'Gloria Bell', Julianne Moore e a vida em estado de êxtase depois dos 50


Gloria é um longa chileno de 2013 do diretor Sebastián Lelio, de Uma Mulher Fantástica e Desobediência. O longa trazia Paulina Garcia numa performance magnética (escolhida em nosso listão, inclusive, como melhor desempenho de uma atriz em 2014) e contava a jornada de uma mulher acima dos 50 anos redescobrindo os prazeres da vida. 

Gloria não justificava um remake, mas na internacionalização da carreira do realizador ele ganhou uma versão americana e o próprio Lelio encabeçou a empreitada antes que qualquer outro diretor assumisse seu "bebê". Decisão acertada, pois além de ser uma história universal que poderia ser recontada quantas vezes pudesse com diversas atrizes dando seu toque à personagem, Gloria Bell segue os passos do original no que tem que seguir. A versão americana ainda ganha muito com o olhar de Julianne Moore para a protagonista, rendendo mais um desempenho formidável na carreira da atriz. 

Gloria Bell conta a história da personagem título do filme, uma mulher acima dos 50 anos, divorciada, independente e bem resolvida. Ainda assim, Gloria começa a pensar na inevitabilidade passagem do tempo, seus filhos já estão crescidos e (com percalços ou não) resolvendo suas vidas, alguns problemas de saúde começam a surgir e seus amigos passam por problemas que indicam um "avançar" na idade. No entanto, Gloria tenta encarar isso tudo da melhor forma possível e sente que ainda tem muito a viver. A personagem procura sempre por novas experiências, relacionamentos e se realiza dançando em clubes que tocam músicas da sua juventude. 


Lelio tenta adaptar o forte contexto político que movia o seu projeto inicial, adicionando alguns insights sobre o governo Trump nas conversas entre Gloria e seus amigos o aspecto mais forte em Gloria Bell é sua protagonista. Como em sua filmografia completa, Sebastián Lelio imprime em Gloria Bell um tipo de abordagem que evita redundâncias, autoexplicações e preza pela economia com uma câmera singela que somente acompanha a movimentação da sua protagonista no cotidiano, conseguindo ser claro para o espectador a respeito daquilo que pretende com muito pouco. Existem poucos cineastas que conseguem ser tão expressivos assim sem ser evasivo, Lelio é um deles. 

Ao longo de todo Gloria Bell é possível perceber toda a jornada pessoal pela qual a Gloria de Julianne Moore. Esse êxito se deve, claro, ao trabalho consistente de Moore, que interpreta com vitalidade Gloria Bell, mas não a transforma numa super-mulher. Bell não é o protótipo de empoderamento que reduz personagens femininas à impermeabilidade da fragilidade, distanciando-as de uma humanidade. Ela é bem resolvida, solteira, independente financeiramente, mas alguém cheia de problemas como qualquer outra. E, como qualquer ser humano, Gloria passa por momentos de questionamentos que abalam sua resistência e convicções pessoais. Nesse sentido, a personagem volta e meia convive com o fantasma da passagem do tempo. Moore desenvolve de maneira impecável essas nuances num desempenho, magnético, complexo, humano... É uma delícia ver o que ela faz em cena durante toda a projeção. 

Em comparação com sua versão "original", Gloria Bell pode até parecer redundante ou até menor por não injetar com tanto vigor e propriedade algumas questões geopolíticas que, naquela situação, inevitavelmente tocavam mais o próprio Sebastián Lelio. Gloria Bell tem ares íntimos, mas pop, despojado, como a própria protagonista. Esse remake do diretor comprova a força de uma história universal que precisa ser vista com menos resistência pela cinefilia, um tipo de relato sobre o amadurecimento feminino que, inclusive, poderíamos ver com mais frequência nos cinemas. O filme ganha ainda mais vida quando tem sua protagonista vivida por uma atriz magnífica como Julianne Moore. Como frisou o crítico Nathaniel Rogers na última edição do podcast do site The Film Experience, como seria maravilhoso se todo filme terminasse com Julianne Moore se esbaldando na pista de dança ao som de "Gloria" de Laura Branigan. Gloria Bell é cheio de vida, assim como a personagem e o desempenho de Moore. 


Gloria Bell, 2019. Dir.: Sebastián Lelio. Roteiro: Sebastián Lelio e Alice Johnson Boher. Elenco: Julianne Moore, John Turturro, Michael Cera, Sean Astin, Holland Taylor, Rita Wilson, Jeanne Tripplehorn, Alana Ubach, Brad Garrett, Chris Mulkey, Cassi Thomson. Sony, 102 min. 

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'Gloria Bell', Julianne Moore e a vida em estado de êxtase depois dos 50
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