Crítica: Dentro da Casa

François Ozon investiga a inconfessa curiosidade humana pela vida alheia em seu novo filme e, consequentemente, faz um estudo sobre a natureza do seu ofício
 

Em Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, Jeff, personagem de James Stewart, é obrigado a ficar alguns dias em casa, "de molho", após um acidente que o deixa imobilizado por um gesso na perna. O ócio e a rotina doméstica entediante são desculpas para o personagem passar a se interessar mais pelos eventos que acontecem nas janelas de seus vizinhos, investigados por Jeff através de um binóculo. A curiosidade pela vida ou por histórias criadas com base nessas observações contagiam suas constantes companhias, a namorada Lisa, personagem de Grace Kelly, e a enfermeira Stella, Thelma Ritter. Não é o ócio que desperta o interesse pela vida dos outros e, consequentemente, pela ficção, mas a angústia sufocante e tediosa de ser o protagonista miserável e cheio de falhas das nossas próprias vidas.
 
A mesma motivação que faz o personagem de James Stewart em Janela Indiscreta se interessar pela rotina de seus vizinhos é a que impulsiona os dois protagonistas de Dentro da Casa, mais recente filme do realizador francês François Ozon. Germain é um professor de francês que já chega das férias vislumbrando o desinteresse de seus alunos pela matéria e a mediocridade do que eles irão produzir ao longo  do curso. No entanto, na primeira avaliação, é surpreendido pela redação de um talentoso estudante. Ele relata, de maneira envolvente, como um maduro romancista que Germain nunca conseguiu ser, sua visita a casa de um amigo e seu interesse pela matriarca dessa família. Instigado pela perspectiva do jovem sobre essa família e pelo desenrolar dessa dinâmica com um intruso com grande potencial de desestabilizar a harmonia aparente, Germain incentiva o garoto a estreitar os laços com os habitantes daquela casa. O interesse de Germain pela escrita do jovem Claude passa a ser perigoso não só para o relacionamento do professor com sua esposa, que também passa a ter interesse nas redações do menino mas vê seu casamento ser deixado em segundo plano pela maneira com que o marido se vê inebriado por aquela trama, como também para Claude, que julga ter um lugar naquela família maior do que o que ele realmente ocupa.


Dentro de Casa é o filme mais envolvente da carreira de François Ozon, aplicando com propriedade todos os recursos possíveis da linguagem cinematográfica em prol de uma narrativa envolvente e estimulante. O longa proporciona dúbias perspectivas sobre os eventos - a de Germain e de Claude -  e testa a capacidade dedutiva e interpretativa do espectador sobre a trama, tornando-nos um terceiro elemento, tão obcecado por aquela história quanto seus dois protagonistas-espectadores. Assim, Ozon comprova a tese levantada pelo trabalho: não há indivíduo imune à curiosidade pela vida alheia, até porque não há indivíduo que suporte as pressões da sua própria vida, do real. Para isso precisamos de ficção, ainda que ela seja impulsionada pelo real. O real é a inspiração, o que fazemos com ele é ficção, o que alguém como Claude faz. Todos os eventos se passam na cabeça de quem narra, trata-se da perspectiva do narrador, inebriado por suas próprias suposições/ criação sobre a vida de outrem, que pode, inclusive, ser ele mesmo, o que não vai deixar de ser uma criação descolada da realidade. O narrador cria para si uma persona que, invariavelmente, foge de quem ele é de fato.
 
Assim, Claude se insere no convívio familiar dos Artole e cria para si um romance com Esther, mãe do seu novo amigo. Os dramas e segredos daquela família e sua inserção como elemento intruso nela é mais estimulante que sua rotina desgastante com seu pai, fisicamente debilitado. O mesmo pode ser dito de Germain, ocupando o lugar do leitor, inebriado pela narrativa de Claude para evitar olhar para o desgaste do seu próprio casamento. Ambos precisam daquele universo paralelo para conseguir conviver ou esquecer o universo palpável. E não seria o mesmo conosco e nossa relação com a ficção, seja através da literatura, cinema, música, teatro, televisão?

Há problematizações pontuais ao longo do filme, como quando Germain começa a aparecer como uma espécie de consciência na mise em scène que traz como sujeitos Claude e os Artole, uma forma de mostrar como a necessidade de atender a anseios do público pode ser prejudicial a uma narrativa, fazendo com que seus personagens fujam por completo do eixo e das pretensões do narrador. O longa também procura refletir sobre a utilização da ficção como elemento de fuga descontrolada e inebriante, tirando daqueles que têm contato direto com ela, o autor e o leitor, por exemplo, o distanciamento entre o real e o que é imaginado. Uma situação limite que flerta com a loucura.


Adaptado da peça do espanhol Juan Mayorga, Dentro da Casa tem um roteiro primoroso e qualidades igualmente perceptíveis em outros departamentos, uma montagem fluida que acompanha a narrativa e que se harmoniza com a proposta do cineasta e uma trilha sonora impecável na proporção em que dimensiona as ansiedades dos dois protagonistas da trama. Os dois desempenhos dos atores centrais são igualmente interessantes. Fabrice Luchini consegue evitar que o tédio de Germain pela sua vida e o fascínio que ele passa a ter por Claude o transformem em um personagem deplorável e Ernst Umhauer traz para Claude a jovialidade, inexperiência e curiosidade necessárias a um jovem escritor e explorador. Há momentos pontualmente interessantes de Kristin Scott Thomas, que interpreta a mulher de Germain, e Emmanuelle Seigner, como a musa de Claude, Esther, tão bela aqui quanto em seus tempos de Lua de Fel.
 
Pela riqueza e elegância na exploração do tema, Dentro da Casa é um trabalho incomparável na carreira de François Ozon. Trata-se de um dos seus filmes mais bem construídos e engajados com a linguagem cinematográfica, fruto do amadurecimento de um realizador que soube tratar com objetividade e contundência uma narrativa sobre seu próprio ofício, no final das contas.

 
 
Dans la Maison, 2012. Dir.: François Ozon. Roteiro: François Ozon. Elenco: Fabrici Luchini, Ernst Umhauer, Kristin Scott Thomas, Emmanuelle Seigner, Denis Ménochet, Bastien Ughetto, Jean-François Balmer, Yolande Moreau, Catherine Davenier. 105 min. Califórnia Filmes.
 

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Chovendo Sapos: Crítica: Dentro da Casa
Crítica: Dentro da Casa
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