Veneza, Telluride e Toronto aquecem os motores para a temporada de prêmios

Argo e The Master saem na frente  na disputa por estatuetas com ótimas recepções nos festivais


Quem acompanha o calendário cinematográfico norte-americano sabe que os primeiros candidatos ao Oscar começam a pipocar no circuito no segundo semestre. Claro que já vislumbramos indicados em potencial desde o primeiro semestre de 2012 - Moonrise Kingdom e The Sessions estão entre eles, por exemplo -, mas a disputa começa a mostrar suas tendências mesmo na segunda metade do ano. Os festivais de Veneza, Toronto e Telluride são os melhores termômetros da disputa. Os produtores se abocanham para conseguir um espaço nas seleções dos três eventos, esperando visibilidade e criando estratégias para marcarem suas principais apostas na lembrança e no interesse de futuros votantes do Oscar, Globo de Ouro... Afinal, sempre importante lembrar, prêmios são importantes para aquecer a indústria, dar oportunidade e visibilidade a talentos, além de dar destaque à cena autoral norte-americana.

O primeiro candidato seríssimo a estatuetas é The Master, novo longa de Paul Thomas Anderson (Sangue Negro - não Cisne- e Magnólia). Apesar do desgosto da imprensa com o comportamento de Joaquin Phoenix, seu protagonista, no Festival de Veneza, o filme foi aclamado no evento e recebeu dois importantes prêmios, o de direção para Anderson e a Copa Volpi de melhor interpretação masculina, dividida entre Phoenix e Philip Seymour Hoffman. Não levou o prêmio principal - o melhor filme segundo o júri do festival foi Pietá, do sul-coreano Kim Ki-Kuk -, mas o que se especula é que ele levaria o prêmio e na hora da decisão o júri teve que tirar um dos prêmios do filme já que nenhum longa pode figurar em mais de duas categorias no resultado do festival. O filme traz uma complicada história pós-guerra protagonizada  por um homem em recuperação que encontra a redenção na relação que passa a manter com o líder de uma nova seita religiosa. The Master tem claras referências à cientologia, religião que costuma chamar atenção por sua influência na vida de atores como John Travolta e Tom Cruise (que já trabalhou com Anderson em Magnólia e, segundo o diretor, já assistiu a The Master e não fez objeções, apesar de não ter comprado muito a ideia do filme). Anderson já disse à imprensa que seu filme é na verdade um estudo sobre o culto a personalidades e a religião, de uma forma geral. De todo modo, dizem que é um dos trabalhos mais complicados do diretor, especialmente pela relação entre o personagem de Joaquin Phoenix (naquela que dizem ser a interpretação de sua carreira) e Philip Seymour Hoffman, que vai além da pura idolatria. Até o momento, The Master é o candidato a ser superado em categorias como melhor filme e direção e o favorito a prêmios de melhor ator para Phoenix - que sabe-se Deus como reagirá em possíveis discursos de vitórias, já que em Veneza foi evasivo com jornalistas e evitou qualquer tipo de badalação. A estreia do filme no Brasil está agendada para janeiro de 2013, mas pode ser modificada estrategicamente pela distribuidora em função de indicações ao Oscar.


Argo, novo longa de Ben Affleck, foi o filme que rivalizou com The Master as atenções da imprensa nesses primeiros meses da temporada. Exibido no pequeno, porém relevante, Festival de Telluride, o filme é um policial que, segundo a crítica, parece seguir a crescente qualidade das incursões do ator atrás das câmeras (Medo da Verdade e Atração Perigosa) , podendo ser a primeira e merecida indicação de Affleck na categoria melhor direção de muitas premiações. O longa se passa na revolução iraniana da década de 1970 e segue ma missão para resgatar soldados americanos sequestrados no país. Para salvar os soldados, que conseguem escapar do cativeiro e se abrigam na embaixada canadense, um especialista da CIA, vivido pelo próprio Affleck, toma a frente da situação. O trabalho do elenco foi elogiado, uma característica dos filmes de Affleck (não ter uma interpretação específica que chame a atenção, mas ser um trabalho de elenco), tornando-o sério candidato ao SAG, prêmio do sindicato dos atores, na categoria melhor elenco, apesar de nenhum de seus filmes ter sido indicado ao prêmio. No entanto, como aconteceu em Medo da Verdade com Amy Ryan e em Atração Perigosa com Jeremy Renner, Argo promete render uma indicação na categoria coadjuvante para Alan Arkin, vencedor do Oscar por Pequena Miss Sunshine. O filme promete chegar no Brasil ainda esse ano, em novembro.


