Behind the Candelabra

Telefilme da HBO eleva a qualidade, já satisfatória, da derradeira safra de Steven Soderbergh. Michael Douglas tem sua grande atuação em anos, mas é Matt Damon quem dá o tom ao projeto.
 
 
Existe uma razão oficial para Steven Soderbergh, um dos cineastas norte-americanos mais importantes de sua geração, sair de cena em um momento tão interessante de sua carreira. Todos sabem, Soderbergh cansou de dirigir e quer se dedicar às artes plásticas. No entanto, após Behind the Candelabra tenho desconfianças de que a origem dessa decisão esteja lá atrás. Por alguns anos, Soderbergh tentou levar para as telas O Homem que Mudou o Jogo, filme sobre o universo do beisebol com Brad Pitt no elenco. Por divergências criativas com a Paramount e pelas dificuldades financeiras de levar o filme que queria adiante, seu projeto acabou não vingando e outro diretor, Benett Miller, de Capote, assumiu a direção. Seus projetos posteriores eram filmes que carregavam as marcas de Soderbergh como realizador, mas inegavelmente eram longas comercialmente palatáveis (mais uma vez, não há mal nenhum nisso): ContágioA Toda Prova, Magic Mike e Terapia de Risco.
 
Era o que ele conseguia fazer naquele momento no sistema de financiamento e distribuição que encontrava a sua disposição. Behind the Candelabra, por sua vez, representa o ponto máximo dessa fase, um projeto muito mais ambicioso e inflamável que os quatro anterioremente citados juntos, muito mais "perigoso" e que, curiosamente, só encontrou guarida na rede de canais a cabo HBO. Resultado: o telefilme é um dos melhores trabalhos da carreira do diretor em anos. Contudo, como apaixonado confesso pelo cinema, não há como lamentar que não tenha sido abraçado por produtores com uma visão mais apurada da sétima arte, pois ganharia dimensões e repercussões muito mais interessantes, dimensionando corretamente o caráter desse filme, um dos mais emocionantes na carreira de um cineasta conhecido por priorizar a racionalidade e manter uma relação fria e distante com a sua própria criação, mesmo em projetos propícios às lágrimas como Erin Brokovitch. Aqui não, Soderbergh abraça-os, entende as dores e as personalidades cambiantes, humanamente contraditórias de seus personagens, e ainda contextualiza sua trama com um dos períodos mais emblemáticos da sociedade norte-americana: o momento em que homossexuais não assumidos começaram a compulsoriamente "sair do armário" em virtude da crescente divulgação dos casos de Aids no país. Claro que essa passagem não é aprofundada, até porque Soderbergh não pretende fazer um tratado social a esse respeito, seu interesse maior é na relação entre seus personagens, mas é emocionante ver diante de si tamanha consciência e conjugação de elementos bem aplicados em prol da narrativa como acontece em Behind the Candelabra.
 

Behind the Candelabra conta o romance "secreto" entre Walter Liberace, o showman de Las Vegas nas décadas de 1970 e 1980, e seu pupilo, o jovem aspirante a veterinário transformado em assistente pessoal e de palco do artista, Scott Thorson. Os dois viviam como um casal, mas o teor daquela relação não chegava ao público pelos veículos de comunicação pois Liberace não queria ser associado a sua óbvia condição sexual. A não publicização dessa relação e a obsessão de Liberace pela juventude levaram a união a uma crise que culminou no abandono emocional e financeiro de Thorson. O casal acabou se envolvendo, anos mais tarde, em uma disputa por bens que terminou de forma amigável, mas extremamente desfavorável a Thorson, completamente desamparado pela lei, já que sua relação com Liberace era inclassificável pelo arcabouço jurídico vigente.

Soderbergh propõe desvendar o que existia por trás das excentricidades de Liberace através de sua relação com Thorson e descobre um  homem "em paz" com a sua sexualidade , até mais bem resolvido que o parceiro, mas que por ser uma figura midiática evitava assumir sua união por razões profissionais. Em uma de suas falas nos bastidores do Oscar em que se apresentou, Liberace diz que a sua função na vida das pessoas é entreter e que não vê sentido em artistas que levantam bandeiras de causas sociais, como o fez Jane Fonda, por exemplo, evidenciando pontualmente sua perspectiva. No entanto, em diversos momentos, sobretudo por nutrir secretamente uma espécie de culpa cristã, põe-se em dúvida se é um discurso que o artista busca para justificar suas atitudes ou se esse pensamento é o que permeou suas decisões ao longo da carreira. Assim, Soderbergh é cuidadoso no tratamento da vida do seu biografado, sem fugir do retrato das suas próprias contradições, equilíbrio que poucas vezes é obtido por cineastas em sua posição.
 
