A fúria e a sensibilidade de Rose McGowan expostas em 'Citizen Rose'


No primeiro episódio de Citizen Rose, série documentário exibida pelo E! que tenta conhecer um pouco a personalidade de Rose McGowan, a ex-atriz, cineasta e ativista pelo direito das mulheres, expõe o medo de perder a vida pelas ameaças que recebe desde que expôs todo seu histórico como vítima de abusos por "chefões" de Hollywood, mas também toda a sua raiva por um sistema que perpetua lógicas machistas retroalimentando um campo com sua sutil ou escancarada misoginia. Assim, Citizen Rose acaba nos apresentando uma personagem real, contraditória, mas também com propriedade naquilo que diz, convivendo com traumas do seu passado, fantasiando ou vivenciando de fato as consequências da coragem do seu ato de expor a perversa lógica que rege um sistema. Por obra dessas mesmas sequelas psicológicas, ela ainda consegue encontrar forças para romper tabus e denunciar um comportamento que contamina a produção criativa se tornando uma das principais vozes de um ano marcante sobre esse tema como foi 2017. 

Para quem desconhece McGowan, a artista foi um dos principais nomes da sua geração. Nas décadas de 1990 e 2000, ela estrelou filmes como Pânico e Planeta Terror, séries como Charmed e viveu relacionamentos midiatizados com celebridades como o rock star Marilyn Manson e o diretor Robert Rodriguez. Alçada a símbolo sexual, McGowan construiu uma persona fora das telas que condizia com esse propósito, sempre se portando de maneira atrevida em capas de revista ou tapetes vermelhos, o estereótipo da dumb girl que, no fundo, parecia milimetricamente calculado para sustentar sua longevidade em Hollywood, uma Marilyn Monroe do seu tempo guardadas as devidas proporções. 

Depois de sofrer um acidente de carro em 2009, McGowan diz ter repensado alguns movimentos da sua vida, inclusive sua vocação para a profissão, afirmando ter sido tragada por trabalhos e convites que se sucederam sem que pensasse ao certo se era aquilo que queria. As revelações de McGowan não ficaram restritas a suas escolhas profissionais, a atriz começou a denunciar publicamente o produtor e dono da extinta Miramax Harvey Weinstein de assédio e o ex-namorado Robert Rodriguez de ser conivente com as abordagens do executivo. Assim, Rose se tornou uma ativista pelo direito das mulheres, expondo diversos casos de abuso em Hollywood na sua conta do Twitter. Nascia uma nova McGowan e esta Rose era persona non grata na Hollywood que ajudou a criar a anterior. 


Com outros nomes se manifestando publicamente sobre Harvey Weinstein e a matéria do The New York Times, em 2017 a voz de Rose McGowan deixou de ser ridicularizada até certo ponto. As câmeras de Citizen Rose registram justamente esse momento na vida da sua personagem central, tendo como principal mérito construir a personalidade desta mulher nas duas frentes que a tornam  complexa o suficiente para manter o espectador acompanhando sua trajetória em quatro episódios. Há elementos que servem de gatilho para tudo isso: o desenrolar do caso Weinstein e todos os outros que seguiram (Kevin Spacey, entre eles); o curta Dawn de autoria da própria McGowan (e que traz resquícios de episódios da sua vida nos bastidores da indústria); sua complicada relação familiar com seus pais (que envolve, inclusive, uma seita religiosa); seus encontros com figuras que participaram igualmente desse momento de Hollywood como Asia Argento e Ronan Farrow. 

Em diversos momentos, McGowan se dirige para a câmera, muitas vezes com discursos inflados pelo ódio e por um desejo anárquico de desconstruir todo um cenário, sem exceções, para que uma outra realidade se instaure (e não podemos esquecer quão simbólico é ver ela fazer isso no E!, canal conhecido pela cobertura do noticiário de celebridades). Isso por vezes pode soar radical já que inevitavelmente determinados cânones são mencionados, como Meryl Streep, por exemplo, quando a atriz conversa com Argento e se diz revoltada com a hipocrisia da vencedora do Oscar de encabeçar um luto pelos casos de abuso de 2017 incentivando todos a usarem preto no tapete vermelho do Globo de Ouro de 2018 quando a atriz e seus colegas protagonizaram inúmeros títulos produzidos por Harvey Weinstein e supostamente teria ciência do que ele fez durante anos.

O desejo anárquico de McGowan de estraçalhar tudo sem deixar vestígios é construído por meio de declarações da atriz e algumas imagens de arquivo de noticiário. Ao mesmo tempo, Rose McGowan exibe nessas ações contradições e fragilidades já que também acaba trazendo para si ainda mais sofrimento, afinal, dificilmente qualquer uma das suas atitudes esgotará ou atingirá de maneira definitiva e instantânea o sistema que a própria combate. É uma guerra exaustiva e que traz marcas psicológicas ainda mais severas para a artista e ativista. As coisas levam tempo e enquanto isso, McGowan lida com suas oscilações de humor e a sensação de estar sofrendo represálias (real ou ilusória, não importa, afinal tudo lhe traz muita dor). 

Por ser uma figura que parece sempre andar na corda bamba, Rose McGowan se mostra uma protagonista fascinante em Citizen Rose. A série ganha muito a partir do momento em que, mesmo partindo do ponto de vista da própria McGowan consegue frisar a voltagem do discurso dela como resultado de alguém extremamente ferido por esse mítico universo e isso não é um adendo que abona a culpa de assediadores e sim um olhar que consegue dimensionar para o público as terríveis consequências de conviver com episódios traumáticos decorrentes de uma cultura do assédio informal e formalmente insitucionalizada. 

Todo domingo às 22h no E! Entertainmente Television.


Assista ao trailer:


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Chovendo Sapos: A fúria e a sensibilidade de Rose McGowan expostas em 'Citizen Rose'
A fúria e a sensibilidade de Rose McGowan expostas em 'Citizen Rose'
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