A Dama de Ferro

Meryl Streep é Margaret Tatcher no omisso A Dama de Ferro.
Triste constatar que, no final das contas, A Dama de Ferro é um daqueles filmes cuja única razão de ser é colecionar prêmios. O pior é que esta cinebiografia de Margaret Tatcher é tão decepcionante que falha até neste quesito, ou seja, na ânsia de trazer títulos para si acabou conseguindo somente o mais óbvio deles, o de melhor atriz para Meryl Streep. A sensação que fica ao final da projeção é de que este anseio de seus realizadores foi posto à frente de sua própria biografada, resultando em uma produção confusa, superficial e covarde no retrato de uma das figuras mais controversas do século XX, a ex-primeira ministra da Inglaterra Margaret Tatcher. O resultado final é tão equivocado que nem mesmo os esforços de uma atriz do calibre de Meryl Streep conseguem salvar A Dama de Ferro do completo esquecimento.

Phyllida Lloyd, que antes já tinha trabalhado com Meryl no musical Mamma Mia!, praticamente se anula em sua função. A diretora é responsável por quadros óbvios e pouco elucidativos e se anula na esperança de que a performance de Streep seja o suficiente para oferecer ao público uma clara ideia de quem foi Margaret Tatcher. Não é, por mais que Streep se dedique em sua composição, Lloyde não consegue fazer sua parte. Claro que o roteiro fraco de Abi Morgan não contribui. Sustentando seu argumento unicamente em discussões relacionadas ao gênero, Mogan parece temer abordar com mais profundidade as decisões governamentais da biografada. Ainda que o objetivo do longa seja humanizar a personagem - e isto não significa a omissão de suas falhas como líder política -, ou melhor, por isso mesmo, passagens como seu posicionamento sobre as ilhas Malvinas e sobre a política tributária do país seriam essenciais para compreender a figura paradoxal que Tatcher representava. Mogan não tem a coragem de colocar o dedo na ferida e confunde a humanização de sua protagonista com a omissão ou tratamento superficial de aspectos cruciais de sua vida, passagens que seriam importantes para revelar com mais clareza a identidade de Margaret Tatcher.

Talvez o maior equívoco de Lloyd e Morgan tenha sido o maior acerto do filme. Confiando unicamente na performance de Meryl Streep, diretora e roteirista parecem acreditar que a mesma é suficiente para tapar qualquer lacuna deixada pela obra. É inegável que os esforços da atriz são admiráveis, mesmo quando vocifera os diálogos pouco inspirados do roteiro de Morgan - todos irritantemente grandiloquante, daqueles que jamais veríamos serem proferidos por uma figura política fora do palanque. Meryl consegue compor Tatcher como uma mulher conduzida pelo peso da representatividade de sua imagem, retratando a primeira ministra como figura que vivia permanentemente em cima de uma corda bamba. No entanto, é um trabalho visivelmente comprometido nas passagens em flashback - algo que, por sinal, o filme não consegue administrar muito bem - em função do péssimo trabalho de suas realizadores. Meryl Streep consegue um resultado melhor quando retrata Tatcher nos dias atuais, coberta por camadas e mais camadas de maquiagem, aliás, o único aspecto irretocável de todo o filme. Relegando coadjuvantes de peso como Jim Broadbent e Olivia Colman - marido e filha de Tatcher, respectivamente -, A Dama de Ferro desperdiça ainda mais suas oportunidades de fazer um retrato mais interessante e complexo de Tatcher.

A Dama de Ferro é um grande tropeço na carreira de Streep - notem como a maioria dos veículos sequer citam sua diretora. O mais curioso é que é um equívoco justamente por confiar excessivamente nos atributos dramáticos de sua protagonista, uma característica que já foi responsável pelo êxito de tantas outras produções protagonizadas por Meryl. Por desleixo ou covardia, Phyllida Lloyd e Abi Morgan não exploram o poderoso potencial do material que tem em mãos e realizam um trabalho sem viço. Desde o início de sua produção, a sensação que se teve é de que os idealizadores da cinebiografia e os agentes da atriz sentaram e pensaram: "Vamos procurar um personagem real interessante para Meryl Streep interpretar. Falta isso na carreira dela, quem sabe não lhe renda um Oscar?". Eis que nasce A Dama de Ferro, fruto da compreensão equivocada de que prêmios têm que ser o fim de determinados projetos e não consequência de seu êxito artístico.



The Iron Lady, 2011. Dir.: Phyllida Lloyd. Roteiro: Abi Morgan. Elenco: Meryl Streep, Jim Broadbent, Olivia Colman, Alexandra Roach, Harry Lloyd, Richard E.Grant, Anthony Head, Nicholas Farrell, John Sessions. 105 min. Paris Filmes

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Chovendo Sapos: A Dama de Ferro
A Dama de Ferro
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