Década perdida

Kathryn Bigelow aposta na tensão discreta de A Hora mais Escura para narrar a busca obsessiva de uma agente da CIA pela cabeça de Osama Bin Laden



A Hora mais Escura poderia ser o longa mais desinteressante da lista de indicados ao Oscar 2013. O novo filme de Kathryn Bigelow, assim como seu anterior Guerra ao Terror, trata das consequências do 11 de setembro, acompanhando a caçada de uma agente da CIA a Osama Bin Laden, uma busca que levou praticamente uma década. Com um final que é de conhecimento de todos, a captura e morte do alvo norte-americano, e um tema que encontra facilmente similares na recente filmografia dos EUA, Bigelow poderia se afogar em um mar de obviedades em A Hora mais Escura. No entanto, a primeira diretora a conquistar uma estatueta do Oscar de melhor direção tem seu maior êxito neste filme na medida em que torna interessante todo o percurso que leva ao conhecido desfecho dessa história e ainda nos proporciona uma interessante e coesa reflexão sobre esses dez anos de guerra ao terror. Possivelmente, o melhor trabalho de sua carreira.

Bigelow e seu habitual parceiro, o roteirista Mark Boal, trazem um emaranhado de informações e pistas a serem desvendadas pela protagonista do filme, Maya. Todas elas são condensadas e expostas ao espectador como um grande quebra-cabeças. Como de praxe, Bigelow opta por uma abordagem realista e que pouco flerta com didatismos ou floreios hollywoodianos. E a diretora aqui demonstra uma de suas maiores qualidades, curiosamente algo que é dissociado do universo feminino no cinema: a racionalidade. Semelhante a diretores como David Fincher e Christopher Nolan, Bigelow parece tender a temas e abordagens mais objetivas e documentais. No entanto, o fator diferenciador e, digamos, subversivo de A Hora mais Escura reside em sua protagonista, que não é defendida com alarde ou protegida sob qualquer pretensão feminista pela diretora. Maya é uma mulher jogada aos leões e que tem que aprender a se impor em um universo predominantemente masculinizado, dai sua imersão exagerada na missão.

Para isso, a realizadora conta com o desempenho discreto e preciso de Jessica Chastain, que mais uma vez se firma como um dos nomes mais promissores de sua geração. A atriz compõe com obstinação, paranoia e frieza uma personagem que, em sua própria definição, "não é a garota que transa com o mocinho da história". Desde o início, onde demonstra todo o esforço de Maya em aceitar como natural as sessões de tortura, passando pela frieza com que recebe e assimila a morte da única pessoa com quem conseguiu manter um elo de amizade nos dez anos da missão, até o final catarse, Chastain está brilhante na composição de um processo natural de racionalização e endurecimento de uma personagem que utiliza essas características como auto-proteção. Ao lado de Chastain, há ótimos atores, todos eles em momentos igualmente pontuais e fundamentais para o filme, como Jason Clarke, o torturador disposto a ter uma vida burocrática, e Jennifer Ehle, confidente de Maya que diverge em determinados pontos da protagonista.

Assim como o piloto que pergunta a Maya no desfecho do filme qual seria seu destino agora que sua missão foi cumprida e a mesma paralisa e cai em pranto catártico, os próximos passos da política internacional norte-americana, sobretudo quando o assunto é o terrorismo, continuam em suspenso. O que fazer a seguir? Capturar e assassinar Bin Laden realmente corta o mal pela raiz? E toda a herança deixada por ele? O alvo era mesmo um homem ? A Hora mais Escura não faz apologia à tortura como destacam os sensacionalistas, trata-se de mais um trabalho dedicado de campo da dupla Mark Boal e Kathryn Bigelow, que se distanciaram de qualquer julgamento antecipado sobre os fatos (deixaram todos eles nas mãos do espectador, o que é, infelizmente, cada vez mais raro hoje em dia), em busca de reflexões sobre a atual e emblemática situação dos EUA, na qual cabem mais dúvidas que respostas prontas.




Zero Dark Thirty, 2012. Dir.: Kathryn Bigelow. Roteiro: Mark Boal. Elenco: Jessica Chastain, Jason Clarke, Jennifer Ehle, Kyle Chandler, James Gandolfini, Joel Edgerton, Chris Pratt, Mark Strong, Édgar Ramírez, Reda Kateb, Harold Perrineau. 157 min. Imagem Filmes.

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Chovendo Sapos: Década perdida
Década perdida
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