'The Post: A Guerra Secreta' abre mão de sutilezas pela ênfase típica de Steven Spielberg


Desde o princípio, The Post: A Guerra Secreta, mais recente produção dirigida por Steven Spielberg (e indicada a 2 Oscars - melhor filme e atriz), deixa claro para o espectador dois grandes temas que lhe parecem muito caros e que são reforçados de forma oscilante ao longo da sua trama. O primeiro deles é a importância da liberdade de imprensa para a democracia - e como é humanamente complicado para profissionais da imprensa se blindarem de constrangimentos ou da interferência das suas relações interpessoais na manutenção desse ideal. Ao mesmo tempo, o longa de Spielberg também que frisar a jornada de Kay Graham, chefe do Washington Post que assumiu o comando do jornal após morte do marido e tentava herculeamente manter a empresa como um negócio familiar, lidando com as pressões de um meio machista. As duas preocupações do filme andam em paralelo, mas nem sempre são executadas da melhor maneira possível, sobretudo quando The Post abre espaço para "excessos" típicos da carreira de Spielberg como cineasta quando se distancia da fantasia e comanda produções com vertentes políticas como esta. 

A trama de The Post: A Guerra Secreta gira em torno da importância do jornal The Washington Post na revelação de documentos que comprovaram os esforços dos EUA em sucessivos governos (Nixon, Kennedy, Lindon) na ampliação da duração do conflito no Vietnã. O longa traz para o espectador o lugar central de Kay Graham na publicação dessas informações, sobretudo quando a mesma foi encurralada por vínculos financeiros e de amizade que tinha com poderosos. 


Por muitos momentos, The Post é tomado por uma elegância no trato dessas temáticas, um tom que, por sinal, não é o forte de Spielberg quando assume tramas com esse verniz. É interessante acompanhar como o diretor, auxiliado pelo ótimo desempenho de Meryl Streep, conduz as cenas que colocam em primeiro plano as reações de terceiros à presença de Kay Graham em ambientes predominantemente masculinos como reuniões com banqueiros, acionistas ou nas festas organizadas por ela em sua casa. Através da captura de dinâmicas que parecem tacitamente aceitas pelos personagens e o desconforto de Graham com situações nas quais sua presença parece ser ignorada, o diretor consegue dimensionar gradualmente um contexto opressor para sua protagonista, mas também uma difícil jornada de libertação para a mesma que culmina num terceiro ato no qual a personagem toma por completo as rédeas da situação. É interessante sobretudo como Spielberg foge do viés simplificador do empoderamento e traz uma personagem repleta de dúvidas e inseguranças que amadurece e conquista uma auto-confiança no exercício da sua função, tendo, ao longo do filme, uma jornada de aprendizado e amadurecimento. Esse tipo de construção de personagem exibe a inteligência e sensibilidade do roteiro na construção da sua protagonista e da interferência do contexto que a cerca. 

Ao mesmo tempo, Spielberg consegue conduzir com dinamicidade e precisão a rotina da redação do jornal, não só do ponto de vista da relação que mantinha com a própria concorrência, mas as dificuldades que o Washington Post enfrentava para manter-se independente sem perder de vista as relações burocráticas que tinha que manter com seus investidores e fontes. Aqui, curiosamente, Spielberg evita, por diversas vezes, um caminho que lhe seria natural: construir seus personagens como heróis americanos ou mesmo o estereótipo do jornalista que tem o compromisso com o seu leitor acima de qualquer coisa (inclusive da sua vida). Tanto do ponto de vista de Kay Graham quanto de Ben Bradlee, editor-chefe interpretado por Tom Hanks (bom no papel, mas com menos destaque que Streep), o público percebe um conflito pessoal entre abrir mão de relações pessoais estabelecidas por anos em prol da responsabilidade pública que ambos assumem ao se depararem com um caso como o que chega ao conhecimento de ambos.

É uma pena que no seu último ato The Post perca toda a sutileza e organicidade com que costurava seus temas para construir cenas marcadas pela ênfase e didatismo, com diálogos que desnecessariamente traduzem em palavras tudo aquilo que estava bem claro para o espectador desde o princípio. As ótimas cenas protagonizadas pela personagem de Meryl Streep nas salas de reuniões com os engravatados são substituídas por uma fala expositiva da esposa de Ben Bradlee, interpretada por Sarah Paulson, enfatizando o valor de Graham na condução do jornal e no enfrentamento de um ambiente comandado majoritariamente por homens. Em outro momento, Spielberg se rende ao melodrama que destoa do tom do filme ao trazer uma cena na qual a personagem de Streep e sua filha relembram eventos passados.

No outro espectro da obra, acompanhamos a jornalista interpretada por Carrie Coon ouvindo na redação do jornal uma fala sobre o caso do Washington Post e a importância da existência de uma imprensa livre para a manutenção da democracia americana, um discurso que se somado à trilha de John Williams nos convoca a recorrências da filmografia de Spielberg e seu patriotismo ocasionalmente old fashioned - isso quando todo o percurso da narrativa nos deixa clara a importância da independência da imprensa sem dizer absolutamente nada. É o tipo de coisa que se espera de um filme de Steven Spielberg sobre a história dos EUA, mas que em The Post, até certa medida, suspeitávamos que o diretor passaria longe tendo em vista a interessante discrição com que o vinha conduzindo os temas de interesse da sua obra no primeiro e segundo ato.

Apesar de sabotar o seu desfecho com momentos reiterativos - e que depõem contra tudo aquilo que o filme construiu de maneira tão elegante até aqui -, The Post: A Guerra Secreta é um longa que tem coisas importantes a dizer sobre as questões que lhes são caras, além de conseguir construir uma jornada muito rica para sua protagonista, graças sobretudo à força e complexidade que Meryl Streep imprime em cada reação aparentemente banal de Kay Graham em círculos sociais que forçam sua invisibilidade. Nesse departamento, é interessante como a personalidade de Spielberg e o próprio apelo de Tom Hanks em mais uma parceria com o diretor se rendem à força da atriz, que domina o filme e praticamente conduz ou inspira as sutilezas de The Post, um diferencial na filmografia do seu realizador até. No geral, The Post ganha mais quando prioriza o não dito e isso Streep consegue fazer muito bem. 


The Post, 2017. Dir.: Steven Spielberg. Roteiro: Liz Hannah e Josh Singer. Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Matthew Rhys, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Alison Brie, Carrie Coon, Jesse Plemons, David Cross, Zach Woods. Universal, 116 min. 

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'The Post: A Guerra Secreta' abre mão de sutilezas pela ênfase típica de Steven Spielberg
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