O 'tour de force' de Todd Phillips e Joaquin Phoenix em 'Coringa'


Na primeira cena de Coringa, Joaquin Phoenix ganha o espectador como o personagem-título do filme. Enquanto se maquia diante de um espelho, Arthur Fleck tenta esboçar algum traço de contentamento. A maior frustração do protagonista dessa história é querer ser um palhaço quando não consegue expressar nenhuma felicidade, diante de uma realidade que sempre lhe fora tão dura, ou encontrar graça em qualquer piada, ainda que eventualmente gargalhe em virtude do estado crônico de sua doença mental. Diante do espelho, enquanto testa a combinação de cores no seu rosto, Phoenix exibe a tensão perene desse homem esmagado pela sociedade à procura de algum contentamento como expressão, que só vem quando ele consegue no último ato do filme ser o Coringa. 

Ao assistir ao filme de Todd Phillips que ganhou o prêmio de melhor filme no Festival de Veneza e é apontado por muitos previsores como um promissor concorrente na temporada de premiações, o espectador de hoje tem que esquecer qualquer outra ideia que tenha sobre o que é um longa baseado em histórias em quadrinho de universos de super-heróis. Coringa é uma interpretação livre do mais famoso vilão do Batman em um exercício cinematográfico parecido com aquele que sempre foi praticado nas HQs com eventos esporádicos que dão liberdade a artistas de imaginar esses cânones da cultura pop por uma outra perspectiva, talvez mais autoral. Com o palhaço do crime da DC Comics, Alan Moore já fez isso, assim como Brian Azzarello e tantos outros. Coringa é resultado de algumas ideias do diretor e roteirista sobre o personagem descolado de qualquer megaprojeto, mas que, ao mesmo tempo, não impede sua coexistência com eles. 

A família Wayne está presente e lugares emblemáticos nos quadrinhos como o Asilo Arkham, claro, continua sendo uma história sobre a corrupta Gotham City, mas isso não significa que tudo tenha relação alguma (pelo menos, até o momento) com o Batman de Ben Affleck no extinto DCU ou o de Robert Pattinson que virá na idealizada trilogia de Matt Reeves. E por que não imaginar ser possível coexistirem versões de um mesmo universo? Algumas mais comerciais e juvenis, inclinadas a um projeto de narrativa seriada, outras mais autorais e adultas. Coringa é uma oportunidade de destreinar o olhar do espectador para esse tipo de empreitada nos cinemas, se apropriando de uma proposta salutar nos quadrinhos que tem tudo para possibilitar que esse tipo de produção não caia na pasteurização da qual tem sido vítima há anos. 


Phillips propõe aqui um estudo de personagem que possui forte vinculação com um olhar a respeito da sociedade. Através da transformação de Arthur Fleck em Coringa, o diretor e co-roteirista do filme pretende observar como a sociedade estruturada em esquemas de privilégio social que incluem grandes empresários, políticos e a mídia adoecem o indivíduo. Fleck é uma espécie de cria desse sistema que não se dá conta dos danos que pode causar ao indivíduo e de que esses males possivelmente se voltarão contra figurões em algum momento. 

Com similaridades com Taxi Driver de Martin Scorsese e, consequentemente, dialogando com ideias tensionadas por Stanley Kubrick em Laranja Mecânica, Phillips tem um olhar aguçado para personagens que julgávamos conhecer, como, por exemplo, Thomas Wayne, sempre visto nos quadrinhos e em suas representações no cinema até aqui como um referencial de idoneidade moral, retratado assim porque até então enxergávamos tudo pela óptica do seu filho enlutado Bruce Wayne. Ao deixarem Fleck se deteriorar na marginalidade em um processo de desumanização, os Wayne "cavaram a própria cova". Chega um momento que o sujeito não aguenta ser esmagado sucessivamente pelo "rolo compressor" dos poderosos de Gotham e aí pode ser tarde demais. Essa leitura de Phillips sobre a sociedade através da transformação do seu personagem, que se liberta de maneira catártica diante do espectador, dentro de um grande estúdio que tem sua origem em um material (as HQs de super-heróis) em alta na indústria é motivo de respiro aliviado por expandir as possibilidades e mostrar que é possível olhar para esse conteúdo com maturidade. 

Coringa é "abusado", corrosivo, até pretensioso em certos momentos. E que bom que ele é tão petulante, o cinema americano precisa disso. Amparado, mas não sustentado, pela interpretação complexa de Joaquin Phoenix, o longa é uma versão do personagem que sequer podemos comparar com as encarnações de Jack Nicholson ou Heath Ledger. Arthur Fleck é tão descolado de qualquer versão do personagem que sequer dá para enquadrá-lo como pior ou melhor, é outra coisa. O corpo (físico e mental) que Phoenix dá a esse personagem é assombroso, colocando-o em uma instância de fragilidade, loucura e perigo que o torna magnético em cena. Não é o retrato de um mocinho, está longe disso, Fleck é a expressão de uma sociedade em falência com a sua humanidade. Tampouco temos um vilão maléfico e psicótico armando planos contra Gotham City e Batman. O Coringa de Coringa é uma figura que oscila entre a empatia e a ojeriza, dimensionando a fragilidade, a violência e a loucura da vivência humana contemporânea.

Coringa é um "ponto fora da curva", um "corpo estranho" dentro daquilo que associamos a narrativas baseadas em HQs. O paralelo mais próximo que podemos traçar é com Logan. A esperança é que iniciativas como esta sejam continuadas em outros projetos e que os estúdios compreendam que é possível e salutar oferecer possibilidades diversas de leituras sobre esses personagens, amadurecendo o filão. É filme baseado em HQs de super-heróis, sim, mas resultado do amadurecimento sobre a ideia de como explorar esse nicho de produção, potencialmente refinando o olhar do público para possibilidades que sempre existiram na sua mídia de inspiração (os quadrinhos). Acima de tudo, é um filme brilhante, vindo de alguém que, particularmente, jamais desconfiava ser capaz de tal feito (Phillips tem como precedente a franquia Se Beber, Não Case), e acompanhado da interpretação de um artista magistral como Joaquin Phoenix. 


Joker, 2019. Dir.: Todd Phillips. Roteiro: Todd Phillips e Scott Silver. Elenco: Joaquin Phoenix, Robert DeNiro, Zazie Beetz, Frances Conroy, Brett Cullen, Shea Whigham, Bill Camp, Glenn Fleshler, Leigh Gill, Josh Pais. Warner, 121 min. 

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Chovendo Sapos: O 'tour de force' de Todd Phillips e Joaquin Phoenix em 'Coringa'
O 'tour de force' de Todd Phillips e Joaquin Phoenix em 'Coringa'
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