Spaghetti requentado

Quentin Tarantino peca pelo excesso de referências a sua própria filmografia em Django Livre, filme ambientado nos EUA escravagista


Chega a hora em que grandes cineastas acabam preenchendo seus invejáveis currículos cinematográficos com pequenas decepções. Esta é a vez de Quentin Tarantino com Django Livre. Não que seu mais recente filme seja um completo desastre, mas está bem atrás de uma extensa e marcante filmografia que inclui títulos como Pulp Fiction e Bastardos Inglórios. Django Livre parece se perder em meio às obrigações que Tarantino se auto-delega no que diz respeito a suas marcas como cineasta. Em certo momento a originalidade dos diálogos e a condução de Tarantino, comparado a outros de seus filmes, se torna óbvia. Assim, sabemos exatamente o momento em que um personagem será surpreendido e sumariamente assassinado em uma emboscada, ou seja da maneira mais embaraçosa e constrangedora possível, por exemplo.

Excessivamente extenso, Django Livre acompanha a trajetória de Django, personagem título vivido por Jamie Foxx. O ponto de partida é o momento em que ele é libertado por um "caçador de recompensas" que já foi dentista, um alemão interpretado afiadamente por Christoph Waltz. Os dois acabam criando um vínculo de amizade forte e o personagem de Waltz decide ajudar Django a resgatar sua esposa das mãos de um perigoso e arrogante fazendeiro do Mississippi, vivido por Leonardo DiCaprio, em momento não tão inspirado assim, ainda que correto.


Se a estrutura do roteiro de Tarantino sempre pareceu fluida em trabalhos anteriores, ainda que se estendesse em diálogos e sequências (o que sempre dá um atrativo a mais para os seus longas, já que proporciona uma dinâmica interessante para a narrativa), aqui se alonga em um desnecessário terceiro ato que só serve para saciar o prazer de ver mais sangue nas telas. E aqui poderiam me perguntar: mas isso não é um filme de Tarantino? Os litros e mais litros de sangue espalhados durante a projeção não deveriam ser celebrados? Sim, desde que funcionem e sirvam para o andamento da narrativa, como sempre aconteceu em seus trabalhos e nos dois primeiros atos deste aqui, e não para satisfazer o sadismo dos fãs. 

No entanto, há que se ressaltar a excelência dos dois primeiros atos, muito bem escritos e conduzidos pelo diretor. Ele segue à risca os propósitos da sua pretensa trilogia ao recontar episódios vergonhosos na história da humanidade pelo ponto de vista dos oprimidos, oferecendo-lhes uma espécie de vingança (em Bastardos Inglórios foi o nazismo, aqui o tema, óbvio, é a escravidão na América). A construção dos personagens, como de praxe, é de tirar o chapéu, assim como a funcionalidade dos mesmos para os propósitos do próprio Tarantino no filme.


Jamie Foxx está muito bem como o herói da fita, mas a grande performance do filme é de Christoph Waltz, interessantíssimo como o alemão que distoa da crueldade dos EUA escravagista, pouco compreendendo a maneira com que os senhores tratavam seus escravos na época. Há também uma excelente participação de Samuel L. Jackson como o criado do personagem de Leonardo DiCaprio. Ele vive um homem extremamente racista e  cruel com os negros da casa, uma contradição cheia de ironia. Os dois protagonizam os melhores diálogos do filme. E já que falamos de DiCaprio seu desempenho não prejudica o filme, já que ele evita qualquer canastrice (armadilha fácil em se tratando de um vilão), mas está bem aquém do que o ator realmente pode oferecer. DiCaprio parece ter tido preguiça em tornar seu personagem mais interessante do que ele realmente é, oferecer mais camadas ao papel.

Assim, Quentin Tarantino entrega um trabalho que oscila entre momentos interessantes e outros pálidos que afastam qualquer possibilidade de Django Livre se igualar aos seus filmes anteriores. O longa presta reverência ao gênero que o cineasta tanto ama, o western, talvez algo que tenha demorado demais para acontecer e que infelizmente já  tenha sido pincelado pelo diretor em seus outros longas. Dessas camadas de referências surgem as inevitáveis sensações de déjà vu, ainda que secretamente adoremos cada um desses momentos proporcionados por Django Livre.



Django Unchained, 2012. Dir.: Quentin Tarantino. Roteiro: Quentin Tarantino. Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, Samuel L. Jackson, Walton Goggins, Dennis Christopher, James Remar, David Steen, Dana Michelle Gourrier, Laura Cayouette, Nichole Galicia. 165 min. Sony.

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Agenda,9,Checklist,6,Cinco Atos,1,Crítica,83,DVD & Blu-Ray,5,Editorial,2,Entrevista,1,Extras,5,Listão,13,Matéria Especial,4,Prévia,37,Radar Crítico,18,Rewind,3,TV & Streaming,17,Vilões que Amamos Odiar,1,
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Chovendo Sapos: Spaghetti requentado
Spaghetti requentado
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