Os Homens que não Amavam as Mulheres

Daniel Craig e Rooney Mara em Os Homens que não Amavam as Mulheres, versão fincheriana.
Desde o primeiro momento em que soube que o nome de David Fincher estava vinculado à adaptação cinematográfica norte-americana do primeiro livro do sueco Stieg Larsson para a série Millenium, Os Homens que não Amavam as Mulheres, desconfiei que não se trataria de um caça-níqueis qualquer. Os Homens que não Amavam as Mulheres já tinha se transformado em filme na Suécia em 2009, tendo suas sequências garantidas no mesmo ano. O primeiro foi dirigido por Niels Arden Oplev, ganhou ótimas resenhas e o boca-a-boca rendeu os primeiros contratos estrangeiros da atriz Noomi Rapace, intérprete de Lisbeth Salander. As demais continuações - desta vez a série esteve sob o comando de Daniel Alfredson -, seguiram o mesmo êxito financeiro, no entanto não foram muito bem quistas pela imprensa especializada.

Comparando as obras, Os Homens que não Amavam as Mulheres de  Niels Arden Oplev era um excelente filme no gênero. Bom, mas burocrático em suas opções artísticas e técnicas. Já David Fincher tranformou o universo policial de Larsson em uma autêntica e inventiva experiência cinematográfica. O diretor vai além das páginas do livro e do roteiro de Steven Zaillian e compõe um cenário pessoal, apropria-se da história, conta a sua versão dos fatos e dos personagens como se ele mesmo tivesse criado Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist. Na verdade, ele os criou, o que se vê na tela é a versão de Fincher daqueles personagens, daquela história. Assim as adaptações devem ser.

Após uma pequena pausa no gênero que o consagrou com filmes como Seven, Vidas em Jogo e Zodíaco, Fincher dedicou tempo de sua carreira com O Curioso Caso de Benjamin Button e A Rede Social, filmes que lhe trouxeram prestígio e o tornaram finalmente aceito pela Academia de Hollywood. Com Os Homens que não Amavam as Mulheres, o diretor retorna ao seu "parque de diversões" na melhor forma. O longa é frenético, incessante, sombrio e pop desde o começo dos créditos iniciais a som de Immigrant Song, uma releitura de Trent Reznor e Atticus Ross para a canção de Led Zeppelin - até seu final em aberto e que deixa bem claro que o grande interesse do policial é em Lisbeth Salander. Ainda sobre os compositores, Ross e Reznor são responsáveis por uma das melhores trilhas da temporada, uma grande injustiça não terem sido agraciados com uma indicação ao Oscar (a vitória no ano passado pela composição em A Rede Social até atenua esta grande falta da Academia com os dois). Ross e Reznor praticamente redefinem as composições pra o gênero.

Sobre a protagonista, por mais que tenhamos nos apaixonado pela Lisbeth de Noomi Rapace, fui um dos grandes defensores de seu trabalho em 2010, não há como negar que a escalação de Rooney Mara tenha sido uma das decisões mais acertadas de Fincher. Mara tem 26 anos e aparenta fragilidade com sua baixa estatura e suas feições delicadas. Enfim, o tipo físico ideal para tranformá-la em uma punk de 23 anos, com andar de um muleque de 14, cheia de piercings e tatuagens e que ganha vida como hacker e usa seu físico para repelir qualquer tentativa de aproximação de outras pessoas, um recurso que aprendeu a usar para evitar que acontecimentos de seu passado traumático se repitam. Como se não bastasse todo o trabalho corporal (aparência e postura) que a atriz se submeteu, Mara consegue lidar brilhantemente com os recursos internos de Lisbeth: sua dificuldade de socialização, sua agilidade de raciocínio, sua inicial repulsa pelo sexo oposto e a  agressividade da personagem.

Daniel Craig também é uma escolha certeira para interpretar Mikael Blomkvist. Bem distante do tipo que costuma representar nas telas, ou seja, o homem que sempre tem a última palavra e consegue se safar das situações mais complicadas possíveis, Blomkvist é um homem comum, guiado pelo ego e curiosidade, e Craig consegue compreender  e executar isso muito bem. Há também que se ressaltar os desempenhos de Stellan Skarsgaard, Robin Wright - cujo personagem, a editora da revista Millenium, foi sabiamente extendido por Zaillian - e Christopher Plummer.

Habituado e mais habilidoso com tramas mais racionais, David Fincher encontra o meio termo com Os Homens que não Amavam as Mulheres, cuja narrativa engenhosa encontra espaço para revelar os meandros de seus personagens, especialmente Lisbeth Salander, conduzida com técnica e dedicação pela jovem Rooney Mara. A adaptação de David Fincher para a obra homônima de Stieg Larsson é ousada por suas decisões sobre a trama, já que determinadas mudanças necessárias certamente jamais serão compreendidas por fãs irritantemente xiitas. Uma ousadia e coragem que poucos teriam em Hollywood. Fincher não teve medo de arriscar e remodelou um material já pronto em seus próprios termos. Só mesmo um diretor habilidoso como ele poderia fazer isso sem resultar em um grande desastre à sombra das produções de 2009. Os Homens que não Amavam as Mulheres, de Fincher, provocam um efeito contrário: colocam a trilogia sueca à sua sombra.  



The Girl with the Dragon Tattoo, 2011. Dir.: David Fincher. Elenco: Daniel Craig, Rooney Mara, Chritopher Plummer, Robin Wright, Stellan Skarsgaard, Joely Richardson, Steven Berkoff, Goran Vinsjic, Geraldine James, Tony Way. 158 min. Sony.

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Chovendo Sapos: Os Homens que não Amavam as Mulheres
Os Homens que não Amavam as Mulheres
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