Sempre aguardado - e sempre ausente -, Terrence Malick vem esse ano com To the Wonder. Romance que também traz como protagonista Ben Affleck, vivendo um homem em conflito com seu casamento e que reencontra em um amor de infância e na religião novas formas de reescrever sua própria vida. O longa, como de praxe na filmografia do cineasta, teve as participações de atores como Rachel Weisz, Michael Sheen e Jessica Chastain cortadas. No entanto, além de Affleck, o filme tem Rachel McAdams (o amor de infância do protagonista), Javier Bardem (o religioso) e Olga Kurylenko (esposa). As reações a To the Wonder seguiram a tradição dos filmes do Malick, muita gente gostou e muita gente odiou por características intrínsecas na filmografia do diretor, o tom contemplativo e a valorização do silêncio, entre elas. Assim, não dá para ter nenhuma conclusão sobre as chances desse filme na temporada. Uma das poucas certezas é que Emmanuel Lubezki, colaborador de Malick em A Árvore da Vida e Um Novo Mundo é uma das opções na categoria fotografia em muitos prêmios. Ainda não há previsão para a chegada de To the Wonder no Brasil.


Longa que não anda agradando mesmo é Hyde Park on Hudson , de Roger Michell (Vênus e Uma Manhã Gloriosa). O romance entre o presidente Roosevelt e sua prima distante, Margaret Suckley, papeis de Bill Murray e Laura Linney, contado na semana em que o rei e a rainha da Inglaterra visitam os EUA, não agradou os presentes na sessão do filme no Festival de Telluride. A performance de Laura Linney,que prometia ser uma das grandes apostas da temporada ao prêmio de melhor atriz, não chamou tanta atenção assim. Bill Murray e a inglesa Olivia Williams conseguiram mais elogios, mas ainda assim pode ser complicado para ambos sobressaírem em meio a uma temporada disputada nas categorias de melhor ator e melhor atriz coadjuvante. O filme ainda será exibido no Festival de Toronto e estreará em circuito comercial no início de dezembro nos EUA, portanto é aguardar. O longa estava previsto para chegar em outubro no Brasil, contudo, a pouca expressividade e as reações mornas podem acabar adiando sua estreia por aqui para depois das estreias dos filmes indicados ao Oscar em nosso circuito. Prevejo uma estreia para maio, junho ou agosto de 2013 em nosso país, sendo otimista. Mas vamos esperar um pouco mais e ver como outros públicos reagem.


Uma característica interessante de 2012 poderá ser o grande número de candidatos estrangeiros (meaning: produções não americanas) presentes na lista das principais premiações. Um ano aparentemente inexpressivo de candidatos norte-americanos traz três longas exibidos no Festival de Cannes, ocorrido em maio passado, para a pauta. O primeiro deles é o neo-zeolandês Beasts of the Southern Wild, de Ben Zeitlin. O filme traz a história de uma garota de seis anos que vive em uma comunidade isolada e que corre o risco de ficar orfã já que seu pai está gravemente doente. A partir daí o longa assume um caráter inventivo e a menina começa a enfrentar fenômenos naturais e criaturas pré-históricas em sua jornada para encontrar sua mãe desaparecida e reestruturar sua família. A interpretação da menina Quvenzhané Wallis foi um dos trabalhos mais elogiados do ano, talvez uma das poucas unanimidades em um ano fraco para atrizes, o que pode lhe valer uma estatueta de melhor atriz. Além dela, o trabalho do intérprete de seu pai, Dwight Henry, também está cotado para indicações na categoria coadjuvante. Melhor filme também é uma das apostas para Beasts of the Southern Wild, que deve chegar no Brasil no início do ano que vem, quando pipocarem as indicações a Globo de Ouro e Oscar. É um rival forte para The Master e Argo, especialmente se levarmos em conta que o longa possui uma proposta muito mais digerível para o público que os demais.

