Em sua primeira temporada, 'Mindhunter' exibe estrutura narrativa exemplar


Fascinante como a mente humana aos olhos obcecados do agente do FBI Holden Ford, a série original da Netflix Mindhunter nos introduz a esse interessante personagem que se junta a uma já extensa lista de detetives do gênero, de Sherlock Holmes (o protagonista, inclusive, em dado momento é comparado ao próprio) e Hercule Poirot, passando ainda por Clarice Starling. Mindhunter é uma das mais recentes séries produzidas pela Netflix, baseada nos relatos reais do livro homônimo de John Douglas, e que está no seu catálogo há algumas semanas. Trata-se de um autêntico exemplar do gênero investigativo com sua trama e subtramas cerebrais - não à toa chamaram David Fincher (de Seven e Zodíaco) para dirigir os dois primeiros e os dois últimos episódios -, mas preserva um relativo ineditismo em seu recorte, a pesquisa científica da mente humana que classificou o padrão de comportamento de assassinos e trouxe todo um legado para a investigação policial.

Mindhunter é centrado no trabalho brilhante e importantíssimo da divisão do FBI responsável por esta pesquisa com assassinos presos que deu origem a todo um legado teórico usado até hoje na investigação de crimes bárbaros cometidos por assassinos em série, por exemplo, o termo, inclusive, foi criado pelo grupo. Na ponta da pesquisa está o agente Holden Ford, um jovem e perspicaz policial, que começa obstinadamente a correr atrás de uma minuciosa empreitada pelas mentes dos assassinos e logo consegue o suporte do seu parceiro nas aulas da polícia móvel pelos EUA, o veterano Bill Tench, e de uma renomada acadêmica na área de Psicologia que abandona a universidade para assumir um cargo involuntário de chefia na divisão. 


O centro do interesse de Mindhunter acaba sendo Holden, vivido brilhantemente por Jonathan Groff, e seu gradual fascínio pela mente dos criminosos, mas também sua inevitável transformação a partir do momento em que começa a ter contato e estudar comportamentos tão bárbaros. Holden Ford é o típico protagonista racional e intuitivamente inteligente que costuma guiar esse gênero de narrativa e todos os episódios são estruturados de modo que o espectador consiga entender o percurso da pesquisa empreendida pelo grupo do qual ele faz parte, entenda de que maneira a mesma consegue produzir um corpo teórico robusto o suficiente para resolver os casos que acabam surgindo para a polícia americana e também compreender de que forma tudo aquilo afeta a vida dos seus envolvidos, sobretudo o jovem agente do FBI. 

Holden é apresentado como um homem irremediavelmente seduzido pelos meandros da mente humana, um fascínio que beira a erotização (tanto que começa a namorar uma acadêmica e em dado momento acaba mostrando-se interessado por outra que logo se transforma em sua colega de trabalho). O fascínio pelo cérebro das pessoas, somado ao próprio ofício de entrevistar os assassinos, faz Holden cada vez mais olhar para si e achar semelhanças entre ele e seus objetos de estudo. Algo que, por exemplo, parece não afetar Bill Tench, o único da equipe que junto com ele tem contato direto com os criminosos. 

Os episódios de Mindhunter tem uma lógica operacional própria do seu gênero, com dedicação ampla ao percurso intelectual dos personagens na resolução dos casos que surgem nas suas mesas de trabalho, mas encontra uma certo refino na maneira como tudo isso é feito. Não há didatismo e a racionalidade da história não é justificativa para que o roteiro da série esqueça de adentrar na psicologia dos seus protagonistas, exiba relações de afeto e desenvolva suas emoções. Assim, temos contato profundo não apenas com Holden, mas com seu parceiro Bill Tench (Holt McCallany) e o estresse e desgaste que todos os crimes bárbaros com os quais tem contato causa na sua vida familiar, o dilema da Dra. Wendy Carr (a excepcional Anna Torv) com sua carreira na universidade e as novas possibilidades que o trabalho no FBI lhe abre, além da namorada de Holden, Debbie (Hannah Gross) que, sem querer, acaba sendo sugada pelo dia-a-dia do seu parceiro e entra em crise com o tipo de relacionamento que estabelece com ele e com sua própria carreira. Esse mosaico de personagens interessantes e com muitas camadas ainda a serem desvendadas em próximas temporadas dá fôlego a Mindhunter e a leva para lugares além da investigação policial, como demanda os melhores exemplares do seu gênero narrativo. 



