'Thor: Ragnarok' não reinventa 'fórmula Marvel', mas é um bom passatempo


A única vez que a Marvel Studios tentou fazer algo que subverteu de alguma forma o padrão no tom narrativo dos seus filmes foi com Capitão América: Soldado Invernal e a gigante das adaptações de quadrinhos para o cinema fez isso através da forma mais tradicional possível, através do gênero, oferecendo ao público um elegante e bem executado thriller de ambições políticas. No mais, todos os filmes seguiram a cartilha de uma fórmula que traz para o seu formato uma trama com pouquíssima urgência para seus personagens. Na Marvel, os eventos que acontecem na história jamais transformam ou marcam irreversivelmente as jornadas dos seus protagonistas, com os seus dramas amortizados por altas doses de piadas adolescentes. A justificativa? Ninguém na Marvel Studios deseja afastar as plateias. No máximo, Guardiões da Galáxia conseguiu amplificar esta fórmula com uma dose a mais de irreverência e um humor autorreferencial. No mais, os demais títulos, alguns mais outros menos bem sucedidos, simplesmente seguem a cartilha ditada pelo "chefão" do estúdio Kevin Feige, praticamente reproduzindo em seu filão o esquema dos áureos tempos nos quais os "cabeças" dos estúdios de cinema tinham mais controle criativo do que seus diretores. 

Andam dizendo que Thor: Ragnarok reescreve a história do estúdio. No entanto, o que o mais recente capítulo na trajetória da Marvel nos cinemas faz é seguir o esquema padrão de sempre dos longas do estúdio com piadas utilizadas em tom parecido ao de tantos outros filmes já assistidos com o selo da companhia. É divertido sim, mas, antes que isso se transforme num adjetivo chavão para simplificar qualquer tipo de avaliação sobre a trama, podemos dizer que é uma diversão calculada, pensada a partir daquilo que faz a sua plateia reagir melhor, como de praxe. Na Marvel, joga-se para o público e com carisma, sendo até embaraçoso para uma outra fatia da audiência levantar a voz e questionar qualquer decisão do estúdio sem que eventualmente esta "fala" dissidente seja taxada de "chata" ou "rabujenta", afinal é "só" entretenimento, ainda mais num filme que é praticamente uma montanha-russa sem freios como Thor: Ragnarok.

 Claro que um Hulk pelado ou fazendo birra como uma criança de 5 anos lá pelas tantas vai fazer a plateia do cinema ir abaixo. Óbvio também que uma tiradinha de sarro do herói Thor com um vilão do longa logo na primeira cena vai garantir a confiança da plateia, "Opa! Estamos num terreno conhecido! De volta ao lar!". É certo que não dá para ser extremamente sisudo no enfrentamento de um filme como esse. Thor: Ragnarok não quer ser um tratado político, um filme de arte ou Shakespeare, ainda que siga o caminho da tragédia e do conflito familiar como os longas anteriores do herói. Thor: Ragnarok é feito para entreter e serve a esse propósito, sobretudo por seu diretor Taika Waititi exibir em seu trabalho um dos poucos filmes do estúdio a assumir por completo a chave de comunicação da comédia com o seu público, sem os usuais subterfúgios dos dramas por vezes tão deslocados na filmografia da Marvel. No entanto, isso não impede que olhemos criticamente para o tipo de entretenimento que aqui é oferecido e seu lugar no contexto de uma produção com tantos meandros. 


Os aspectos positivos de Thor: Ragnarok devem ser celebrados, sobretudo o que Waititi consegue com seu elenco. O público é cativado sem reservas pela performance carismática de Chris Hemsworth, enfim encontrando uma personalidade para seu herói após penar nos sofríveis filmes solo anteriores do personagem. O australiano ganha a companhia da bem-vinda aquisição ao universo Marvel que atende pelo nome Tessa Thompson, a Valkíria, uma personagem feminina que nos faz esquecer por completo daquele rascunho que era a Jane Foster de Natalie Portman em Thor e Thor: O Mundo Sombrio. Além dela, Thor ganha parceiros que lhe servem como escada, o Hulk de Mark Ruffalo e o Loki de Tom Hiddleston, sem falar na participação espirituosa de Jeff Goldblum. A oscarizada Cate Blanchett é a vilã Hela e, como os outros, parece se divertir bastante no filme. Infelizmente, lá pelas tantas, sua personagem evidencia, mais uma vez, que o forte dos filmes da Marvel não é o desenvolvimento de bons vilões. A personagem perde o fôlego durante a trama e suas motivações são circunscritas ao trono de Asgard e sua vingança familiar, soando parecida com Loki. 

Particularmente, a maneira como os filmes da Marvel articulam suas piadas quebrando momentos dramáticos importantes segue me incomodando e Thor: Ragnarok ostenta essas quebras, como o destino de Odin ou mesmo os complicados laços fraternais de Thor. Interromper alguns enlaces dramáticos, que fortaleceriam o envolvimento do público pelos seus protagonistas e por suas jornadas é uma perda na própria empreitada de entretenimento do estúdio, principalmente quando em muitos momentos seu humor soa apelativo e milimetricamente pensado em conquistar plateias adolescentes, fazendo com que os esforços dos seus artistas resultem em obras completamente efêmeras, o cinema fast food, que se consome, não marca o espectador e logo se esquece. Isto não é uma marca do entretenimento ou dos filmes de super-heróis, que têm em seu catálogo longas que marcaram gerações e a própria história do cinema, como Superman: O Filme, Homem-Aranha 2 e Batman: O Cavaleiro das Trevas. Particularmente, desse catálogo Marvel pouca coisa tem o impacto das obras que elenquei anteriormente e isso é um incomodo que precisa ser externado, ainda que a diversão seja um mérito incontestável dos filmes do estúdio.

Há que se reconhecer que em boa parte da projeção Thor: Ragnarok tem um tom agradável, rendendo uma aventura descompromissada que consegue encontrar um caminho para seu protagonista de uma maneira que os filmes anteriores do personagem não fizeram. Com um elenco que surge completamente espontâneo em cena e disposto a fazer do longa uma aventura simpática para as plateias, fica difícil não se render ao seu canto da sereia, ainda que por vezes ele soe tão "cafajeste". Thor: Ragnarok está longe de representar a reinvenção da Marvel como anunciam. Não precisaria também. Contudo, já está na hora da gigante mostrar um outro tipo de serviço. Thor: Ragnarok não reescreve nada, pelo contrário, reforça tudo que já foi visto com suas cores neon. O filme de Taika Waititi abraça um esquema que já víamos ser ensaiado em Guardiões da Galáxia Volume 2, a lógica do "quanto mais Marvel, melhor". Thor: Ragnarok "anaboliza" a "fórmula Marvel" das piadas por segundo, jogando mais para a plateia que a favor da própria obra em muitos momentos, ainda que, encerrando com o chavão das adjetivações, divirta e muito.


Thor: Ragnarok, 2017. Dir.: Taika Waititi. Roteiro: Eric Pearson, Craig Kyle e Christopher Yost. Elenco: Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Tessa Thompson, Jeff Goldblum, Anthony Hopkins, Karl Urban, Idris Elba, Benedict Cumberbatch, Taika Waititi, Rachel House, Clancy Brown. Disney, 130 min.

Assista ao trailer do filme:


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Chovendo Sapos: 'Thor: Ragnarok' não reinventa 'fórmula Marvel', mas é um bom passatempo
'Thor: Ragnarok' não reinventa 'fórmula Marvel', mas é um bom passatempo
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