Crítica: O Menino que Matou meus Pais | A Menina que Matou os Pais


Demorou quase dois anos para o público conferir O Menino que Matou meus Pais e A Menina que Matou os Pais, o double feature sobre o caso "Suzane von Richthofen". Os longas estreariam em 2020, mas às vésperas de seu lançamento nos cinemas, a distribuidora e o mundo foram surpreendidos com a pandemia da COVID-19. A oportunidade de conferir os filmes de Maurício Eça chega finalmente com a decisão de lançá-los no Amazon Prime Video, uma mudança que até beneficia o projeto, dada a visibilidade que anda recebendo, impulsionada, claro, por narrar um caso marcante na história criminal do Brasil, mas pelo alcance que obras lançadas em streamings conseguem, sobretudo em tempos pandêmicos e também por termos ainda uma protagonista que acaba de participar de uma edição do BBB, fomentando um grupo de fãs ativos nas redes a engajar ainda mais a publicidade das obras. 

Para quem não está familiarizado (???), O Menino que Matou meus Pais e A Menina que Matou os Pais são baseados nos autos do caso "Suzane von Richthofen", sobretudo nos depoimentos de Suzane von Richthofen e do seu namorado Daniel Cravinhos. Em 2002, Suzane ganhou protagonismo na cobertura jornalística policial brasileira quando assassinou seus pais com a ajuda do namorado, Daniel Cravinhos, e do cunhado, Cristian Cravinhos. Aqui, o ocorrido é adaptado para as telas pelo diretor Maurício Eça, cujos trabalhos de maior projeção até então eram os dois filmes da franquia infantil Carrossel. No roteiro, os longas acabaram contando com as mãos experientes de Ilana Casoy, autora conhecida por ser especialista em serial killers, mas que também por seu estudo de fôlego sobre o caso, e pelo premiado romancista Raphael Montes.  

A decisão de abordarmos as duas obras em um único texto é proposital. Pensamos fazer mais sentido uma crítica sobre ambos do que sobre um ou outro isoladamente. Os realizadores do projeto fizeram dois longas propondo-os claramente como uma unidade constituída por duas perspectivas que se complementam e que juntas dão mais sentido ao que se quer dizer sobre essa história e como eles querem contá-la, ou seja, através dos discursos de dois dos assassinos do casal Manfred e Marísia von Richthofen. Por mais que aqui e ali a gente se questione se tudo não poderia ter sido feito como um único longa, o projeto de Eça, Casoy e Montes se apresenta para o espectador como a experiência de duas narrativas que se complementam e que são colocadas em disputa e é por esta perspectiva que alcançaremos uma avaliação justa sobre ele. 

A princípio, o modus operandi da história e da construção das personagens de O Menino que Matou meus Pais e de A Menina que Matou os Pais se revela interessante. A versão que vemos das personagens conhecidas no caso são as versões dos depoimentos, não as figuras reais envolvidas no crime, uma decisão que afasta o filme de qualquer compromisso com a realidade. Os longas ficam muito mais próximos de uma fantasia dos formuladores das versões do crime do que dos fatos em si. Nisso, os realizadores são muito claros desde o princípio e acredito que o público consegue compreender o distanciamento daquilo que é contado com a maneira como as coisas de fato aconteceram. Tudo no filme é fruto da mente distorcida de Suzane e Daniel. 

O distanciamento da realidade fica ainda mais evidente quando, nos dois filmes, a reconstituição dos fatos estabelece representações tão diametralmente opostas dos seus protagonistas, desenhando essas construções ficcionais em traços berrantes. Enquanto Suzane, aos olhos dela mesma em O Menino que Matou meus Pais, é uma jovem reprimida levada por más influências, na visão de Daniel em A Menina que Matou os Pais, a moça escancara sua índole manipuladora e agressiva. Por sua vez, Suzane constrói Daniel Cravinhos como um rapaz sonso que se aproveitou do seu status social em O Menino que Matou meus Pais, ao passo que o mesmo personagem surge como um jovem ingênuo levado pela paixão no  longa que traz a perspectiva dele sobre o assundo. O mesmo ocorre com Manfred e Marísia, apresentados pela ótica dela como figuras austeras, porém carinhosas, mas vistos por Daniel como pais severos, infelizes e até abusivos com a filha. 



