Oscar 2012: O Improviso que deu certo

Produtor, diretor e elenco de O Artista sobem ao palco pra receber o Oscar de melhor filme.
A 84ª entrega do Oscar ofereceu a cerimônia que todos esperavam: prêmios justos, grandes esnobadas e muito, mas muito pouco drama. Tudo resultado da mudança às pressas do apresentador da edição de 2012 do prêmio e do produtor envolvido na festa. No lugar de Brett Ratner e Eddie Murphy – o primeiro ficou envolvido em declarações preconceituosas desnecessárias sobre homossexualidade e o segundo retirou-se da apresentação em consideração ao amigo – foram substituídos por Brian Grazer e Billy Crystal. Talvez por isso tudo, em termos de espetáculo, tenha sido tão óbvio (Cirque Du Soleil, sério? Que original!).

A competição também não ajudou a tirar o clima de favoritismo de dois filmes na noite: O Artista e A Invenção de Hugo Cabret, cada um vencedor de 5 estatuetas. O Artista venceu as categorias principais, o que o legitimou como o vencedor na categoria de melhor filme. Já A Invenção de Hugo Cabret fez mais sucesso que o esperado em categorias técnicas e artísticas, um sucesso merecido, diga-se de passagem.

Jean Dujardin e o cachorrinho Uggie: Oscar de melhor ator para O Artista.
O Artista faturou o grande prêmio da noite, um Oscar que não ficaria em péssimas mãos caso Scorsese e seu Hugo Cabret  tivesse sido o grande prêmio desta edição. Da lista de nove indicados, três foram sublimes: O Artista, A Invenção de Hugo Cabret e A Árvore da Vida. Como é difícil estabelecer parâmetros com  A Árvore da Vida, um caso à parte, o Oscar faria justiça se premiasse O Artista ou Hugo Cabret. Corações divididos e O Artista vence com méritos. Particularmente, fazia anos que não gostava tanto de um vencedor do Oscar (o último foi Beleza Americana em 1999).

Outros favoritismos para o filme mudo de Michel Hazanavicius que se confirmaram foram nas categorias melhor direção e melhor ator. Ainda que o longa de Martin Scorsese seja encantador, Hazanavicius merece as honras por ter transformado seu pequeno filme em uma obra tão legítima e carinhosa com a sétima arte, a grande homenageada do ano. De longe, Hazanavicius encontrou mais dificuldades na confecção de um trabalho artesanal. Scorsese tinha uma equipe competentíssima, os melhores profissionais em suas áreas, e anos de bagagem. Hazanavicius só contava com a vontade de realizar um filme tão gracioso quanto O Artista. E como foi glorioso ver Jean Dujardin vencer o Oscar de melhor ator. Ainda que a imprensa estrangeira tenha insistido em alardear que a disputa desta edição estava entre George Clooney e Brad Pitt (falta de gente tarimbada na cobertura do Oscar é fogo!), estava óbvio que o francês seria o grande vencedor da premiação. Sem sombra de dúvidas, merecido.
O longa também levou as estatuetas de melhor trilha sonora original, um trabalho incrível de Ludovic Bource em composições que sustentam toda a trama, uma aposta também óbvia de vitória.  Talvez a grande surpresa entre os Oscars de O Artista tenha sido na categoria melhor figurino. Enquanto todos apostavam nas cores e na opulência de W.E. ou Jane Eyre, O Artista venceu até mesmo Hugo Cabret.

O casal Dante Ferretti e Francesca Lo Schiavo ganham um dos cinco prêmios de A Invenção de Hugo Cabret: melhor direção de arte.
Vamos ao outro grande vencedor da cerimônia. A Invenção de Hugo Cabret confirmou a excelência de sua equipe artística e técnica, gente que trabalha há anos com Martin Scorsese. O mais merecido e óbvio prêmio do longa foi o de melhor direção de arte, praticamente imbatível. No entanto, o primor estético do filme traz uma linha tênue na definição da grande culpada por tamanha beleza.

