Ainda me lembro da minha primeira sessão de X-Men pelos idos
de 2000, mais precisamente, dia 18 de agosto de 2000, sexta-feira, logo
depois da aula. Éramos todos adolescentes, alguns fãs dos mutantes
desde as HQs da Marvel, outros telespectadores assíduos da série animada
lançada pela Fox e transmitida pela Globo desde 1994, mas todos de
alguma forma familiarizados com aqueles personagens. Na época não
existia Homem de Ferro, Os Vingadores, o Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan e nem mesmo o Homem-Aranha de
Sam Raimi e Tobey Maguire. Os super-heróis não eram vendidos como água
nos Multiplex e acompanhávamos com muita expectativa o lançamento de
qualquer filme através das páginas da revista Set (sim, naquela época
colecionávamos revistas sobre cinema, uma época em que revistas sobre
cinema ainda existiam). Era o início de uma nova era nos blockbusters, mas nós espectadores não nos dávamos conta. Uma época cuja referência mais próxima de super-heróis no cinema era o vergonhoso Batman & Robin ,
dirigido por Joel Schumacher em 1998, filme que enterrou o Morcegão da
DC Comics nas telonas por um bom tempo. Estava para ser lançado um filme
baseado em uma das histórias mais adoradas, mas também complexas, dos
quadrinhos pelas mãos de um jovem diretor que tinha ótimos filmes no
currículo (Os Suspeitos e O Aprendiz), mas não o
suficiente para nos manter seguros diante de tamanha responsabilidade.
Insegurança, ansiedade, excitação… Era esse o cenário em 2000 para o
lançamento de X-Men.
No final das contas, o que testemunhamos foi um diretor que nasceu
para orquestrar como ninguém uma dúzia de personagens multifacetados e
temas delicados; a primeira aparição de Hugh Jackman, que tornou
Wolverine ainda mais icônico do que a Marvel jamais poderia pensar;
Patrick Stewart e Ian McKellen rivalizando com muita classe e maturidade
em lados opostos na causa mutante; a bela Rebecca Romijn monopolizando
as atenções com sua sinuosa Mística em poucas, mas marcantes, sequências
de ação… Claro que tivemos percalços como uma Anna Paquin que não
engolimos na época, mas o conjunto da obra foi tão arrebatador e
definitivo para uma geração que qualquer defeito apontado é pura
implicância. Mas não quero ficar preso ao passado, estamos aqui para
falar do presente e do futuro de uma franquia que acaba de nos entregar
um exemplar que comprova em definitivo a atemporalidade e o espírito de
renovação dos X-Men e das próprias HQs que não cansam de
reescrever suas origens e oferecer vários destinos para uma mesma
história. Estou falando de X-Men – Dias de um Futuro Esquecido e aviso, lerão
uma crítica que pode soar um pouco pessoal, mas que merece esse
“desvio”. Não dá para falar de um material tão próximo e querido assim
sem quebrar os protocolos da minha própria redação.
X-Men – Dias de um Futuro Esquecido começa com uma Nova York
completamente destruída pelas batalhas travadas entre parte da
humanidade e os mutantes. Os indivíduos dotados de super-poderes pela
genética são caçados por robôs chamados Sentinelas que têm a capacidade
de se adaptar a cada um dos poderes mutantes. Charles Xavier, Magneto,
Wolverine e alguns outros foram poucos de sua espécie a sobreviver e
encontram na possibilidade de voltar ao passado uma oportunidade para
impedir o desenvolvimento do projeto Sentinelas e reverter a situação.
Para tanto, enviam a 1973 o único do grupo capaz de fazer essa viagem no
tempo sem sofrer nenhum dano, Wolverine. No entanto, Wolverine tem a
difícil missão de ser o conciliador dos relacionamentos fraturados entre
Xavier, Magneto e Mística após os acontecimentos na Baía dos Porcos que
deixou o Professor X com uma grave lesão na coluna ao final de X-Men – Primeira Classe.
Para retornar ao universo dos X-Men, que abandonou erroneamente para dirigir projetos duvidosos como Superman – O Retorno, Operação Valquíria e Jack – O Caçador de Gigantes, Bryan Singer se lançou em uma empreitada corajosa em X-Men – Dias de um Futuro Esquecido.
Lidar com essas transições entre tempos diferentes e “paralelos” não é
tarefa fácil para qualquer realizador. Articular passado e futuro sem
parecer que as ações e consequências geradas nesses dois espaços
temporais soem como artifícios trapaceiros para o público relevar
soluções ocasionalmente indesejadas tomadas em filmes anteriores é um
desafio. Bryan Singer e seu roteirista Simon Kinberg utilizam o recurso e
de fato reescrevem a trajetória de seus personagens, mas não como uma
forma de trapaça, truque barato. Os realizadores se permitem oferecer
novos caminhos para os seus personagens, oferecer outras versões de suas
origens e desfechos e isso é muito interessante. Não invalida o que já
foi feito (não é um ato de embaraço diante dos demais filmes, sobretudo X-Men – O Confronto Final,
longa mais criticado da franquia) e dialoga com a multiplicidade de
perspectivas para uma mesma história que as HQs costumam ter.