Outro candidato estrangeiro é o francês De rouille et d'os, de Jacques Audiard (O Profeta). Além da categoria estrangeiro, o longa promete ser responsável pelo tão aguardado retorno de Marion Cotillard, vencedora do Oscar em 2007 por Piaf - Um Hino ao Amor, aos prêmios, após injustas esnobadas em Inimigos Públicos, A Origem e Nine (tá, eu sei que o filme não merecia muitos prêmios, mas quando a Academia teve que optar por uma indicada a coadjuvante escolheu Penélope Cruz e se tinha uma interpretação no musical de Rob Marshall que merecia atenção era a de Cotillard). O filme é um romance entre uma treinadora de baleias paraplégica e um ex-boxeador que tenta ter uma vida "normal" ao morar com o filho, sua irmã e seu cunhado. O longa foi bem recebido em Cannes e muito se especulou sobre Marion Cotillard levar a Palma de Ouro de melhor atriz na ocasião, o que não aconteceu. Junto com Quvenzhané, Cotillard tem o desempenho feminino mais comentado da temporada. No entanto, o pódium das duas pode ser abalado pelo fator "babe", semelhante ao que aconteceu nas vitórias de Gwyneth Paltrow por Shakespeare Apaixonado (contra o desempenho formidável de Cate Blanchett em Elizabeth) e Reese Whiterspoon por Johnny e June (contra  Felicity Huffman em Transamérica), já que Keira Knightley está no páreo com Anna Karenina, mas isso é conversa para mais adiante. De rouille et d'os ainda não tem estreia prevista no Brasil.

Para fechar a lista de candidatos europeus, o vencedor da Palma de Ouro de Cannes, e candidato oficial da Áustria ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Amour, de Michael Haneke (Caché e A Fita Branca), também promete reservar indicações para sua dupla de protagonistas, os veteranos franceses Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintgnant. Os dois protagonizam a história de um casal de professores de música aposentados que tem a relação testada quando ela fica enferma. Além de levar Cannes, o filme acaba de ser exibido em Telluride com grande êxito e promete ser também uma grande chance para Haneke ser indicado nas categorias direção e roteiro original, além de melhor filme. Novamente, uma grande possibilidade se levarmos em consideração que os candidatos norte-americanos pouco se revelaram.


Fora do circuito Telluride-Veneza, o Festival de Toronto começou na última sexta-feira e uma das sessões especiais foi do romance Anna Karenina, nova incursão do cineasta Joe Wright (Orgulho e Preconceito e Desejo e Reparação) no gênero romance de época. Desta vez adaptando Tolstoi, o diretor se reúne novamente com Keira Knightley para contar a história da aristocrata Anna Karenina, uma mulher cuja vida dá uma guinada quando resolve ter um relacionamento extra-conjugal com o influente Conde Vronsky na Rússia do final do século XIX. O grande chamariz do filme de Wright dessa vez é sua tentativa de torná-lo teatral, inspiração escancarada em Dogville, de Lars Von Trier. Para isso, Wright rodou todo o longa em um grande teatro da Inglaterra e não há uma externa sequer em todo o filme. O que se comenta nas sessões de Anna Karenina, até então, é que o filme possui o requinte estético, esperado em um filme do diretor inglês (podem aguardar indicações como direção de arte e figurino). Keira Knightley parece ser mesmo um dos nomes na temporada, contudo muitos fazem a comparação do desempenho da atriz com outras que interpretaram a mesma personagem, especialmente Greta Garbo e Vivien Leigh. Segundo críticos, não é o desempenho avassalador da temporada, mas uma interpretação que merece atenção e que tem grandes chances de surgir em algumas premiações. O filme ainda traz Jude Law e Aaron Johnson no elenco. Ainda não há previsão para sua estreia no Brasil.