O que faz Hugo ser um filme arrebatadoramente deslumbrante? Sua direção de arte? A fotografia? Os efeitos visuais? Talvez uma combinação dos três elementos, mas a justiça maior está na premiação da direção de arte. No entanto, a Academia entendeu por bem premiar o filme também com os Oscars de melhor fotografia e melhores efeitos visuais. Com isso, trabalhos pioneiros e históricos, como a fotografia de A Árvore da Vida e os efeitos visuais de Planeta dos Macacos – A Origem foram praticamente ignorados. Uma injustiça que provavelmente será lembrada daqui há alguns anos. Só não é tão revoltante por estes prêmios estarem nas mãos de A Invenção de Hugo Cabret. O filme também levou os Oscars de edição de som e mixagem de som, uma decisão interessante da Academia já que tradicionalmente estes prêmios tendem a ser dados a filmes mais barulhentos, blockbusters.
Meryl Streep leva o tão esperado terceiro Oscar de sua carreira: melhor atriz por A Dama de Ferro.
 Com duas estatuetas, as únicas indicações para o filme, A Dama de Ferro venceu dois Oscars, um merecido e outro não. Meryl Streep é um assombro, uma grande atriz. Por ser a grande figura que ela é e representa na história do cinema, não merecia ter sua biografia manchada pela vitória em um filme tão oco quanto A Dama de Ferro. Sim, ela está soberba, como de costume. Mas o filme de Phylida Lloyd é tão ruim e oferece tão pouco de Margaret Tatcher ao público e para a composição da atriz, que nem mesmo os esforços de Streep salvam a produção. Um verdadeiro engodo cinematográfico. Entre as favoritas, o prêmio estaria em mãos melhores com Viola Davis, de Histórias Cruzadas. E não me venham com essa de que Viola tem uma longa carreira pela frente e outros papeis virão. Quem garante? Outras tantas grandes intérpretes já sofreram pelo descaso,  atrizes maduras, especialmente negras. Esse era o momento de Viola, a interpretação de sua carreira. A Academia resolveu consertar a injustiça por não ter concedido o terceiro Oscar a Streep cometendo outra injustiça, não premiar Viola Davis por Histórias Cruzadas. Típico.

No entanto, seria injustiça afirmar que A Dama de Ferro não mereceu o Oscar de melhor maquiagem. O trabalho da equipe de maquiadores na transformação de Meryl Streep em Margaret Tatcher é um assombro.
Christopher Plummer bate um recorde e vence o Oscar de melhor ator coadjuvante por Toda Forma de Amor.
Toda Forma de Amor  também levou um merecido prêmio. Christopher Plummer foi escolhido como o melhor ator coadjuvante do ano com a única indicação que o filme recebeu – uma grande injustiça já que devia também ter sido indicado a melhor roteiro original. Octagenário, Plummer é o mais velho vencedor de um Oscar. O recorde seria batido de uma forma ou de outra naquela noite já que o seu concorrente direto era Max Von Sydow de Tão Forte e Tão Perto, que tem a mesma idade do vencedor.

Octavia Spencer vence o Oscar de melhor atriz coadjuvante por Histórias Cruzadas.
Não posso dizer que tenha pulado de alegria com a vitória de Octavia Spencer como melhor atriz coadjuvante por  Histórias Cruzadas. Diferente de sua colega Viola Davis, Spencer se equivoca na composição de sua personagem, cai no equívoco de confundir irreverência com histeria, perdendo ótimas oportunidades para humanizar sua personagem. Há que se ponderar, Spencer não é a única que compõe com unidimensionalidade sua personagem no filme, Bryce Dallas Howard faz o mesmo ao simplificar Hilly como uma vilã de folhetim. A premiação da atriz, no entanto, foi um passo equivocado. Antes tivessem concedido as glórias para Jessica Chastain, também indicada na categoria por Histórias Cruzadas.

Kirk Baxter e Angus Wall recebem o prêmio de melhor montagem para Millenium - Os Homens que não Amavam as Mulheres.
A grande surpresa da noite ficou por conta da vitória de Millenium – Os Homens que não Amavam as Mulheres em melhor montagem ou edição. Há anos a Academia não premiava um filme nesta categoria sem que ele tivesse sido indicado a melhor filme. Por isso as apostas estavam com O Artista, A Invenção de Hugo Cabret e O Homem que Mudou o Jogo. Nesse departamento os trabalhos de Millenium e O Homem que Mudou o Jogo eram meus favoritos. A dupla de Millenium já tinha feito um trabalho primoroso em A Rede Social, também vencedor do Oscar na categoria. Enfim, um alento para um filme que merecia a décima e inexistente vaga de melhor filme.

