(Crítica) 'Life: Um Retrato de James Dean' acerta ao não seguir protocolos



Life: Um Retrato de James Dean poderia se contentar com as convenções formais de uma biografia sobre aquele que foi um dos maiores astros de Hollywood, mas, seguindo a linha do que o diretor Anton Corbijn tem feito no cinema desde a sua estreia em longas com Control, o filme é bem mais do que um relato sobre a vida e a carreira de uma figura célebre. Em sua recente empreitada nos cinemas, Corbijn demonstra querer entender a personalidade do seus personagens biografados através de uma pertinente reflexão sobre as formas como reagimos às asperezas da vida. Assim, aos mostrar-se apto a produzir leituras que vão além da esperada sequência de fatos da vida do astro de Juventude Transviada, Assim Caminha a Humanidade e Vidas Amargas, Life: Um Retrato de James Dean se sobressai e gera algum interesse que não seja o do conhecimento de um relato enciclopédico.

No filme, somos apresentados a um James Dean prestes a ser catapultado ao estrelato com Juventude Transviada. Life se passa no hiato em que o jovem ator era lançado nos cinemas com um grande papel em Vidas Amargas, filme de 1955 de Elia Kazan, e havia acabado de ser contratado por Jack Warner para interpretar Jim Stark na fita que o transformaria no símbolo de uma geração, Juventude Transviada. Na ocasião, Dennis Stock, um fotógrafo da revista Life, captou o potencial efeito que uma figura como Dean causaria na cultura americana e insistiu na realização de um ensaio fotográfico com o jovem ator que ficaria conhecido por capturar a verdadeira essência do astro hollywoodiano anos mais tarde.

Colocando em colisão as personalidades de Dean e Stock, Life: Um Retrato de James Dean é um filme que deseja abordar, acima de tudo, a maneira avassaladora como os protocolos da vida cotidiana comprimem nossos sonhos, frustram nossas expectativas de juventude e podem nos transformar em figuras irreconhecíveis. De um lado, somos apresentados a Dennis Stock, um fotógrafo consumido pelos problemas da sua vida, divorciado, com problemas para se conectar com o filho pequeno que pouco vê em função do seu trabalho e com quem tem pouca intimidade, um homem que, às custas de tornar-se uma figura relativamente amargurada e com muito senso prático para as coisas, aprendeu desde muito cedo a abrir mão de certos sonhos, tudo para manter-se de pé e pagar as contas. Do outro lado, temos James Dean, um jovem ator que queria apenas atuar e fora das telas ser quem ele realmente era, um rapaz simples do interior e de espírito livre. Na medida em que começa a formar uma carreira no cinema, Dean passa a encontrar como obstáculo uma série de normas comportamentais impostas pelos grandes estúdios de Hollywood às suas maiores estrelas.

O filme lança seus olhares para as duas diferentes lógicas dos seus protagonistas encararem a realidade. Enquanto, Stock obedecia ao "sistema" às custas de mergulhar em um poço de melancolia, ansiedade e frustração pessoal e profissional, Dean resistia a esses chamados e reagia atendendo ao seu desejo de retornar a sua cidade natal, Fairmount, localizada no estado Indiana, algo que, depois de ser alçado a condição de estrela hollywoodiana jamais voltaria a fazer. Dean externava aquilo que todos nós, incluindo Stock, desejamos quando somos atropelados pelas responsabilidades do cotidiano, voltar para casa, para um lugar que nos traga a sensação de acolhimento e proteção, é exatamente isso o que ele diz em uma das narrações do filme. Para a realização do ensaio fotográfico da revista Life, Dean leva o fotógrafo Dennis Stock para esse refúgio e é nesse momento que o título do longa deixa de ser apenas uma referência à publicação que permitiu o encontro dessas duas personalidades mas um vínculo com o que o filme de fato quer abordar, o modus operandi da vida adulta, as diferentes formas de reagir a ele e, consequentemente, os seus efeitos em nós. Não por acaso, as diferentes lógicas de conduzir a vida dos dois personagens os levaram a caminhos muito distintos, enquanto Dean faleceria precocemente pouco tempo depois dos acontecimentos retratados no filme, Stock teria uma carreira longeva e faleceu aos 81 anos de idade.

O filme adota uma gramática bem particular para atingir as suas metas. Assim como acontecia com os demais longas do diretor, Life: Um Retrato de James Dean não é um filme com muito ritmo, seu processo de observação é mais introspectivo e ele não faz questão alguma de seguir às clássicas orientações de funcionamento de um manual de roteiro. É uma lógica própria, mas nem por isso deixa de funcionar e mostrar-se coesa com seus intentos de entender a natureza dos seus dois protagonistas. O filme é marcado ainda por um excelente trabalho de direção de arte, reproduzindo com precisão a década de 1950, mas também com muita elegância, e pela inspirada fotografia de Charlotte Bruus Christensen, que sabe produzir imagens marcantes sem chamar a atenção para seu trabalho em si, mas para o que o próprio filme tem a nos dizer com suas perspectivas a respeito dos seus personagens. A trilha sonora de Owen Pallett também é um ponto alto do longa, fazendo da sonoridade do jazz mais um elemento que nos faz compreender as emoções de Dean e Stock.

A dupla de atores também é um dos acertos do longa. Robert Pattinson segue em sua interessante carreira pós-Crepúsculo (que inclui The Rover: A Caçada, Mapas para as Estrelas ou Cosmópolis), conseguindo imprimir na tela os efeitos da natureza caótica da vida de Stock em sua personalidade e na dinâmica que estabelece com todos ao seu redor, Dane DeHaan, por sua vez, tem a difícil missão de interpretar uma personalidade marcante como a de James Dean, um trabalho difícil já que requer fidelidade à notória figura do astro hollywoodiano, mas que não pode ser confundida com uma barata imitação, um difícil e ingrato meio termo que o jovem ator de longas como O Lugar onde Tudo Termina e O Espetacular Homem-Aranha 2 consegue encontrar.

Na contramão da natureza protocolar das biografias cinematográficas, sobretudo aquelas que se debruçam sobre grandes personalidades do cinema, sempre tendentes a trabalhos opulentos e artificiais, Life: Um Retrato de James Dean consegue ser eficiente e dar conta do que de fato a vida dos seus protagonistas tem a nos dizer. Através desse encontro entre Dean e o fotógrafo Dennis Stock, o realizador Anton Corbijn faz um filme dotado de personalidade. Esta natureza indômita de Corbijn pode custar a Life uma desatenção do espectador pelo seu ritmo pouco usual e pela sua lógica particular de funcionamento dramatúrgico, mas é pertinente, refrescante, instigante e demonstra a plena consciência do realizador de que nunca conseguirá dar conta por completo dos seus biografados, mas apenas de uma fração deles. E a fração que Corbijn e o roteirista Luke Davies oferecem é exposta com muito êxito pelo filme. 


Life, 2015. Dir.: Anton Corbijn. Roteiro: Luke Davies. Elenco: Robert Pattinson, Dane DeHaan, Bem Kingsley, Joel Edgerton, Alessandra Mastronardi, Peter Lucas, Lauren Gallagher, John Blackwood, Kristian Bruun, Stella Schnabel. Paris Filmes, 111 min.


Assista ao trailer do filme:

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