Minha culpa, minha máxima culpa

Evan Rachel Wood e Kate Winslet: um dos raros momentos de afeto de Veda com a mãe Mildred.
Mildred Pierce

A temática feminina me é interessante por razões pessoais que não me cabem contar neste blog. No entanto, posso dizer que praticamente fui criado por mulheres e compreendo bem as angústias femininas frente a um mundo eminentemente machista, ainda que seja um descaso camuflado. Mildred Pierce, minissérie da HBO, foi escrita e dirigida pelo brilhante, mas pouco visitado cineasta Todd Haynes, homem responsável por Velvet Goldmine, Longe do Paraíso (talvez sua obra máxima, com uma interpretação fascinante de Julianne Moore) e Não Estou Lá (cinebiografia inventada de Bob Dylan). Baseada no livro homônimo de James M. Cain, que por sua vez inspirou o filme de 1945, protagonizado por Joan Crawford, chamado no Brasil de Almas em Suplício, Mildred Pierce é um melodrama característico da época. Uma ode ao gênero bem diferente daquela feita por Haynes em Longe do Paraíso.

A obra traz a história de uma divorciada que consegue a independência financeira para criar suas filhas em plena Depressão americana. Mildred começa trabalhando como garçonete, abre um restaurante a partir de uma ideia bem interessante e logo transforma o negócio em um grande empreendimento com diversas ramificações. A ascensão de Mildred segue em descompasso com a relação que mantém com sua filha mais velha, ironicamente chamada de Veda (em inglês, pronuncia-se "Vida"). A garota é cínica, manipuladora e mimada, levando Mildred ao desespero por nunca suprir as suas necessidades.

Veda é fruto do abandono sofrido pela burguesia norte-americana do período. Com a crise econômica, a menina, que sempre teve tudo, passa a lidar com uma nova realidade e culpa sua mãe por não suprir aquilo que considera como suas necessidades. Mildred é uma mulher simples, de poucas ambições. Já Veda quer fazer parte das altas rodas da sociedade, preza pela sofisticação e cultiva o temperamento explosivo típico dos artistas. A relação se deteriora a olhos vivos - só não aos de Mildred -, piorando quando a garota cresce e sai de casa para ganhar a vida como tenora. Não sem antes arruinar a vida da pobre Mildred que custa acreditar que sua própria filha tenha se tornado uma criatura tão perversa.

Mildred tenta dissuadir a geniosa filha.
Mildred Pierce tem um grande argumento, conduzido com firmeza por Haynes. A culpa materna, algo que já vimos nesse mesmo ano em Precisamos Falar sobre Kevin, é um dos grandes temas da produção. A protagonista nunca consegue atender às demandas da própria filha. Assim como a personagem de Tilda Swinton no filme de Lynne Ramsay, a Mildred de Kate Winslet se sente responsável pela pessoa que Veda se tornou. Além de enganar-se tentando encontrar alguma justificativa para os atos da menina ou algum indício de que Veda irá se regenerar, Pierce se autoflagela pela convicção de que, de alguma forma, foi culpada pelo destino da menina. Até libertar-se desse fantasma (será que isso realmente acontece?), Pierce é destroçada pela garota. Em síntese a eterna e inescapável sensação de responsabilidade dos pais pelo destino dos próprios filhos. Onde foi que eu errei?

Como mencionei no início, Mildred Pierce não apresenta o mesmo cunho metalinguístico de Longe do Paraíso, outra obra do diretor que flerta com o melodrama. Dividida em cinco partes, a minissérie tem um senso cinematográfico admirável e constitui-se como uma obra do subgênero sem atalhos. Haynes confia as rédeas de Mildred Pierce a Kate Winslet, que mais uma vez não decepciona e faz da personagem um dos melhores e mais aplicados trabalhos de sua carreira. Winslet, como de praxe, evita os excessos e aposta nos gestos calculados, compreendendo muito bem a culpa que corrói a personagem, que se humilha em busca de qualquer migalha de atenção da filha. Em uma das cenas mais incríveis deste trabalho da atriz, Haynes foca suas atenções para a reação de Mildred durante a primeira apresentação da filha em Nova York. Enfim, junta-se a tantas outras composições da atriz, como as de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, Titanic, Razão e Sensibilidade, O Leitor e Foi Apenas um Sonho. Kate é essencialmente técnica, ocasionalmente intuitiva, e qualquer tarefa pode ser dada a ela .

Mildred e Monty: um dos raros momentos em que a personagem se liberta das amarras da maternidade termina mal.
O trabalho, exibido originalmente na HBO, chega em DVD e Blu-Ray no Brasil. Além de Winslet, Guy Pearce também está muito interessante como um playboy por quem Mildred acaba se apaixonando. A intérprete da filha na fase adulta é Evan Rachel Wood, que até tem uma presença interessante na pele da detestável Veda. Há ainda participações pontuais de Melissa Leo, a melhor amiga de Mildred, e Hope Davis. No entanto, o espetáculo todo é de Kate Winslet e do seu realizador Todd Haynes que leva mais uma obra feminina para o público, contrariando as regras de que histórias sobre mulheres não funcionam para grandes públicos. Mildred Pearce é um trabalho complexo e sofisticado que lança um olhar sobre a difícil e por vezes ingrata missão de ser mãe, de ser mulher. Contrariando expectativas da própria Mildred, Veda só reserva recalque e desprezo para a própria mãe. A protagonista é condenada ao purgatório e afoga sua consciência em culpa.  Nem todas as almas boas são levadas ao céu. Afinal, o mundo nunca foi justo com elas...



Mildred Pierce, 2012. Dir.: Todd Haynes. Roteiro:Todd Haynes, James M.Cain, Jon Raymond e Jonathan Raymond. Elenco: Kate Winslet, Guy Pearce, Evan Rachel Wood, Melissa Leo, Hope Davis, Brian F. O'Byrne, James Le Gros, Morgan Turner, Mare Winningham, Halley Feiffer, Miriam Shor. Warner.

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Chovendo Sapos: Minha culpa, minha máxima culpa
Minha culpa, minha máxima culpa
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