise de Identidade sobre o seu tema, temos a melancolia literalmente maquiada de Clare, cujos artifícios estéticos possibilitaram uma camuflagem social até certo ponto mas não foram capazes de salvar efetivamente a personagem do preconceito, muito porque existem questões internas mal resolvidas na personagem de Ruth Negga. Ao mesmo tempo que isso serve para que nós venhamos a compreender a segunda personagem de Identidade, também passa a ser um dado interessante para lermos a segunda porque é o convívio com a dubiedade de Clare que Irene (Thompson) passa a questionar seu estilo de vida, seu lugar na sociedade e sua própria relação com sua identidade. 

Com tamanha complexidade conferida a suas personagens, não fica difícil para Identidade trazer fortes desempenhos de Tessa Thompson e Ruth Negga. Rebecca Hall parece ter trazido para trás das câmeras toda sua expertise na atuação e arranca das atrizes interpretações preciosas. Thompson é, de longe, a presença mais marcante do filme, com uma personagem nuançada, cheia de contradições, questões mal resolvidas e expressa toda essa combustão interna de forma silenciosa, como convém a sua retraída personagem, somente por meio de pistas deixadas pelos seus gestos corporais e expressões faciais. A atriz é econômica e consegue modular muito bem os diversos estágios emocionais pelo qual sua personagem vive na história. Ao mesmo tempo, Negga é uma figura viva durante todo o filme. Construindo Clare como uma personagem marcada pela falsa extroversão, Negga nos apresenta uma personagem triste, solitária. A dupla é formidável e faz um trabalho fundamental para cumprir os propósitos da história que a diretora conta. 



O longa consegue compreender e traduzir muito bem esse lugar de quem toma consciência de que pertence a um grupo hostilizado socialmente e que, por conta dessa violência passa a desejar outra vida, aspira pertencer a extratos sociais mais aceitos para não passar por sofrimento... A obra fala sobre a rejeição da própria identidade e como isso em dado momento tem o potencial de se voltar contra a pessoa. Afinal, não dá para fingir ou esquecer aquilo que simplesmente se é, é algo que ronda sua vida e enquanto você não "abraça" isso com todas as suas circunstâncias externas, incluindo a não aceitação de terceiros, você nunca encontrará paz. Possivelmente, uma conclusão que Irene pode tirar ao final do terceiro ato diante de uma decisão extremada de Clare.  É nesse lugar inflamável que as duas personagens de Identidade se encontram e isso o longa consegue traduzir muito bem.

Ao mesmo tempo, o filme dá conta da identidade como algo fluido quando fala sobre a sensação de pertencimento, ampliando suas leituras para outros grupos, como homossexuais, transsexuais, mulheres etc. Irene vive em uma comunidade negra, mas não consegue se conectar com ela, apesar de racionalmente entender todas as questões que perpassam por aquele grupo. A sensação de não pertencimento, no caso da personagem, passa pela autonegação, claro. Ao passo que Clare, que deu vazão a sua negação de maneira mais radical quando se passa por uma mulher branca, sente viva sua identificação com os mesmos espaços com os quais Irene se sente desconectada, lugares que permitem que a personagem de Ruth Negga seja de fato quem ela é. Clare vive uma liberdade que não experimentava desde que passou a viver sob a angustiante vigília de sustentar uma falsa identidade e a exaustiva energia que toda essa farsa demandou dela. 

Se no primeiro longa, Rebecca Hall já demonstra essa maturidade no uso da linguagem audiovisual, na direção dos seus atores e na tecitura do seu roteiro, imagina o que seus próximos trabalhos como diretora e roteirista nos reservam? Identidade é um filme que foge pela tangente do discurso fácil e juvenil de thread  de Twitter que a gente costuma notar ser incorporado da maneira mais rasa possível por produções audiovisuais recentes, sobretudo com o selo Netflix. Enche os olhos e conforta a alma ver Identidade. Raras vezes se vê na tela a disposição, maturidade e sensibilidade com que Rebecca Hall trata temas como o preconceito e as sensações de pertencimento e deslocamento identitário nesse filme. 



Cotação


Título original: Passing
Ano: 2021
Disponível na Netflix
Direção: Rebecca Hall
Roteiro: Rebecca Hall
Elenco: Tessa Thompson, Ruth Negga, André Holland, Alexander Skarsgard, Bill Camp, Gbenga Akinnagbe, Antoinette Crowe-Legacy. 

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Chovendo Sapos: Crítica: Identidade
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