Crítica: Branca de Neve

Longa espanhol mudo insere a história dos irmãos Grimm no universo das touradas de Sevilha no final da década de 1920. O resultado é um primor.
 
 
Frutos da nova tendência hollywoodiana pelos contos de fadas, as duas adaptações do conto Branca de Neve e os Sete Anões dos irmãos Grimm, Espelho, Espelho Meu e Branca de Neve e o Caçador, foram realizações visuais interessantes mas que deixaram muito a desejar no quesito narrativo, sobretudo o segundo, que se perdia em sua pretensa proposta original de transformar o conto de fadas em um épico medieval. Mas Branca de Neve, ou Blancanieves no original, do espanhol Pablo Berger, é outro "naipe", não pela sua nacionalidade (já perdi as contas de quantas vezes levantei a bandeira por aqui: filmes não devem ser julgados pela sua nacionalidade, panelinha cult!), mas pelo êxito em sua condução e por conseguir cumprir as metas da proposta que traçou para si.
 
Berger quis ambientar sua versão de Branca de Neve no universo das touradas de Sevilha, durante a passagem da década de 1920 para 1930, tornando o filme um autêntico exemplar do cinema mudo. Branca de Neve inicia sua trama com o grave acidente sofrido pelo famoso toureiro Antônio Villalta durante uma de suas apresentações. Villalta perde os movimentos do corpo e sua esposa, a dançarina de flamenco, Carmen de Triana, que acompanhou seu marido ser pisoteado e atingido pelos chifres do touro, acaba falecendo no parto da filha do casal. Manipulado pela bela enfermeira Encarna, com quem acaba se casando, Villalta não vê a sua filha crescer. O toureiro conhece a menina anos mais tarde quando ela é transformada em empregada por Encarna. Após a morte de Villalta, Encarna providencia o sumiço de Carmenzita, resgatada por um grupo de anões que se apresentam como toureiros pelo interior da Espanha. O paradeiro da herdeira de Villalta vem a tona quando a menina passa a se apresentar junto com seus novos amigos como toureira cujo nome é inspirado no conto dos irmãos Grimm, Branca de Neve. Mas claro que Encarna não deixará que as origens de Branca de Neve venham a tona.

 
 Berger confere o mesmo tom de fábula do conhecido conto, mas torna-o mais melancólico com um desfecho mais triste e "realista", mas inegavelmente belo, beirando o poético. Semelhante ao que aconteceu com Michel Hazanavicius em O Artista, Pablo Berger se apropria da gramática cinematográfica do cinema mudo e recria um universo particular, com uma excepcional fotografia, que sabe aproveitar a ausência de cores para criar planos interessantes apoiados em uma direção de arte e figurinos conscientes dessa condição peculiar para os nossos tempos. Branca de Neve detém uma lógica própria de desenvolvimento, ao mesmo tempo em que consegue ser pontual nas referências ao conto.
 
O diretor ainda arranca interpretações notáveis do seu elenco. A menina Sofía Oria e a jovem Macarena García se dividem no papel da protagonista com muita graciosidade e inteligência, na medida em que ambas têm noção de que dispõem apenas de suas expressões corporais e faciais para dar vida a suas personagens. Maribel Verdú também triunfa como a vilã Encarna, a madrasta da Branca de Neve, uma megera composta com maniqueísmo na medida certa. No entanto, encantador mesmo é o desempenho de Sergio Dorado na pele do anão Rafita, que se apaixona perdidamente por Branca de Neve, a versão do príncipe de Pablo Berger (uma das melhores "sacadas" da adaptação). Dorado constroi um personagem cheio de ternura e honestidade que faz de sua relação com a protagonista a mais doce e triste de todo o filme.
 
 
Branca de Neve mostra como os contos de fadas deveriam ser transpostos para o cinema, com criatividade e muita paixão. Enquanto seus contemporâneos norte-americanos são pálidos e amorfos - mais o Branca de Neve e o Caçador, é verdade, já que Espelho, Espelho Meu ainda guarda uma personalidade, apesar de se perder nela mesma no terceiro ato do filme -, Branca de Neve de Pablo Berger é uma recriação que prima pela inteligência, sensibilidade e pela assinatura do um realizador. Faz jus a uma história que, se for encarada do jeito que é encarada aqui, jamais será vítima de desgaste.
 
 

Blancanieves, 2012. Dir.: Pablo Berger. Roteiro: Pablo Berger. Elenco: Maribel Verdú, Macarena Garcia, Daniel Giménez Cacho, Sofía Oria, Ángela Molina, Pere Ponce, Sergio Dorado, Ramón Barea, Inma Cuesta, Emilio Gavira, Itziar Castro. 104 min. Imovision.

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Chovendo Sapos: Crítica: Branca de Neve
Crítica: Branca de Neve
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