Os roteiro escolhidos pela Academia foram os de Os Descendentes e Meia-Noite em Paris. Alexander Payne, Nat Faxon  e Jim Rash subiram ao palco para receber a estatueta de melhor roteiro adaptado por Os Descendentes, um prêmio previsível. Justiça seja feita, O Homem que Mudou o Jogo merecia vencer a categoria por ter transformado um livro de estratégias administrativas em um grande longa de ficção com personagens consistentes. Já Woody Allen, sempre ausente no Oscar, venceu o prêmio de melhor roteiro original por Meia-Noite em Paris, mais do que merecido se levarmos em consideração a concorrência.

Gore Verbinski recebe prêmio de melhor animação por Rango.
O Oscar de melhor filme estrangeiro foi para o iraniano A Separação, escolha antecipada em função da façanha do filme ter conseguido uma indicação ao Oscar de melhor roteiro original. Já a animação do ano foi Rango, também imbatível na categoria. Justo

Bret McKenzie recebe Oscar de melhor canção original para Os Muppets.
O mico desta edição foi a categoria melhor canção original. Não pela óbvia derrota de Carlinhos Brown e Sérgio Mendes com “Real in Rio”, mas por trazer somente dois indicados. Contudo, os dois seriam merecedores. Sem bairrismo, o prêmio estava em boas mãos, independente de quem ganhasse. Cada um dos trabalhos tem suas exigências específicas e, mais importante em uma premiação de cinema, dialogam muito bem com a proposta de seus respectivos filmes. Os Muppets venceu com “Man or Muppet”, uma canção que é irônica e “brinca” com os signos do show business hollywoodiano. Essa é a maravilha de Os Muppets. Óbvio que o trabalho de Brown e Mendes em Rio é incrível, mas, infelizmente, quando o assunto é Oscar, o brasileiro faz questão de desmerecer seus concorrentes. Como Os Muppets nunca foram bem recpecionados no Brasil, ouviremos por muitos anos a ladainha da derrota de Rio no Oscar.


O melhor documentário desta edição foi Undefeated, que traz uma trama parecida com a de O Homem que Mudou o Jogo, mas no formato diferente. A Academia contrariou as expectativas que davam como certa a vitória de Paradise Lost 3 ou Pina.
Para completar a lista, os curtas escolhidos foram The Shore (curta de ficção em live action), Saving Face (curta documentário) e The Fantastic Flying Playbooks (curta animação).

O Artista - 5 Oscars
Melhor Filme
Melhor Direção (Michel Hazanavicius)
Melhor Ator (Jean Dujardin)
Melhor Trilha Sonora Original (Ludvic Bource)
Melhor Figurino

A Invenção de Hugo Cabret - 5 Oscars
Melhor Fotografia
Melhor Direção de Arte
Melhores Efeitos Especiais
Melhor Edição de Som
Melhor Mixagem de Som

A Dama de Ferro - 2 Oscars
Melhor Atriz (Meryl Streep)
Melhor Maquiagem

Meia -Noite em Paris - 1 Oscar
Melhor Roteiro Original

Os Descendentes - 1 Oscar
Melhor Roteiro Adaptado

Millenium: Os Homens que não Amavam as Mulheres - 1 Oscar
Melhor Montagem/Edição

Histórias Cruzadas - 1 Oscar
Melhor Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer)

Toda Forma de Amor - 1 Oscar
Melhor Ator Coadjuvante (Christopher Plummer)

Rango - 1 Oscar
Melhor Animação

A Separação - 1 Oscar
Melhor Filme Estrangeiro

Os Muppets - 1 Oscar
Melhor Canção Original ("Man or Muppet", de Bret McKenzie)

Undefeated - 1 Oscar
Melhor Documentário

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Chovendo Sapos: Oscar 2012: O Improviso que deu certo
Oscar 2012: O Improviso que deu certo
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