Crítica: Eternos

 


por Felipe Aguiar

Inicialmente, a sociedade tem uma tendência a rejeitar mudanças. O diferente incomoda, em especial, aqueles que se estabeleceram ou se acostumaram com determinada métrica. A história do cinema falado, por exemplo, começou exatamente assim. Os filmes mudos eram o oásis de dinheiro e trabalho para diversas pessoas da indústria hollywoodiana até que o advento tecnológico permitiu a mudança para o cinema falado. Rechaçados e criticados, os filmes sonoros viveram embates até o público passar a consumir cada vez mais e, consequentemente, exigir um investimento maior e assim tornou-se indiscutivelmente popular.  Esse histórico de recusa do diferente pode ser aplicado a Eternos, o novo filme de Chloé Zhao.

Durante milhares de anos, seres imortais e poderosos criados pelos Celestiais viveram em segredo entre os humanos. Com a missão de proteger a evolução da humanidade, os Eternos são proibidos de intervir nos acontecimentos terrenos, incluindo um evento como o estalar de dedos de Thanos. No entanto, o retorno de velhos inimigos faz com que esses heróis tenham que se reunir mais uma vez para combater a ameaça dos Deviantes.


O mais recente lançamento da Marvel Studios foi bombardeado pela crítica estrangeira como se entregasse ao espectador um resultado ruim, quando, na verdade, ele faz exatamente o contrário. É verdade que o filme se afasta dos moldes já conhecidos da Marvel, mas isso seria isso algo ruim? Chloé Zhao consegue dar identidade ao que pessoas influentes do audiovisual já taxaram como tedioso e genérico. Ela trouxe um olhar sensível e renovador para a história dos mais novos heróis do Universo Cinematográfico Marvel (MCU). E essa coragem de investir em algo mais livre narrativamente falando permitiu que a história alçasse voos ainda não vistos no MCU.

A diretora, que também co-assinou o roteiro do longa-metragem, tinha uma difícil missão em suas mãos. Diferente de Vingadores: Guerra Infinita (2018) e Vingadores: Ultimato (2019), o extenso grupo de heróis em Eternos precisou ser introduzido ao público desde seu princípio. Essa necessidade de apresentar de forma satisfatória cada um dos dez super heróis, somada às características estilísticas da cineasta, resultaram numa narrativa mais lenta. O compasso diferente não é, no entanto, um problema para a história. Ela toma o tempo que precisa para introduzir e explicar quem são cada um dos heróis ao longo dos 157 minutos de filme. Apesar de não focar tanto em alguns personagens - como Makkari, interpretada pela Lauren Ridloff, a primeira atriz surda do MCU - Chloé conduz bem o balé dos caminhos que se cruzam e separam ao longo dos milhares de anos que a narrativa percorre.

Na mesma medida que o filme usa o tempo que precisa para desenhar as personagens, ele também dilui as sequências de luta ao longo de sua duração, dando dinamismo ao resultado final. Esse equilíbrio entre construção e desenvolvimento de personagem e embates clássicos das HQs só tropeçam nos momentos finais do filme. A partir da virada da história, os acontecimentos passam a fluir numa velocidade mais intensa, o que pode incomodar o espectador. Porém, não há como achar que Eternos seja uma experiência entediante ou que ele não seja cativante.


Há uma humanidade na produção que jamais foi vista. Ironicamente, logo no projeto sobre seres extraterrestres, Kevin Feige apostou numa cineasta que aproximou a Marvel de algo mais profundo. A ousadia desse investimento resultou em um dos filmes mais belos e contemplativos do MCU. Assistir Eternos não é garantir uma diversão previsível, é se dispor a viver mais experiências. É se propor a refletir sobre a vida, as escolhas e os embates pessoais.

Para mais do que essa sensibilidade cativante, outro ponto alto da narrativa são suas escolhas de adaptação. Eternos tem a força feminina marcada dentro e fora das telas. Além da produção ser comandada por uma mulher asiática, o enredo é guiado e protagonizado por mulheres. Escolher que Ajak, líder dos Eternos, fosse uma mulher - e ainda latina - nas telonas têm um poder narrativo absurdo. E Salma Hayek aproveita cada segundo de tela para mostrar a sua sagacidade e generosidade cênica. Ao lado dela, Gemma Chan, interpretando Sersi, é responsável por mostrar, desde o primeiro momento, a que passos a história vai andar. Fora elas - e a já citada Lauren Ridloff - Angelina Jolie e Lia McHugh compõem o time empoderado de mulheres na trama.

A Marvel está passando por um momento de renovação em sua quarta fase e Eternos reforça ainda mais isso. O que resta agora é esperar para saber se Kevin Feige vai ter coragem para se manter fiel a estes novos horizontes que estão despontando para o MCU. O filme, como todo bom produto do estúdio, traz duas cenas pós créditos que prometem ainda mais transformações e enlaçamento das tramas para o futuro do Universo Compartilhado. Hoje, a certeza que fica é de que o longa merece mais atenção porque mostra possibilidades que podem dar um fôlego necessário para a vida longa do MCU.


Cotação


Título original: Eternals
Ano: 2021
Em cartaz nos cinemas
Direção: Chloé Zhao
Roteiro: Chloé Zhao, Patrick Burleigh e Ryan Firpo
Vozes de: Angelina Jolie, Richard Madden, Salma Hayek, Gemma Chan, Kit Harington, Kumail Nanjiani, Barry Keoghan, Lia McHugh, Brian Tyree Henry, Lauren Ridloff.  

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Chovendo Sapos: Crítica: Eternos
Crítica: Eternos
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