 


Ainda em Toronto foram exibidos The Place Beyound the Pines, de Derek Cianfrance (Namorados para Sempre), e Silver Linings Playbook, de David O.Russell (O Vencedor). O primeiro decepcionou os críticos, já o segundo colheu elogios rasgados, sobretudo para o desempenho de Jennifer Lawrence, outro nome a surgir na bolsa de apostas do Oscar. 

The Place Beyound the Pines é a nova parceria entre Derek Cianfrance e Ryan Gosling, que juntos fizeram Namorados para Sempre. No filme, Gosling interpreta um motociclista que para sustentar mulher e filho acaba praticando alguns atos criminosos. O longa ainda tem no elenco Bradley Cooper (também em Playbook), Eva Mendes e Rose Byrne. Pouquíssimas notas ou críticas positivas, chegando muitos a dizer que trata-se de uma decepção se levarmos em consideração que Cianfrance fez um dos filmes mais marcantes de 2010.

Silver Linings of Playbook contornou a descrença de muitos que não viram no primeiro trailer do longa um material que pudesse gerar indicações a prêmios. O novo filme de David O.Russell parece ser um daqueles dramas positivos cheios de pitadas de humor. O longa conta a história de um professor que após passar anos em uma instituição para pessoas com disturbios mentais retorna a sociedade. O protagonista tenta colocar sua vida de volta nos trilhos, reencontrando sua ex-mulher e voltando ao convívio com seus pais. Lawrence interpreta uma garota por quem o protagonista acaba se apaixonando, ela tem depressão e problemas com a família em função do que os psiquiatras diagnosticaram como "natureza promíscua". Como já mencionado parágrafos atrás, o protagonista é feito por Bradley Cooper e o filme ainda conta no elenco com Robert DeNiro e Jacki Weaver. Aposta para melhor filme, direção, roteiro adaptado, atriz... Surpresa (nem tanto).

Em Toronto também houve a exibição de The Perks of Being a Wallflower, ou, como será chamado no Brasil, As Vantagens de ser Invisível, pequeno longa de Stephen Chbosky. Vem sendo um dos queridinhos do festival, principalmente por ter uma veia mais pop. O filme conta a história de um tímido adolescente que passa a conhecer a malícia do mundo através da amizade de dois outros adolescentes, vividos por Emma Watson (Harry Potter) e Ezra Miller (Precisamos falar sobre o Kevin). A performance de Logan Lerman (Percy Jackson) foi muito elogiada. O filme chega no Brasil em novembro desse ano.           Uma das mais curiosas sessões do festival ficou por conta de Cloud Atlas, nova ficção-científica dos irmãos Wachowskis (Matrix) e do alemão Tom Tykwer (Corra Lola Corra). O filme acompanha as conexões entre diferentes personagens em diferentes tempos e partes do mundo. Aqui atores como Tom Hanks, Halle Berry, Susan Sarandon, Jim Sturgess e Jim Broadbent interpretam mais de um personagem, em alguns momentos irreconhecíveis pelo ótimo trabalho da equipe de maquiagem. Muita gente gostou, outras nem tanto. Parece ser um material de difícil compreensão, o que em termos de prêmios pode não ser nada favorável. Alguns dizem que tende a ser um clássico, mas as reações positivas a ele só virão com o tempo. O longa deve chegar ainda esse ano no Brasil. 

 

Fora desse circuito de festivais, The Impossible, já batizado no Brasil de O Impossível, teve uma ótima recepção em exibições prévias. O filme acompanha a tentativa de sobrevivência de uma família após o tsunami na Indonésia. Naomi Watts tem recebido as críticas mais favoráveis, sendo uma séria candidata ao Oscar de melhor atriz - um retorno a se comemorar após quase dez anos de sua primeira e única (!!!) indicação ao prêmio, por 21 Gramas -, além do garoto Tom Holland, um dos filhos do casal protagonista do filme. Ewan McGregor interpreta o pai e também pode surgir como uma possibilidade entre os indicados. O filme é dirigido por Juan Antonio Bayona (O Orfanato) e chega no Brasil no dia 21 de dezembro.

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Chovendo Sapos: Veneza, Telluride e Toronto aquecem os motores para a temporada de prêmios
Veneza, Telluride e Toronto aquecem os motores para a temporada de prêmios
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