Em Mindhunter existe uma natural temática tangente sobre o gênero, mas nada que soe oportunista dadas as circunstâncias do contexto em que a série está chegando ao público, ou seja, distanciando-se dos ativismos de butique que por imaturidade por vezes dominam as redes sociais e também toma conta da indústria do entretenimento. Aqui a questão do gênero é tratada com respeito que merece dada sua relevância e adere por completo às proposições da narrativa pois a temática é pertinente diante do universo que a série inevitavelmente convoca. Da relação de Holden com sua parceira, passando pela dinâmica dos engravatados nas salas do FBI até os relatos dos assassinatos, o componente da misoginia passa por esses ambientes, afinal parte desses casos tem como componente um ódio gratuito e naturalizado pelas mulheres e um desejo de impor uma dominação masculina pela violência, encontrando em personagens como Debbie e Wendy um questionamento a todo esse cenário em falas pontuais ao longo dos episódios. Enfim, toda a questão é tratada como um problema cultural, como deveria ser, sem personalizações ou maniqueísmos, ainda que os agressores sejam localizáveis e culpabilizados por seus atos. 

Além disso, a série aborda a dificuldade da incorporação do conhecimento de fundo teórico em esferas burocráticas, como costuma acontecer em diversas ramificações sociais. A "clássica" percepção coletiva que incompreensivelmente distingue o corpo de conhecimento teórico da sua aplicabilidade prática, tornando ambiências como a academia cercada de status mas muitas vezes "indesejada" sob o ponto de vista da operacionalidade de uma determinada rotina profissional. Nesse sentido, é pertinente como os episódios de Mindhunter trabalham a dificuldade de Holden ao fazer com que seus colegas consigam compreender a contribuição das suas pesquisas com os presos, mas também o choque de Wendy Carr quando começa a trabalhar num ambiente marcado pelo pragmatismo e que, por vezes, vê como intolerável qualquer tipo de reflexão sobre a própria prática profissional, quando a mesma acaba se revelando de fundamental importância para a própria evolução de um nicho de atividade. 

Contudo, cabe salientar que a série Mindhunter assume como tópico central os meandros obscuros da mente humana, evidenciando que eles não são perceptíveis apenas em figuras monstruosas como as que Holden entrevista para a sua pesquisa, mas no seu próprio protagonista, oferecendo uma interessante faceta para o mote central da série: entendermos o que leva sujeitos a cometerem atos de monstruosidade e o que nos separa desses indivíduos. Assim, torna-se emblemática a cena que encerra o último episódio da sua primeira temporada com um diálogo entre Holden e uma das figuras centrais da sua pesquisa, o assassino Ed Kemper, vivido com precisão cirúrgica pelo afiado Cameron Britton. Tão fascinante quanto à própria pesquisa tematizada em Mindhunter a série promete  temporadas que devem esgarçar ainda mais as questões apresentadas em seu primeiro ano, principalmente esta. Conforme, Holden Ford se aproxima dos ambientes sombrios que a princípio mira por uma curiosidade científica e profissional, ele passa a perceber em si lacunas e ranhuras de caráter difíceis de fitar. Será interessante saber pelos próximos anos os caminhos que o protagonista de Mindhunter irá percorrer e também como a série irá lidar com as questões já tratadas com maturidade em seu ano de estreia. 

Mindhunter, 2017. Criador: Joe Penhall. Diretores: David Fincher, Asif Kapadia, Tobias Lindholm, Andrew Douglas Elenco: Jonathan Groff, Holt McCallany, Hannah Gross, Anna Torv, Cotter Smith, Sonny Valicenti, Cameron Britton, Joe Tuttle, Alex Morf. Netflix. 

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Chovendo Sapos: Em sua primeira temporada, 'Mindhunter' exibe estrutura narrativa exemplar
Em sua primeira temporada, 'Mindhunter' exibe estrutura narrativa exemplar
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