'O Pintassilgo' se transformou num dos maiores fracassos de 2019


Vencedor do prêmio Pulitzer, consagração máxima da literatura, O Pintassilgo de Donna Tartt tem sua legião de fãs fieis, a maioria jovens que, por alguma razão, se identificam com a jornada do jovem enlutado Theodore Decker. Com as vendas e prêmios acumulados pela obra, não demoraria muito para os produtores de cinema se interessarem em uma adaptação do projeto que traria a reunião de esforços de duas grandes empresas, a Warner e a Amazon, que logo contrataram John Crowley, recém saído do indicado ao Oscar Brooklin, para a sua direção. O resultado, entretanto, como acontece em vários casos cuja trajetória até então era marcada pela ascensão, é um longa cheio de oscilações. 

O Pintassilgo tem início quando Theodore (interpretado na infância pelo ótimo Oakes Fegley e na fase adulta por Ansel Elgort) é adotado temporariamente por uma família abastada de Nova York após a morte trágica da sua mãe em um atendado realizado a um museu. Theodore logo ganha a afeição da matriarca da família, Samantha Barbour, interpretada por Nicole Kidman, entretanto as marcas do evento acabam sendo muito graves. Acompanhamos então a jornada de redenção desse personagem que durante o trajeto encontra o seu pai dependente químico, um melhor amigo e o dono de um antiquário que acaba lhe dando uma nova perspectiva de vida. 


O Pintassilgo tem uma relação ambígua com o seu tempo. Com duas horas e meia de duração, é um longa que supostamente teria tempo para resolver todos os meandros da extensa jornada do seu protagonista. No entanto, o filme dirigido por Crowley se perde nas extensas horas de contemplação do apelo imagético das lindas imagens compostas pelo diretor de fotografia Roger Deakins e prefere manter questões importantes de desenvolvimento de personagem em uma narrativa que pede isso no subtexto. Assim, traços como o trauma, os vínculos de Theo com os demais personagens que surgem na história e, mais importante, a relação entre a morte da sua mãe e o apego que tem pelo quadro que dá título ao longa ficam em uma espécie de entrelinhas nada satisfatória. 

Ao mesmo tempo, O Pintassilgo conta com um último ato completamente estapafúrdio que joga o seu drama no submundo dos roubos das obras de arte, gerando consequências criminais para seus personagens que jamais são esmiuçadas pelo longa. No fim das contas, ele acaba apelando para uma solução que intenta oferecer alguma redenção para o seu protagonista, apegado à falta que a figura materna lhe traz sem perceber a rede de afetos que acaba criando no seu entorno após disso, mas como de última hora acumula algumas demandas não resolvidas fica tudo muito estranho e mal resolvido no fim. 

Crowley conta com um elenco magnífico muito bem escalado. Alguns fazem o que podem com as camadas camufladas dos seus personagens por um roteiro que parece temer o melodrama, um didatismo das emoções, quando deveriam abraçá-la, é o caso de Nicole Kidman, que interpreta a amante de artes Sra. Barbour, e Jeffrey Wright, o dono do antiquário que Theo começa a trabalhar. Luke Wilson tem uma ótima cena como o pai do protagonista e Finn Wolfhard rouba a cena quando surge como o excêntrico Bóris. 


Com momentos isoladamente inspirados, O Pintassilgo constrói a clássica narrativa da reconstrução de si através de uma jornada que se revela física e espacial, com seu personagem principal percorrendo espaços, conhecendo novas pessoas e reencontrando outras ao longo do processo, como um road movie, mas é sabotado pela visão excessivamente reverencial da obra-base, tratando-a por vezes como algo da ordem do divino. 

O longa de Crowley, que fez um belíssimo trabalho em Brooklin, acaba não conseguindo equilibrar os momentos de silenciosa assimilação da vida do seu protagonista com aqueles nos quais emerge um caráter mais narrativo, no sentido da promoção de ações engendradas por uma lógica de causa e consequência. Ao primeiro, dedica um tempo excessivo, ao segundo, opta por um atropelamento de novas ideias apresentadas ao espectador no último ato como quem tira um novo truque da cartola nos momentos finais de sua apresentação. 


The Goldfinch, 2019. Dir.: John Crowley. Roteiro: Peter Straughan. Elenco: Ansel Elgort, Oakes Fegley, Nicole Kidman, Finn Wolfhard, Jeffrey Wright, Sarah Paulson, Luke Wilson, Denis O'Hare, Willa Fitzgerald, Aneurin Barnard, Ashleigh Cummings, Boyd Gaines, Hailey Wist. Warner, 149 min. 

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Chovendo Sapos: 'O Pintassilgo' se transformou num dos maiores fracassos de 2019
'O Pintassilgo' se transformou num dos maiores fracassos de 2019
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