'Casal Improvável' e a viabilidade das comédias românticas no século XXI


Com a desconstrução dos lugares de homens e mulheres na sociedade de algumas décadas para cá, os estúdios cinematográficos parecem ter freado a produção de comédias românticas e os realizadores alegam ser difícil fazer roteiros do gênero. Basicamente, se questiona, como realizar uma obra ficção que tem como marca a realização afetiva de um casal e que sempre atribuiu características tão estanques para personagens masculinos e femininos em tempos nos quais se discutem questões como misoginia, empoderamento feminino e masculinidade tóxica? Fica inviável contar as leves histórias românticas nos moldes de sempre e a gente sabe como a reinvenção custa à preguiçosa Hollywood, que prefere se apegar a fórmulas. Assim, na dúvida, a produção do gênero praticamente foi paralisada. 

Nos últimos anos, o que temos visto, sobretudo nas produções da Netflix, é uma gradual reativação da produção do gênero, com filmes voltados para o público teen, mas Casal Improvável talvez seja a iniciativa mais forte entre as produções de larga escala, estrelado por nomes de peso e com intenção de exibição nos cinemas. E o filme protagonizado por Charlize Theron e Seth Rogen mostra de maneira inteligente como é sim possível fazer uma comédia romântica com todos os elementos típicos do gênero sem soar anacrônico, revelando-se como uma produção extremamente divertida, mas sagaz na maneira como rearranja os clichês esperados desse tipo de história. 


No filme, Theron interpreta uma Secretária de Estado que prestes a lançar sua candiatura à presidência dos EUA contrata os serviços de um jornalista cheio de ideais interpretado por Rogen para compor a sua assessoria. Eles acabam descobrindo que se conheceram quando ainda jovens e ela era a sua babá, presidente do grêmio e alvo de uma paixonite que mantém até hoje.

Ao longo da história, Casal Improvável realiza um empenhado e inteligente trabalho de desconstruir fórmulas das comédias românticas, mantendo-se fiel a certas marcas do gênero. Por exemplo, é interessante como o longa repensa os lugares com que frequentemente os protagonistas desse tipo de gênero são tradicionalmente associados, revelando na dupla central figuras complexas que escapam a qualquer estereotipia. A Charlotte Field de Charlize Theron é obviamente uma mulher muito bonita, mas muito competente, segura de si e do seu lugar enquanto mulher sem que isso tire dela sua sensibilidade ou inviabilize um arco dramático de transformação. Ao mesmo tempo, Rogen tem em Fred Flarsky um sujeito idealista, localizando-se como um tipo "macho sensível" que não o transforma numa figura nula ao longo da história. Nesse sentido, o filme permite a Theron e Rogen performances muito interessantes e a construção de uma química, que, como o próprio título brasileiro indica, em outras circunstâncias, seria improvável.

O filme consegue construí-los como personagens representativos desse novo contexto de reconfiguração dos lugares dos gêneros masculino e feminino na sociedade e nos relacionamentos sem cair nas estereotipias culturalmente arraigadas (o passado da comédia romântica) e das reivindicações desconstrucionistas da militância contemporânea, encarando-os como figuras complexas e cônscias do atual cenário, tornando viável em meio a tudo isso um relacionamento amoroso. Esse é o grande achado do longa caindo por terra o argumento de que no mundo em que vivemos a comédia romântica é um dos gêneros fadados ao esquecimento. Casal Improvável mostra o contrário, é nesse cenário no qual urge repensar determinadas marcas desse tipo de história que provavelmente estimula seus autores a pensar tramas e personagens mais elaborados e complexos e Casal Improvável é prova de que essa transformação social jamais deve ser sinônimo da paralisação da produção do gênero, mas sim estímulo para obras cada vez melhores e mais inteligentes.


Long Shot, 2019. Dir.: Jonathan Levine. Roteiro: Liz Hannah e Dan Sterling. Elenco: Charlize Theron, Seth Rogen, O'Shea Jackson Jr., June Diane Raphael, Ravi Patel, Bob Odenkirk, Andy Serkis, Alexander Skarsgard, Randall Park, Tristan D. Lalla, Aladeen Tawfeek, Aviva Mongillo, Braxton Herda. Paris Filmes, 125 min. 

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Chovendo Sapos: 'Casal Improvável' e a viabilidade das comédias românticas no século XXI
'Casal Improvável' e a viabilidade das comédias românticas no século XXI
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