Conduzindo seu filme como um verdadeiro maestro, Bryan Singer conhece
esse material como ninguém. O diretor sabe construir com destreza a
geografia das suas cenas de ação (conseguimos entender como cada um dos
personagens agem nessas sequências, entendemos o que acontecem nelas) e
compreende a verdadeira natureza e propósito dos X-Men nas
diversas leituras que esse universo propõe. Não há vilões ou mocinhos,
Xavier, Magneto e seus pupilos representam diferentes perspectivas para
uma mesma causa e eles, assim como todos os outros, têm suas angústias,
dúvidas, medos, falhas, vitórias, tropeços, quedas. É o caso da Mística
vivida por Jennifer Lawrence nessa versão, uma personagem que oscila
entre o ódio por ser tratada com ojeriza pela humanidade e uma fagulha
de compaixão que tem pela mesma, ou então a imprevisibilidade de Magneto
que o tornam um constante perigo. Assim, ao mesmo passo que consegue
sustentar a carga de complexidade desses personagens e a urgência
necessária aos acontecimentos do filme, Singer confere leveza ao projeto
utilizando um humor fluido e nada forçado. Os mutantes não apenas
sofrem por sua condição e pelas reações que ela causa na sociedade, mas
também conseguem se divertir com suas habilidades, sobretudo os mais
jovens, como o rápido Mercúrio. Essa característica reforça o diálogo do
filme com as HQs e convoca o que de melhor X-Men – Primeira Classe tinha. Do filme de 2011, X-Men – Dias de um Futuro Esquecido também
se apropria com destreza de um interessante diálogo entre a ficção e a
História, transformando alguns dos seus fatos a favor do próprio
andamento da trama.
Ao conseguir dimensionar todos esses inúmeros e aparentemente
destoantes elementos sem torná-los superficiais, equivocados e
deslocados, Bryan Singer preserva o que existe de mais perene na
trajetória dos X-Men desde a primeira edição da HQ e que ele
fez questão de ser fiel desde 2000, essa combinação simples (e não
simplista) de ficção-científica e drama político sobre a tolerância que
rende leituras universais, sem deixar de dialogar com sua própria
natureza como história de super-heróis, oscilando entre momentos de
reflexão e sensibilidade com outros tantos de pleno entretenimento. X-Men – Dias de um Futuro Esquecido segue esse legado proporcionando sequências tão marcantes quanto as de X-Men 2,
por exemplo, disparado o melhor longa da série, junto com esse. Como
não colocar em pé de igualdade o momento em que Noturno invade a Casa
Branco com a sequência da tentativa de assassinato do Dr. Bolivar Trask
pelas mãos de Mística? Ambas impecáveis.
Cada ação é justificada em detalhes, não há personagem descartável,
suas habilidades estão a serviço do desenrolar da trama e tudo funciona
como uma complexa, eficiente e interessante engrenagem. Mas tudo não
funciona por obra somente dos esforços do realizador, do roteirista e da
sua equipe técnica, o elenco que a franquia acumulou ao longo dos anos e
que foi aproveitado ao extremo em todos os filmes é um dos grandes
triunfos de X-Men. Rever Hugh Jackman cada vez mais
familiarizado com o seu Wolverine ao lado dos veteranos Patrick Stewart,
Ian McKellen, Halle Berry, Ellen Page e Shawn Ashmore, mas também
interagindo organicamente com os talentosos novatos James McAvoy,
Michael Fassbender, Jennifer Lawrence e Nicholas Hoult, é uma
oportunidade que torna a experiência de assistir X-Men – Dias de um Futuro Esquecido,
sem querer parecer infame,inesquecível. E no fim, ainda… Bom deixa para
vocês sentirem a mesma emoção que tive com o desfecho dessa história no
próprio cinema.
Assim como a situação vivida por Wolverine na trama do longa, assistir X-Men – Dias de um Futuro Esquecido foi
como voltar no tempo, rever personagens queridos e conhecidos de uma
época que não volta. Talvez tenha sido essa a mesma sensação de Bryan
Singer ao retornar para a franquia, apesar de nunca ter se afastado
dela, já que foi produtor de X-Men – Primeira Classe e deu consultas a Brett Ratner em X-Men – O Confronto Final. Contudo, não foi uma experiência melancólica e saudosista, não quero que seja essa a impressão. X-Men – Dias de um Futuro Esquecido
e esse relato sobre a experiência de assistí-lo tem muito mais a ver
com um realizador, um filme e uma franquia que sabiamente relativiza o
tempo vislumbrando as inúmeras possibilidades que esse rico universo
pode proporcionar. Presente, passado e futuro desafiando qualquer
pré-definição ao estarem juntos e materializados na mesma obra e na
experiência do próprio espectador.
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