A polaridade dos relatos dos seus autores é tão grotesca e caricatural que fica evidente para o espectador que nenhum deles representa a realidade e que não existe inocente no caso, mas sim dois acusados construindo versões do crime que visam culpabilizar totalmente o parceiro com construções enviesadas. Os longas demonstram isso inclusive quando mantém em suspensão informações não comprovadas sobre Manfred e Marísia. Nunca vemos, por exemplo, ambos nas situações alegadas por Suzane von Richthofen e Daniel Cravinhos, que no depoimento alegaram que Manfred abusava e batia na filha e que ele e ela mantinham casos extraconjugais. O espectador só fica ciente dessas informações pela boca de Suzane e Daniel na reconstituição dos depoimentos feitas pelo longa, nunca vemos os Richthofen nessas situações. 

Tudo que apontamos aqui, representam escolhas ou caminhos interessantes que são percorridos pelo projeto mas que nem sempre são bem executados, sobretudo porque há problemas no roteiro e na direção de O Menino que Matou meus Pais e A Menina que Matou os Pais. Maurício Eça tem uma direção protocolar, sem muita inspiração em composições visuais e que não é dada a muitas interferências na dramatização dos fatos, se atendo aos passos do roteiro, que, por sua vez, é marcado por uma artificialidade. A direção traz para o projeto um tom de dramatização criminal dessas de programas policiais da TV, pouco esforçada em submetê-lo a qualquer esforço de originalidade na aplicação de expedientes da linguagem audiovisual. O roteiro, por sua vez, não supre as faltas da direção, preenchendo-a com diálogos artificiais que só prejudicam o elenco. O resultado comprova a máxima sobre as especificidades dos meios (literatura e cinema): para a função de roteirista, os méritos literários dos autores nem sempre resultam em bons trabalhos no departamento. 



As faltas na direção e no roteiro do projeto nos conduzem a uma instabilidade na performance dos seus atores. Como Suzane von Richthofen, Carla Diaz convence mais na versão histriônica de A Menina que Matou os Pais do que quando assume a mecanicidade social da personagem em O Menino que Matou meus Pais, onde surge sempre de cabeça baixa, desalinhada quando está consumindo drogas ou tramando com os Cravinhos e surpreende o espectador com olhares sinistros quando não está nas vistas de qualquer personagem. De fato, a atriz tem contra si, a personagem mais complicada do projeto, cheia de nuances e caminhos incertos, uma função ingrata e de difícil execução. Sem tantas variáveis em sua composição, Leonardo Bittencourt é mais bem sucedido ao retratar as duas versões de Daniel Cravinhos, o garoto sonso deslumbrado com a vida de luxo que Suzane lhe proporcionava em O Menino que Matou meus Pais e o rapaz manipulável de A Menina que Matou os Pais

Em comparativo, A Menina que Matou os Pais é mais interessante do que O Menino que Matou meus Pais pois o descolamento que ele tem da realidade ganha tons que se apropriam com mais força da ficcionalização extremada e amadora do relato de Daniel Cravinhos. Nesse segmento, o formulador do depoimento "se pinta" de forma mais exagerada como inocente enquanto as vítimas e sua cúmplice são carregadas de traços socialmente condenáveis. O Menino que Matou meus Pais, ou seja, o longa que representa o depoimento de Suzane, é vago, impreciso, cheio de hesitações. Apesar de ir para o mesmo caminho da ficcionalização extremada, novelesca, dos fatos, tem camadas que a dramatização dos fatos não consegue suprir. No saldo, ambos não acrescentam muito ao que já é notório sobre o caso, estão até defasados pois depois do depoimento de Suzane e Daniel muita coisa já aconteceu e foi acrescentada à narrativa policial dos Richthofen. No entanto, ao final da experiência com os filmes, fica claro que o double feature peca mesmo por uma condução que não corresponde ao apelo midiático gerado para o projeto desde que ele começou a ser feito. 

 Cotação:


Título original: Idem
Ano: 2021
Disponível no Amazon Prime Video
Direção: Maurício Eça
Roteiro: Ilana Casoy e Raphael Montes
Elenco: Carla Diaz, Leonardo Bittencourt, Allan Souza Lima, Leonardo Medeiros, Vera Zimmermann, Debora Duboc, Augusto Madeira. 

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Chovendo Sapos: Crítica: O Menino que Matou meus Pais | A Menina que Matou os Pais
Crítica: O Menino que Matou meus Pais | A Menina que Matou os Pais
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