Liberace também era fascinado pela juventude, se submetia a intervenções cirúrgicas e impôs esses procedimentos a seus parceiros para que nunca "enjoasse" deles ao perceber o decurso do tempo em suas feições. Thorson era prova viva disso, um rapaz inseguro, sem referenciais desde a infância, que se encanta pelo universo de possibilidades que Liberace lhe proporciona e que se submete a qualquer capricho do seu parceiro para não perde-lo, uma carência emocional e financeira. Com o tempo, Thorson acaba desenvolvendo um amor pelo seu companheiro, um sentimento que não consegue se harmonizar com a maneira objetiva e primordialmente sexual com que Liberace encarava um relacionamento. Todo esse caldeirão de tensões é administrado com primor por Soderbergh que opta por concentrar boa parte de sua mise-en-scène entre quatro paredes, a vida íntima de um casal que sempre priorizou mantê-la íntima, algo que me lembrou o projeto revelação do diretor, Sexo, Mentiras e Videotape em determinada instância.


Soderbergh e seu roteirista Richard LaGravenese deixam claro que a instabilidade emocional dos seus personagens está claramente vinculadas à tensão entre seus anseios amorosos e as expectativas e preconceitos da sociedade da época. Há até uma menção (discreta e brilhantemente inserida no filme) sobre o caso de Rock Hudson, um dos maiores atores da época de ouro do cinema que revelou sua homossexualidade quando veio os tabloides noticiaram que ele portava o vírus do HIV. Nos início dos anos 1980, a manutenção do latente preconceito e silêncio sobre a homossexualidade levou o grupo a uma instantânea marginalização. Os primeiros casos de Aids divulgados envolviam homossexuais (na verdade, critérios de noticiabilidade pautados no preconceito já inseridos na sociedade pois heterossexuais também eram contaminados), muitos deles, como Liberace, se arriscavam em suas fantasias sexuais em clubes secretos que não expusessem sua identidade e sua imagem ao crivo social. Assim, essa preferência pelo risco em detrimento da livre expressão sexual, ou seja vivenciar relações abertas sem receio de julgamentos de terceiros, fez surgir um problema ainda mais grave para o grupo: se o preconceito já era difícil quando todos, a exemplo de Liberace e Rock Hudson, se "escondiam no armário", tudo piorou quando alguns assumiram sua condição sexual em meio a proliferação dos casos de Aids. Um momento crítico e emblemático, mas necessário para que cheguemos a maneira com que o tema é tratado hoje: a compreensão maior sobre a homossexualidade, ainda que essa compreensão maior não signifique aceitação maior ou diminuição do preconceito.

Tudo isso é necessário dizer para dimensionar o nível de profissionalismo de Soderbergh no aprofundamento do tema proposto e do contexto que o cerca, sem mencionar o tratamento maduro na composição de seus personagens. Behind the Candelabra conta com a performance irretocável de Michael Douglas como o controverso Liberace. O ator é preciso no retrato do personagem, a ponto de assimilar entonações e maneirismos gestuais do showman com uma versossimilhança espantosa. Há anos não se via um trabalho tão interessante de Douglas, que parecia sempre surgir no piloto automático em cena (talvez reflexo do desestímulo causado pelos projetos que lhe apareciam). No entanto, Behind the Candelabra ganha nitidamente outros contornos - e talvez seja dai que Soderbergh tenha conseguido tornar esse projeto o mais emocional da sua carreira - com a evolução visível de Matt Damon como ator. Conhecido por ser uma figura simpática, engajada e vinculada a escolhas acertadas em sua carreira, poucas vezes Damon mergulhou tanto nos meandros de um personagem como aqui. Damon percorre com maestria as variações emocionais e o crescimento do personagem na linha de tempo do filme, desde a sua insegurança com a própria identidade no início, passando pelo descontrole emocional diante da constatação de um sentimento por Liberace e da possibilidade de perdê-lo, até a sua maturidade, quando consegue deixar de lado as mágoas, compreender as decisões tomadas por seu antigo parceiro e admirá-lo.
 
Já escrevi em outras oportunidades, precisamente Magic Mike e Terapia de Risco, que Steven Soderbergh, nos pretensos últimos filmes da sua carreira, parece ter encontrado o equilíbrio entre o entretenimento e suas marcas autorais, algo que lhe faltava em projetos como as continuações de Onze Homens e um Segredo e Confissões de uma Garota de Programa. O cineasta sempre se inclinava para um lado e equivocadamente não o assumia (o caso de Onze Homens e seus derivados) ou então era pretensioso demais em seus propósitos (Confissões de uma Garota de Programa). Behind the Candelabra representa o amadurecimento de um realizador que deixou de se dar rótulos e de dar rótulos aos seus filmes e esteve mais preocupado em deixar que sua própria criação o guiasse na concepção de um trabalho ímpar em sua carreira. Mais uma vez, e agora com mais certeza dessas palavras e das consequentes avaliações, escrevo: uma pena que Soderbergh saia de cena em um momento tão interessante. De qualquer forma, sai em grande estilo.

 
 
Behind the Candelabra, 2013. Dir.: Steven Soderbergh. Roteiro: Richard LaGravenese. Elenco: Michael Douglas, Matt Damon, Debbie Reynolds, Dan Aykroyd, Rob Lowe, Scott Bakula, Garrett M. Brown, Jane Morris, Cheyenne Jackson, Paul Reiser. 118 min. Em breve na HBO.
 

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Chovendo Sapos: Behind the Candelabra
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