Apesar do elenco, estreia de 'The Assassination of Gianni Versace' não empolga


Quinta-feira (18) passada começou a ser exibida pelo canal FX no Brasil a segunda temporada da antologia American Crime Story do showrunner Ryan Murphy sobre crimes que ficaram marcados na história dos EUA. Batizada de The Assassination of Gianni Versace, a temporada abordará tudo aquilo que antecipou e foi consequência do assassinato do renomado estilista italiano por Andrew Cunanan, um serial killer que antes de Versace havia matado pelo menos cinco pessoas e que se suicidou alguns dias depois do seu crime mais midiatizado. The Man Who would be Vogue, episódio de estreia da temporada, tem início justamente com a morte de Versace por Cunanan na porta da casa do estilista em Miami Beach, sendo alternada pela posterior perseguição ao assassino, o luto de Donatella Versace e Antonio D'Amico, irmã e namorado da vítima respectivamente, e flashbacks que nos remetem aos primeiros encontros entre o assassino e o estilista e à gradual construção da personalidade do serial killer para o público. 

De cara, o primeiro episódio de The Assassination of Gianni Versace traz um desafio para Ryan Murphy e seus roteiristas ao longo dessa temporada: superar ou, ao menos, se equiparar à pertinência temática e à precisão cirúrgica da construção dos episódios e das dinâmicas entre os personagens do ano anterior da antologia, The People vs. O.J. Simpson. Enquanto a temporada de O.J. Simpson tinha um material que oferecia fôlego à temporada, com o assassinato seguido das constantes reviravoltas nos bastidores do tribunal, o ano de Versace no seu primeiro episódio passa uma sensação de que algumas questões são esgotadas no assassinato do seu protagonista, fazendo com que qualquer reverberação funcione como trivia de um caso real que, inevitavelmente, desperta a curiosidade do público. 

Enquanto trabalhos anteriores com a assinatura de Murphy que abordavam eventos reais se esforçavam em ser mais do que uma sucessão de eventos que saciam o magnetismo do público por tragédias com celebridades faziam questão de trazer à tona discussões como o racismo (The People vs. O.J. Simpson) e a misoginia (Feud: Bette & Joan) da sociedade americana, Versace (repito, uma impressão gerada apenas pelo seu primeiro episódio) não parece extrapolar a esfera das informações de uma Wikipedia ou dos arquivos de tablóides americanos. Isso a princípio é preocupante em função do fôlego que a história precisa exibir para justificar sua narrativa seriada. Há uma discussão sobre a homofobia que é sugerida em algumas cenas, mas nada que demonstre a força do desenvolvimento das temáticas de The People vs. O.J. Simpson: American Crime Story ou Feud: Bette & Joan. O episódio The Man Who would be Vogue de The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story pareceu mais interessado em estudar a personalidade do assassino Andrew Cunanan e da irmã da vítima Donatella Versace do que qualquer outra coisa. 


Ainda assim, repetimos, é cedo para traçar qualquer diagnóstico sobre a temporada. Podemos afirmar apenas que o seu primeiro episódio não exibiu o mesmo fôlego e relevância que O.J. e a primeira Feud. Nesse esforço de exibir estudos de personagem, há acertos em Versace que são perceptíveis em sua estreua. A escalação do jovem Darren Criss é certeira. Como antecipamos, tudo aqui parece girar em torno da personalidade conturbada do assassino Andrew Cunanan (algo que até pode gerar controvérsia a depender de como a temporada irá conduzir isso). Criss constrói um jovem visivelmente em conflito com sua própria identidade e obcecado por sua última vítima, Gianni Versace. O ator exibe uma construção complexa e cheia de nuances para seu personagem, tanto em flashbacks quanto nos momentos que antecedem a morte do estilista. Outro elemento do elenco que surge como promissor é Ricky Martin, intérprete de Antonio D'Amico. No episódio de estreia da temporada, D'Amico aparece devastado e em choque com a violenta morte de Versace, isso traz para ele a oportunidade de protagonizar cenas de forte impacto emocional. 

Curiosamente, Edgar Ramírez e Penelope Cruz, duas figuras centrais e que monopolizaram a atenção da cobertura midiática que antecedeu a estreia da temporada, precisam de muito mais do que o mimético trabalho de caracterização física que exibem para convencer o público na pele dos irmãos Gianni e Donatella Versace, respectivamente - e isso, novamente, é uma impressão passada estreia. Ramírez tem pouquíssimos momentos para construir algo em torno do seu Versace. Cruz, por sua vez, tem mais cenas do que o seu parceiro, porém adota um sotaque italiano de "gosto" bastante duvidoso. Apesar de ter uma introdução para a sua personagem mais interessante que aquela que fora construída para o próprio Gianni Versace, apresentando uma Donatella em luto, mas com "cabeça fria" o suficiente para pensar na posteridade dos negócios da família, o público ainda precisa de mais momentos para sentir que a construção de Cruz não se restringirá a uma tentativa de imitar a figura pública que interpreta e desaparecer nesse papel. Só o tempo nos dirá como a jornada de ambos será definida em The Assassination of Gianni Versace

Dirigido pelo próprio Murphy, o primeiro episódio da segunda temporada de American Crime Story exibe a usual qualidade das produções do premiado showrunner na TV, porém falta aqui aquilo que teve de sobra nos pilotos de outras antologias do realizador, a própria primeira temporada de American Crime Story, American Horror Story e Feud. À primeira vista, The Assassination os Gianni Versace não se mostra como uma leitura mais problematizadora, contextualizada e de alcance universal do seu caso real a ponto de se distinguir de outros subprodutos sobre o caso Versace, como documentários para a TV ou arquivos de noticiários da época. A segunda temporada da antologia ainda precisa convencer o público de que não se restringirá ao esquema da apresentação de uma trivia de caso real, caso contrário poderá ter problemas para manter o espectador envolvido com sua trama até o último episódio. 

Obs.: Como são impressões sobre a estreia da temporada, preferimos não atribuir cotações à obra ainda.

A série é exibida pela FX toda quinta às 23h (horário de Brasília). 

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Chovendo Sapos: Apesar do elenco, estreia de 'The Assassination of Gianni Versace' não empolga
Apesar do elenco, estreia de 'The Assassination of Gianni Versace' não empolga
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