Crítica: Blue Jasmine


 Na extensa carreira de Woody Allen são raros os casos em que a obra em si é menos importante do que o desempenho de um ator. No caso de Blue Jasmine, o filme segue a linhagem do que de melhor o cineasta norte-americano sabe fazer, expor com refino intelectual e muita ironia a contraditória e problemática natureza humana. Contudo, neste trabalho, torna-se mais urgente discutir o desempenho espetacular da australiana Cate Blanchett, prestes a abocanhar seu segundo Oscar (ao menos, é o que as listas de apostas, ainda precoces, apontam). A questão é que não são raras as performances memoráveis em filmes de Woody Allen, o cineasta fornece um vasto e rico material de composição de personagens para qualquer ator. Mas são raros sim os exemplares da carreira de Allen que permitem a um ator, no caso, uma força da natureza como Cate Blanchett, ser maior do que as próprias linhas do seu roteiro, sempre cheios de insights.
 
Blue Jasmine tem início quando Jasmine (Blanchett) muda-se para a casa da irmã Ginger (Sally Hawkins) em São Francisco. Jasmine, cujo nome verdadeiro é Jeanette, acaba de sair de uma grande turbulência em sua vida: seu marido, Hal (Alec Baldwin), um especulador da bolsa de valores, foi preso por enriquecimento ilícito e simplesmente a deixa sem um tostão para sustentar sua vida de ostentações. Com Ginger, Jasmine, que se mantém de pé graças a comprimidos de Xanax e muito uísque, se depara com uma vida bem diferente da que levava em Nova York, mais simples, sem grandes confortos. A oportunidade de sair do "buraco" em que fora jogada surge quando ela conhece Dwight (Peter Sarsgaard), um diplomata viúvo à procura de uma decoradora para a sua nova casa.
 
Jasmine é o típico alter ego de Woody Allen. Sofisticada, neurótica e venenosa compulsiva, a protagonista do novo filme do diretor é "vítima" da bolha e do crash financeiro de 2008. Ainda que este contexto seja incluído nas linhas narrativas do filme, não é bem nesse universo que Allen deseja adentrar quando coloca os mundos de Jasmine e Ginger em colisão. Para o diretor, não há nada mais deprimente e patético do que a derrocada financeira, assim como o é para Jasmine. Com Blue Jasmine, Allen questiona o espectador se dinheiro não traz mesmo felicidade, ainda que de maneira torta, anestesiante e alienada como acontece com Jasmine. Ainda que falte ao filme a veemência e corrosividade alleniana - o diretor aqui se permite mais à observação passiva, sobretudo diante do desempenho arrasa quarteirão de Blanchett -, o filme mantém as qualidades dos melhores trabalhos do cineasta.
 
Sobre Blanchett, não há muito o que comentar. Ou melhor, há sim, afinal (esqueceram?) ela é quem dá tônus a Blue Jasmine. Com uma carreira composta mais de acertos do que erros, a australiana é um daqueles talentos natos das artes dramáticas. A voz grave e o olhar expressivo nos faz associar seu estilo ao trabalho de Bette Davis, que, com suas interpretações, não deixava pedra sobre pedra em qualquer projeto para o qual era escalada. Por estas características, ocasionalmente, Blanchett pode passar a sensação do over acted, mas não é o que acontece aqui. A atriz compõe Jasmine como uma mulher que parece se equilibrar na linha divisória entre a razão e a loucura, ou ainda, entre a dissimulação e a sinceridade. Jasmine é fascinada pelas roupas de grifes, viagens internacionais e pelos badalados eventos sociais. Quando perde tudo, substitui todos esses mimos entorpecentes por tranquilizantes, álcool e começa a demonstrar sinais de completo desequilíbrio. O contraponto a Jasmine é sua irmã Ginger, interpretada pela igualmente interessante Sally Hawkins, sempre muito boa, que se contenta com muito pouco para ser feliz, como um final de semana deitada no sofá com o namorado, compartilhando uma última fatia de pizza.
 
A verdade é que poucos cineastas conseguem ser tão sinceros assim com suas inquietações sobre a vida. Talvez Woody Allen consiga ser tão aberto assim quanto aos seus próprios sentimentos por expô-los através do humor, da ironia. Certeiro na escolha dos seus porta-vozes, em Blue Jasmine, o diretor encontra na composição de Cate Blanchett uma forma de abordar as relações que estabelecemos entre o estado de felicidade bruto e o prazer material. Ainda que falte um maior comprometimento acerca das conclusões para os problemas que ele mesmo tenta procurar solucionar com o filme, o diretor encontra salvação na sua atriz, que como poucas na sua carreira, conseguiu ficar à frente do criador da sua personagem, através de uma interpretação certamente definitiva em sua carreira. Woody Allen tem muitas musas: Scarlett Johansson, Mia Farrow, Dianne Wiest, Penélope Cruz... Mas em nenhuma destas relações criativas esteve tentado a deixar a sua obra nas mãos de uma delas como aconteceu com Cate Blanchett em Blue Jasmine.
 

 
 
Blue Jasmine, 2013. Dir.: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen. Elenco: Cate Blanchett, Alec Baldwin, Sally Hawkins, Peter Sarsgaard, Andrew Dice Clay, Bobby Cannavale, Michael Stuhlbarg, Alden Ehrenreich, Louis C.K., Tammy Banchard. 98 min. Imagem Filmes.

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Chovendo Sapos: Crítica: Blue Jasmine
Crítica: Blue Jasmine
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