Amy Schumer está às voltas com a autoestima em 'Sexy por Acidente'


Lançada há alguns anos atrás como promessa do humor americano em função do sucesso da comédia Descompensada e do programa de TV que leva o seu nome (Inside Amy Schumer), a comediante Amy Schumer encontrou espaço no reposicionamento de ideias sobre o feminino em Hollywood ao criticar em seus produtos as padronizações estéticas e comportamentais impostas às mulheres. Sexy por Acidente é coerente com esse propósito ao trazer a história de uma jovem com dificuldade de aceitação das suas próprias medidas. Após um acidente na academia, ela começa a ganhar autoconfiança e acaba conquistando o emprego dos sonhos e um relacionamento saudável por força dessa mudança comportamental. 

Sexy por Acidente tem ecos de outras comédias por todos os lados. Ao centrar suas ações na história de uma jovem moldada por forças sociais a ser insatisfeita com seu corpo e utilizar como recurso dramático uma transformação atribuída ao fantástico, o filme dialoga com O Amor é Cego, dos irmãos Farrelly de 2001. O longa também guarda semelhanças com O Diabo veste Prada na medida em que deseja tecer considerações sobre a mídia, a indústria da beleza e as consequências da sua padronização de corpos na modelação de uma sociedade preconceituosa e cheia de neuroses. 


Em meio a tantas referências mais do que batidas, o filme, no entanto, capta o interesse do espectador por realizar mudanças pontuais, detalhes que no final das contas fazem toda a diferença, mas que também são conflitantes. Ao contrário do que o espectador naturalmente poderia esperar, quando sofre o acidente, o filme não constrói a mudança de olhar da personagem de Schumer como uma transformação física materialmente visível para nós, como ocorria com Gwyneth Paltrow aos olhos do personagem de Jack Black em O Amor é Cego. A transformação da protagonista é notada de fato apenas por ela e Schumer está no filme tal qual a conhecemos do início ao fim. Inicialmente, a escolha sugere que a transformação é mais psíquica do que física e que o que ela adquire é autoestima e não um corpo novo. No entanto, a autoestima vem do corpo novo imaginado e isso cria problemas no roteiro mais para frente.

No filme, é como se a personagem da Schumer fosse o Jack Black da vez, mas vivenciando uma situação consigo própria e não mirando um terceiro.Esse conceito por vezes funciona, por vezes não, mas na maioria das vezes é bem intencionado e o teor fantástico da obra acaba abrindo determinadas liberdades para a maneira como as coisas fluem e as personagens se transformam rapidamente no terceiro ato da comédia, afinal é como que por osmose que após o encanto a protagonista de fato compreenda que não está com nada virar refém das padronizações estéticas midiatizadas.

Há algumas piadas do longa que, por exemplo, se sustentam na idiossincrasia que é uma mulher com as medidas de Schumer acreditar ser como as modelos que trabalham na empresa de cosméticos. Apesar de tudo estar dentro de um contexto e sabermos das intenções dos seus realizadores, isso por vezes soa involuntariamente contraditório no longa, apesar de passarmos uma borracha em outras circunstâncias por sabermos que de fato a sociedade reage assim. 

A autoconfiança é um tema caro na comédia, não apenas para sua protagonista, mas para vários personagens que estão na sua órbita, como o tímido namorado da moça (e, ao contrário do que se espera, ele não é típico galã desses filmes) ou a insegura herdeira da marca de cosméticos interpretada por uma afiada Michelle Williams, que incorpora à personagem um curioso trabalho vocal e não está nem um pouco deslocada num gênero que não costuma protagonizar.

O filme se alonga mais do que o recomendável no terceiro ato, mas, a despeito do seu terrível título nacional, é interessante ver um exemplar do gênero em circulação que traz protagonistas reais, passíveis de identificação física e psicológica pelo público por suas medidas, mas também por suas inseguranças relacionadas a elas. 


I Feel Pretty, 2018. Dir.: Abby Kohn e Marc Silverstein. Roteiro: Abby Kohn e Marc Silverstein. Elenco: Amy Schumer, Michelle Williams, Rory Scovel, Lauren Hutton, Tom Hopper, Busy Philipps, Emily Ratajkowski, Aidy Bryant. Paris Filmes, 110 min. 

Assista ao trailer do filme:


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Chovendo Sapos: Amy Schumer está às voltas com a autoestima em 'Sexy por Acidente'
Amy Schumer está às voltas com a autoestima em 'Sexy por Acidente'
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