Crítica: Álbum de Família


Tracy Letts é um roteirista habilidoso com as palavras. Essa propriedade de Letts vem do teatro, onde a maioria dos seus roteiros no cinema até então tiveram origem, dos últimos longas de William Friedklin, Possuídos e Killer Joe - Matador de Aluguel, até este Álbum de Família, que antes mesmo de estrear nos cinemas já surgia intocável pelo simples fato de ter Meryl Streep, realeza de Hollywood, como protagonista ( avaliamos o filme, o trabalho como um todo, e não somente a performance, ok?). O grande problema de Álbum de Família, por ironia do destino, está justamente nesse ponto. Temos um ótimo roteiro, um elenco afiado para dar vida àqueles personagens multifacetados, uma Meryl Streep a contento, mas pouquíssimo pulso do seu diretor. E em se tratando de um longa com tantos pontos de colisão e tantas possíveis reflexões, isso era fundamental.
 
Álbum de Família tem início quando o patriarca da família Weston comete suicídio por não suportar mais o relacionamento com sua esposa Violet, uma mulher constantemente alterada por tranquilizantes e toda sorte de medicamentos desde que foi diagnosticada com câncer. O trágico evento faz toda a família se reunir, incluindo as três filhas do casal. Toda sorte de rancores e segredos vêm à tona a partir da língua ferina de Violet, o que faz com que Barbara, filha mais velha do casal e involuntária rede de sustentação dos Weston, avalie sua própria conduta enquanto esposa, mãe e filha.
 
Como mencionado no início do texto, o roteiro de Tracy Letts é fulminante, não há ponto cego em toda a trama. Cada um dos elementos inseridos no longa, representados pelas dinâmicas empreendidas por cada um dos seus personagens, é determinante e colaboram com os objetivos de Letts. Visualmente, Álbum de Família não acompanha a fluidez e sagacidade do roteiro, que se apoia sobretudo em diálogos. Só para estabelecermos um paralelo, nas duas empreitadas anteriores do roteirista com William Friedklin sentíamos que existia um diretor disposto a colaborar com Letts, estabelecer uma parceria, criando soluções visuais interessantes para aspectos sugeridos pelo roteiro. Em Álbum de Família, o diretor John Wells parece confiar demais nos diálogos de Letts e nos seus atores, o que em dados momentos é corretíssimo, no entanto, em outros, quando um terceiro olhar para  a história é solicitado (não do roteirista ou dos seus atores, mas do diretor), ele parece ausente, incipiente, sem ter o que dizer diante desses dois elementos (roteiro e elenco) que parecem devastar tudo ao seu redor.
 
Meryl Streep, como de praxe, está excelente. Mas, sejamos sinceros, há poucos desafios se levarmos em consideração o histórico da vencedora de três Oscars. Interpretar uma mulher afetada pelo câncer e por drogas, uma matriarca com um olhar pessimista para a vida e por vezes cruel com seus filhos, é coisa que sabíamos que Streep tiraria de letra. Portanto, o maior destaque no elenco de Álbum de Família acaba sendo daqueles que contrariam expectativas, os que finalmente ganham um "grande" personagem no cinema ou os que se revelam aos nossos olhos do público nessa fita. No primeiro quesito, temos Julia Roberts, espetacular nas nuances que confere a Barbara Weston, essa sim uma personagem desafiadora por sua complexidade e por apresentar uma aparente "normalidade" no meio de tanto caos. Tão implacável em seus relacionamentos quanto sua mãe, Barbara acaba servindo como um filtro daquela família, administrando os problemas de todos e realizando um balanço da sua própria vida. No segundo departamento, o nome é Margo Martindale, intérprete de Mattie Fae, irmã e grande "cúmplice" de Violet. Martindale já esteve em filmes como As Horas, Menina de Ouro e Os Últimos Passos de um Homem, mas, pela primeira vez, ganha um papel robusto no cinema. Ela está deliciosa nas diversas facetas que confere a uma mulher que tem um relacionamento difícil com seu único filho, "Little Charlie", interpretado por Benedict Cumberbatch. O terceiro elemento que merece a atenção do público nesse filme é Julianne Nicholson, intérprete de Ivy, a irmã Weston que ficou com o pai e a mãe em Osage County. Ivy é uma daquelas figuras doces e quietas, quase imperceptíveis, que existem em todas as famílias. Nicholson dá contornos suaves e sensíveis para a natureza serena e sufocada de Ivy Weston, talvez uma das maiores vítimas de uma família formada por mulheres de temperamento forte como Violet, Barbara ou Mattie Fae.
 
No entanto, listar somente esses como os destaques do elenco de Álbum de Família seria injusto, todos, repito, todos os atores  estão formidáveis em seus papeis e apresentam uma unicidade em cena que enche os nossos olhos: Chris Cooper, Juliette Lewis, Abigail Breslin, Benedict Cumberbatch, Ewan McGregor, Dermot Mulroney, Misty Upham, Sam Shepard. Provavelmente, sem esse elenco e sem a expertise de Tracy Letts, Álbum de Família passaria batido. O filme é sim um interessante retrato sobre os relacionamentos familiares, trazendo a maternidade não apenas com a imatura e superficial aura do divino ou do amor incondicional, mas também como uma relação que desperta a crueldade na medida em que as expectativas e a realidade na relação entre pais e filhos não são componentes harmônicos, mas, ainda assim, essa mensagem merecia uma roupagem digna da sua perspicácia. Em outras palavras, um diretor que trouxesse em seu olhar a mesma riqueza que seus atores e seu roteiro trouxeram ao filme não faria mal ao projeto, Álbum de Família certamente seria um longa melhor.

 
 
August: Osage County, 2013. Dir.: John Wells. Roteiro: Tracy Letts. Elenco: Meryl Streep, Julia Roberts, Ewan McGregor, Chris Cooper, Abigail Breslin, Benedict Cumberbatch, Juliette Lewis, Margo Martindale, Dermot Mulroney, Julianne Nicholson, Sam Shepard, Misty Upham. 121 min. Imagem Filmes.

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Chovendo Sapos: Crítica: Álbum de Família
Crítica: Álbum de Família
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