Kathryn Bigelow faz retrato histórico e crítico do preconceito com 'Detroit em Rebelião'


Kathryn Bigelow sabe como administrar feridas expostas da sociedade americana. Desde que ganhou o Oscar com Guerra ao Terror em 2009, a diretora tem dedicado atenção a temas historicamente localizados que repercutem até hoje e nos fazem entender o que é os EUA e a semente dos seus principais conflitos internos e externos. Detroit em Rebelião segue o propósito desse cinema da realizadora ao nos trazer um retrato do passado americano com reverberações mais atuais do que nunca tendo em vista que o filme acaba trazendo duas grandes temáticas, o preconceito racial e a injustiça de um sistema que privilegia a distinção de tratamento para crimes. 

No filme, acompanhamos um recorte dos eventos que tomaram conta dos EUA de 1967 quando o país acompanhou cinco dias ininterruptos de violência e manifestações de protesto pelas ruas de Detroit trazendo à tona ações violentas da Guarda Nacional de Michigan contra a comunidade negra local. Em meio a todo esse caos, um grupo de policiais empreende uma questionável ação contra um grupo de jovens negros instalados em um motel a fim de localizar o autor de disparos que assustaram a polícia algumas quadras a frente. O evento resultará numa tragédia de consequências irreparáveis para suas vítimas. 


Detroit em Rebelião possibilita que Kathryn Bigelow exiba para o público sua destreza em fazer um retrato fiel sócio-cultural dos EUA da década de 1960. Enquanto a diretora consegue construir de maneira generosa, sem ser excessivamente didática, para o público o mosaico de acontecimentos e tensões sociais que culminará nas ações do terceiro ato do filme, como o preconceito racial que passa a ser externalizado por brancos e o despreparo de uma polícia local para ações tão delicadas quanto às empreendidas nas ruas de Detroit, ainda há espaço para a realizadora pincelar os hábitos e as produções culturais da sua época, transformando o filme num registro histórico importante.

A força de Detroit em Rebelião está, sobretudo, no cuidado que Bigelow e seu roteirista Mark Boal tem ao passar para o público eventos que de fato existiram, e que, se de um lado demandam um posicionamento firme e claro da cineasta, por outro, requer cuidado e lucidez para não cair no terreno do maniqueísmo, da leviandade e da injustiça que a própria história procura criticar e que tem sido tão comum em tempos de linchamento social na internet. Sendo claros com o espectador sobre o ponto de vista adotado no filme, diretora e roteirista também dimensionam a complexidade da sua história e as raízes culturais dos problemas que procuram abordar, sobretudo o racismo e a violência mediada por ele. Assim, Bigelow e Boal concebem personagens multidimensionais fazendo com que as grandes vítimas do episódio, os jovens negros do motel Algiers, exibam reações humanas como o medo no pós-trauma e não sejam arrebatados por um exagerado heroísmo ou que o grupo de policiais brancos exiba os sintomas de uma polícia despreparada, imatura e repleta de preconceitos enraizados socialmente enxergando no poder que acabam ganhando um gatilho para ações desastrosas. 

Com a lucidez que lhe é peculiar, sobretudo quando trata de eventos históricos, Kathryn Bigelow acerta mais uma vez com Detroit em Rebelião, filme que consegue êxito em diversas frentes, mas sobretudo pela maneira como constrói um discurso acerca de uma causa alicerçado num relato documentado que ganha força pela competência usual com a qual a diretora dramatiza os fatos. O filme não exibe nenhum novo horizonte na carreira de Bigelow, se mostrando uma extensão de tudo o que ela fez até então, mas é uma continuidade do seu projeto cinematográfico que dá gosto de assistir tamanha a sua importância e cuidado na exibição dos eventos e sua contextualização. Outro diretor ou diretora, por exemplo, teria uma inclinação para um cinema panfletário ou então para o sentimentalismo, o filme abre brechas para isso.

Detroit, 2017. Dir.: Kathryn Bigelow. Roteiro: Mark Boal. Elenco: John Boyega, Anthony Mackie, Algee Smith, Will Poulter, Jack Reynor, Ben O'Toole, Jacob Latimore, John Krasinski, Jason Mitchell, Hannah Murray, Kaitlyn Dever, Nathan Davis Jr., Malcolm David Kelley. Imagem Filmes, 143 min.

Assista ao trailer: 


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Chovendo Sapos: Kathryn Bigelow faz retrato histórico e crítico do preconceito com 'Detroit em Rebelião'
Kathryn Bigelow faz retrato histórico e crítico do preconceito com 'Detroit em Rebelião'
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