Crítica: Casa Gucci




Todas as manchetes de Casa Gucci estão girando em torno do nome de Lady Gaga. Ela vai receber mais uma indicação ao Oscar depois do sucesso de Nasce uma Estrela? Quão próxima está sua composição da verdadeira Patrizia Reggiani, esposa do herdeiro da marca, e quão imersivo foi o processo de criação de Gaga? Tudo bastante compreensivo por iniciarmos o calendário de premiações do cinema em Hollywood e pelo peso que qualquer produção cinematográfica carrega quando estampa no seu cartaz o nome de uma pop star como Gaga. No entanto, o mais recente filme de Ridley Scott tem vida própria para além da magnitude da sua estrela. 

Casa Gucci é um longa mais complexo do que as headlines publicitárias da temporada do Oscar sugerem e isso não necessariamente porque é um filme que oferece uma trama e personagens cheios de camadas (pelo contrário, ele faz questão de manter tudo na mais absoluta superficialidade). Como produto de uma indústria, Casa Gucci não é uma obra-prima do seu diretor, mas vem para o público cheio de idiossincrasias e é interessante esmiuçá-las. 


O longa narra uma história cheia de traições familiares envolvendo a família Gucci, donos da famosa marca de roupas e acessórios que conhecemos hoje. Tudo começa com o envolvimento de Maurizio Gucci (Adam Driver, de História de um Casamento) com a filha de um empresário do ramo de transportes, Patrizia Reggiani (papel de Lady Gaga). A união gera uma ruptura entre Maurizio e o pai, Rodolfo Gucci (Jeremy Irons, de Batman vs. Superman), mas possibilita o estreitamento dos seus laços com o tio, Aldo Gucci (Al Pacino, de O Irlandês), sobretudo porque ele se entende muito bem com Patrizia. A aproximação gera a ira de Paolo Gucci (Jared Leto, de Esquadrão Suicida), filho de Aldo, que se vê preterido na sucessão da empresa sobretudo porque sua obra como estilista é rejeitada tanto pelo pai quanto pelo tio Rodolfo. 

Toda essa trama de relações nada positivas entre familiares que trapaceiam por cobiçarem o montante de dinheiro por trás da marca Gucci faz Ridley Scott transformar Casa Gucci em um autêntico "novelão". Não há personagens multifacetados, todos são reduzidos a estados momentâneos, como a Patrizia de Lady Gaga, que "muda a chave" da mulher ambiciosa para aquela que mobilizada pela traição é capaz de cometer um crime, ou Aldo Gucci vivido com simpatia por Al Pacino, no que se espera de uma performance do ator é aquela figura bonachona carismática. Além disso, Scott não quer extrair da história de Casa Gucci nenhuma grande temática, mas fazer uma reconstituição dos bastidores de um escândalo envolvendo gente muito rica e notória. 


A maneira simplista como as personagens e a trama de Casa Gucci se apresentam não seria um problema se o diretor mergulhasse de fato na vocação camp do projeto, mas, diferente do que andam alardeando, o filme não faz isso. Casa Gucci parece viver o conflito entre oferecer uma história classuda e sóbria na tradição do que Ridley Scott sempre fez e chafurdar de vez no histrionismo. É um filme que nunca parece lidar muito bem com essa ambiguidade. A dificuldade que Scott apresenta ao lidar com esses dois filmes que se apresentam respinga nos desempenhos dos seus atores. Em níveis diferentes de êxito, suas performances parecem construir muitas vezes uma versão paralela de Casa Gucci

De um lado, Scott torna-se refém da interpretação cheia de vaidade de um Jared Leto coberto por próteses para ficar o mais próximo da aparência de um quarentão careca e de aparência "descuidada". Cheio de artifícios, Leto está um pouco acima do tom ao retratar Paolo Gucci como um sujeito infantilóide, soando muitas vezes como uma paródia de programa de humor - preciso abrir o parênteses para dizer que me lembrou as interpretações que o grupo Casseta e Planeta faziam para os personagens das novelas das 20h da Globo. Por outro, Lady Gaga parece trazer para sua interpretação o conflito do diretor. Patrizia fica cada vez mais over conforme os acontecimentos da história testam os limites da personagem. Dos atores, os veteranos Al Pacino e Jeremy Irons saem ilesos, compondo irmãos que parecem estar em opostos representativos dessas oscilações da obra. Irons é a figura mais séria, que assiste com desgosto aquele grupo de parentes cafonas. Já Pacino não tem meio termo, usa e abusa do seu magnetismo e da sua capacidade de roubar a cena para transformar Aldo em uma figura hipnotizante. 

No fim das contas, Casa Gucci é um filme cheio de altos e baixos, mas não chega a ser uma experiência desagradável para o espectador. O grande problema do longa é que Ridley Scott tem dificuldade para "abraçar" o camp que parece surgir como uma potência no trabalho dos seus atores. Alguns deles parecem entender mais as demandas do texto do que o próprio diretor. Scott tem timidez para se fazer menos sério do que o de costume e flertar com uma abordagem que poderia transformar Casa Gucci em algo de fato marcante na nossa memória e ainda mais divertido de assistir. Aqui, precisávamos do diretor que aprendeu a se divertir mais em Perdido em Marte


Cotação


Título original: House of Gucci
Ano: 2021
Nos cinemas
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Becky Johnston e Roberto Bentivegna
Elenco: Lady Gaga, Adam Driver, Al Pacino, Jared Leto, Jeremy Irons, Salma Hayek, Camille Cottin, Jack Huston, Reeve Carney, Edouard Philipponnat. 

Trailer: 



 

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Chovendo Sapos: Crítica: Casa Gucci
Crítica: Casa Gucci
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