Crítica: Coração Errante

 

A história da maturidade de homens gays no cinema é tomada por narrativas que tratam sobre um tema frequente para o grupo: o medo de terminar a vida só. Em 2019, Marco Nanini protagonizou o excelente Greta de Armando Praça vivendo de maneira brilhante um enfermeiro que se relacionava com internos do hospital onde trabalhava, trocando favores por relações sexuais com esses pacientes, na maioria, presidiários. A co-produção Argentina-Brasil Coração Errante também traz essa questão para o seu protagonista, o chef de cozinha interpretado por Leonardo Sbaraglia, mas adiciona outros elementos que tornam essa questão ainda mais interessante quando traz a relação do personagem com sua filha, uma adolescente prestes a sair de casa.

No filme, Sbaraglia vive Santiago, um homem em crise após um rompimento traumático com o ex-namorado. Santiago mostra-se instável, perdido e imaturo emocionalmente, transformando sua vida em um verdadeiro caos, marcada por relações sexuais e afetivas efêmeras e experiências que poderiam ser consideradas juvenis. As ações de Santiago revelam para o espectador um homem extremamente carente em busca de qualquer tábua de salvação, vivendo na vida adulta toda espécie de êxtase juvenil. No meio de todo esse furacão que é a vida do personagem de Sbaraglia está a sua filha adolescente Laila, vivida por Miranda de la Serna, que, justificadamente, sente que o protagonista é negligente com a paternidade, colocando-a sempre em segundo plano se comparada com suas questões individuais.


O diretor e roteirista  Leonardo Brzezicki constrói em Santiago um personagem tão complexo que a impressão que dá é que Coração Errante é insuficiente para explorar todas as suas camadas. Santiago lida com o medo de envelhecer e perder todos os seus atrativos físicos, se sente incomodado quando um jovem diz ter fetiche por homens mais velhos como ele, por exemplo. Assim, o personagem de Sbaraglia é adepto de um hedonismo desenfreado, buscando, custe o que custar, a utópica realização plena dos seus desejos afetivos e sexuais que após satisfeitos brevemente o deixam em um completo vazio, levando então a um novo ciclo de busca por esses prazeres. Qualquer segundo perdido parece crucial para evitar que Santiago caia em desgraças que se anunciam: a solidão, a perda da filha, o envelhecimento. Santiago está tão distraído com essa causa que não se dá conta de que uma de suas relações mais sólidas corre o risco de ruir pela sua ansiedade. 
 

Um personagem tão complexo quanto Santiago fica ainda mais interessante quando encontra um ator tão competente para interpretá-lo quanto Leonardo Sbaraglia. O ator evita qualquer obviedade na sua composição e privilegia a contraditoriedade de sentimentos que os gestos e as ações do protagonista de Coração Errante desenha ao longo da trama. Como Santiago, Sbaraglia apresenta sempre um olhar entusiasmado pela vida, mas também bastante inseguro. O ator transita por esses sentimentos de maneira certeira em cada cena nesse longa.

É certo que o filme de Brzezicki poderia esgarçar ainda mais as variantes do conflito entre pai e filha, um tipo de relação que me parece mais original diante do leque de tramas LGBTQIA+ que o cinema mundial já contou. No balanço, parece que as aventuras sexuais do protagonista ganham maior destaque na trama e as discussões entre Santiago e Laila encontram poucas variações temáticas para além da sua premissa, destacando portanto o interessante confronto da garota com o pai na mesa de jantar de uma celebração de final de ano entre amigos no Rio de Janeiro, momento, inclusive, que a atriz Miranda de La Serna brilha. Ainda assim, com a densidade que Leonardo Sbaraglia entrega ao protagonista, Coração Errante acerta por transformar seu protagonista numa figura complexa e contraditória, dramaticamente interessante e repleta de possibilidades.


Cotação


Título original: Errante Corazón
Ano: 2021
Disponível no HBO Max
Direção: Leonardo Brzezicki
Roteiro: Leonardo Brzezicki
Elenco: Leonardo Sbaraglia, Miranda de la Serna, Eva Llorach, Tuca Andrada, Iván González, Alberto Ajaka, Rodrigo dos Santos, Thalita Carauta, Beatriz Rajland, Benjamín Ruiz. 

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Chovendo Sapos: Crítica: Coração Errante
Crítica: Coração Errante
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